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Agricultura

Guerra no Irã ameaça desencadear a pior crise alimentar global desde os anos 1970

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Os mísseis que caem no Oriente Médio estão impactando diretamente os supermercados do mundo inteiro. 

A intervenção militar dos Estados Unidos no Irã elevou o preço do barril de petróleo Brent para cerca de US$ 105 e fez os preços da gasolina americana ultrapassarem US$ 4.

Além disso, essa situação pode desencadear uma grave crise global de fertilizantes. Os preços dos alimentos podem subir até 30%, colocando milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar severa.

O gargalo no Estreito de Ormuz

Para alimentar oito bilhões de pessoas, o mundo depende de fertilizantes nitrogenados produzidos a partir do gás natural — e é exatamente esse elo que a guerra está rompendo. Com o Estreito de Ormuz bloqueado pelas forças militares iranianas, os embarques de produtos químicos agrícolas essenciais praticamente cessaram. 

O Catar, sozinho, produz 15% do suprimento global de ureia — o fertilizante sólido de nitrogênio mais usado no planeta — e controla impressionantes 50% de toda a ureia negociada internacionalmente. Hoje, quase nada disso está circulando. 

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“O potencial para que isso se torne uma crise grave para pessoas pobres e com fome está claramente presente”, alertou Matin Qaim, da Universidade de Bonn, na Alemanha, ao portal New Scientist.

A ruptura não afeta apenas o Golfo Pérsico. Países como Índia, Bangladesh e Paquistão, que normalmente fabricam seus próprios fertilizantes usando gás importado do Golfo, estão vendo suas fábricas fecharem as portas. 

A interdependência dos sistemas agrícolas globais fica cada vez mais evidente: assim como a falta de fezes de peixes está mudando o fluxo de carbono no oceano, pequenas rupturas em elos invisíveis da cadeia produtiva podem reconfigurar sistemas inteiros.

Agricultores no limite

Desde o início do conflito, o preço da ureia subiu 50%, o da amônia, 20%, e o do diesel — combustível essencial para tratores e caminhões de transporte —, disparou 60%. 

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Nos Estados Unidos, que importam cerca de 25% de todo o fertilizante consumido internamente, os agricultores do Cinturão do Milho no Meio-Oeste estão absorvendo custos devastadores. 

“Com a economia agrícola tão ruim quanto está agora, não é preciso muito para destruir o balanço financeiro de um agricultor”, disse Philip Coffin, analista independente do setor de grãos, ao jornal The Guardian.

O cenário é ainda mais sombrio porque vem se acumulando há anos. As falências agrícolas nos EUA saltaram 46% em 2025. Antes dos choques de preço mais recentes, produtores de soja já amargavam prejuízos de aproximadamente US$ 341 por hectare, e os de milho perdiam cerca de US$ 569 por hectare.

Agora, os agricultores enfrentam uma escolha impossível: plantar com prejuízo gigantesco, migrar para culturas menos exigentes em nutrientes ou simplesmente não plantar nada. 

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A analogia é clara: assim como abelhas aceleram a floração das plantas mordendo as folhas para garantir sua própria sobrevivência em períodos críticos, os agricultores buscam desesperadamente alternativas para manter alguma produtividade diante da escassez.

Uma arma geopolítica nova — e mais perigosa

A guerra no Irã vai além do que vimos em 2022, quando a invasão russa da Ucrânia chocou os mercados agrícolas globais ao bloquear exportações de trigo, milho e óleo de girassol. 

Aquele conflito atingiu os produtos finais. Este está destruindo a capacidade de produzir alimentos na origem. Com o Oriente Médio paralisado, Rússia e Belarus assumem um poder de barganha sem precedentes sobre a agricultura global. A China, outro grande produtor, restringiu severamente suas exportações de fertilizantes para proteger sua própria segurança alimentar.

Soma-se a esse quadro o paradoxo dos biocombustíveis: mais de 5% de todas as calorias agrícolas produzidas no mundo são convertidas em combustível para veículos. Nos EUA, um terço de toda a produção de milho vira bioetanol. 

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“Estamos queimando cerca de 15 milhões de pães na Europa todos os dias para biocombustíveis. É uma forma insana de produzir energia”, afirmou Paul Behrens, da Universidade de Oxford, ao New Scientist. 

Em vez de liberar esses alimentos para estabilizar os preços, alguns governos estão aumentando as cotas de bioetanol na gasolina — o que mal reduz o preço nos postos, mas tem efeito desproporcional nas mercearias.

O fantasma da instabilidade histórica

A história oferece avisos sombrios sobre o que pode vir a seguir. A má colheita de 1788 na França elevou os preços dos alimentos e contribuiu diretamente para o estopim da Revolução Francesa. As ondas de revolta que varreram a Europa em 1848 foram precipitadas pelas colheitas fracas de 1845-1846 e pela praga da batata de 1847. 

Centenas de espécies desconhecidas de mamífero podem surgir da floresta tropical, mas é nos palácios e nas ruas que a fome costuma escrever os capítulos mais turbulentos da história. “Toda vez que houve um pico nos preços dos alimentos no passado, vemos instabilidade”, alertou Behrens.

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Há saída?

Soluções técnicas existem, mas demandam tempo e vontade política. É possível produzir amônia “verde” gerando hidrogênio por eletrólise da água com energia renovável, eliminando a dependência do gás fóssil. 

No longo prazo, reduzir o desperdício de fertilizantes nas lavouras, mudar dietas para incluir mais leguminosas — que fixam o próprio nitrogênio nas raízes — e reformar as políticas de biocombustíveis são caminhos viáveis. “Se os preços dos fertilizantes dobrarem, os preços dos alimentos podem facilmente subir de 20 a 30%”, projetou Qaim. 

E com as mudanças climáticas amplificando secas, enchentes e ondas de calor, Jennifer Clapp, da Universidade de Waterloo, resume o risco com precisão: “Se tivermos grandes eventos climáticos, isso pode facilmente espiralar em algo muito mais severo.”

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