Planeta Terra
Redes iluminadas e garrafas plásticas: as novas tecnologias que prometem reduzir a captura acidental de tartarugas e golfinhos
Luzes de LED solares, dispositivos sonoros e até garrafas plásticas reutilizadas estão entre as soluções mais promissoras para reduzir a captura acidental de animais marinhos — o chamado bycatch — sem prejudicar a pesca comercial.
Uma revisão abrangente publicada na revista Nature Sustainability avaliou 42 medidas de prevenção em 121 estudos de caso e confirmou que essas tecnologias funcionam, mas que não existe solução única para todos os contextos.
O bycatch — captura incidental de espécies que não eram o alvo dos pescadores — mata milhões de animais marinhos por ano, incluindo baleias, golfinhos, tubarões, tartarugas e aves marinhas. Redes e anzóis sufocam os animais ou causam ferimentos fatais, e mesmo quando devolvidos ao mar, muitos não sobrevivem. Para os pescadores, a situação também é prejudicial: animais enredados danificam equipamentos e aumentam os custos operacionais.
“Há poucos problemas de conservação em que a indústria, os conservacionistas, os consumidores e os pescadores querem a mesma coisa”, afirma Matthew Savoca, biólogo marinho da Universidade Stanford. “Todo stakeholder quer menos bycatch.”
Tartarugas fora das redes
As tartarugas marinhas, muitas em situação de ameaça de extinção, são um dos casos mais estudados. Desde os anos 1970, dispositivos de exclusão de tartarugas — espécies de escapes instalados nas bocas das redes de arrasto — vêm sendo aperfeiçoados e regulamentados nas pescarias de camarão no sudeste dos Estados Unidos. Os modelos atuais têm eficácia de 97% e ainda poupam dinheiro aos pescadores, ao evitar que tartarugas consumam o camarão capturado.
Ainda assim, estimativas apontam que mais de 250 mil tartarugas morrem como bycatch anualmente ao redor do mundo. As redes de emalhe — que funcionam como cortinas suspensas na água — e os espinhéis de fundo são especialmente perigosos para esses animais.
Uma das soluções mais inovadoras é o uso de luzes LED ou ultravioleta nas redes de emalhe. Testes realizados na Baía de Sechura, no norte do Peru, demonstraram redução superior a 60% na captura acidental de tartarugas com o uso de redes iluminadas por LED. O pesquisador Jesse Senko, da Universidade do Estado do Arizona, foi além: desenvolveu luzes solares com flashes regulares testadas em 28 redes de emalhe no Golfo da Califórnia, México. O resultado, publicado na revista Conservation Letters em outubro de 2025, foi uma redução de 63% na captura esperada de tartarugas, sem impacto na captura do peixe-alvo.
A aceitação pelos pescadores foi facilitada por um detalhe prático: as luzes funcionaram também como boias, integrando-se naturalmente ao equipamento já utilizado. “De repente, a luz era mais ou menos parte do equipamento deles”, diz Senko. “Não era algo estranho na rede. Era apenas outra boia que piscava uma luz verde.”
Sons e garrafas contra o bycatch de mamíferos
Para proteger golfinhos, botos e baleias, os chamados “pingers” — dispositivos que emitem sons para afastar animais que usam ecolocalização — mostraram resultados expressivos. Um ensaio de campo em três pescarias norueguesas de rede de emalhe demonstrou redução de 94% na captura acidental de botos-comuns com o uso desses aparelhos.
Há, porém, um efeito colateral indesejado: em águas do Reino Unido, onde os pingers são usados há mais de uma década, observou-se aumento na captura de focas, que parecem associar o som a uma fonte de alimento — o chamado “efeito sino do jantar”. Versões de pingers com frequências fora do alcance auditivo de pinípedes já foram desenvolvidas, mas o custo ainda é uma barreira, especialmente para pescadores artesanais.
Para esses pescadores de menor escala, uma alternativa de baixo custo tem ganhado atenção: fixar garrafas plásticas às redes. Redes finas são difíceis de detectar pela ecolocalização de golfinhos e botos, mas garrafas representam um obstáculo mais perceptível. Um estudo preliminar realizado no Brasil mostrou que o método foi eficaz na redução da captura acidental da franciscana, um golfinho fluvial ameaçado. A pesquisa completa sobre as diversas estratégias de mitigação pode ser consultada neste estudo publicado na Nature Sustainability.
O desafio da implementação em larga escala
Apesar dos avanços, especialistas alertam que a maioria das soluções testadas nunca chega a ser adotada em escala. “Somos muito bons em financiar cientistas para conduzir testes de redução de bycatch, mas raramente esses testes se estendem para toda a frota”, lamenta Sarah Dolman, da Environmental Investigation Agency, organização ambiental sediada em Londres.
Para Lekelia Jenkins, cientista de sustentabilidade marinha da Universidade do Estado do Arizona, o sucesso de qualquer medida depende de políticas públicas efetivas, fiscalização e, sobretudo, da praticidade para o pescador. “Quanto menor a mudança e mais parecida com as práticas tradicionais de pesca, maior a probabilidade de adoção”, diz ela.
Jenkins também chama atenção para a dimensão humana do problema. Pescadores frequentemente se sentem culpabilizados pelo problema ambiental. “Dizemos: ‘Você é o problema. Você está capturando tartarugas e baleias. Você é o vilão’”, critica. Para ela, os pescadores precisam ser incluídos no desenvolvimento das soluções — e não podem carregar sozinhos o peso de salvar os oceanos do mundo.
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