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O ‘paradoxo da seca’: plantas do rio Colorado sugam água subterrânea no calor e reduzem ainda mais o fluxo do rio

Um estudo de Princeton revelou o ‘paradoxo da seca’: durante os verões mais quentes, as plantas ribeirinhas do rio Colorado trocam a água do solo pela água subterrânea — desviando recursos que iriam alimentar o já estressado rio e agravando a crise hídrica na região.

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Vista aérea do rio Colorado no Utah, com vegetação ribeirinha nas margens e canyon ao fundo
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Um novo estudo da Universidade de Princeton revelou um fenômeno intrigante e preocupante no já estressado rio Colorado: durante os períodos mais quentes e secos do verão, as plantas ribeirinhas ao redor do rio não diminuem seu consumo de água — pelo contrário, passam a sugar lençóis freáticos subterrâneos, desviando água que, de outra forma, iria alimentar o rio. Os pesquisadores batizaram o fenômeno de “paradoxo da seca”.

Dois anos de monitoramento no coração do Colorado

A pesquisa foi conduzida pelo High Meadows Environmental Institute da Universidade de Princeton. Os cientistas instalaram uma rede de sensores em uma área de aproximadamente 80 hectares na bacia do rio East River, no Colorado — um afluente que alimenta diretamente o rio Colorado —, próximo à cidade de Crested Butte.

O monitoramento abrangeu dois anos contrastantes:

  • 2023: alto acúmulo de neve no inverno, seguido de verão quente e seco;
  • 2024: acúmulo moderado de neve, seguido de verão fresco e chuvoso.

Os sensores mediram o movimento da água ao longo de toda a cadeia — da neve derretida até o escoamento superficial —, permitindo mapear com precisão de onde as plantas retiravam sua água em cada cenário.

O paradoxo que surpreendeu os cientistas

O resultado foi contraintuitivo: mesmo em 2023, quando a umidade do solo atingiu níveis recordes de baixa durante o verão, a evapotranspiração — o processo pelo qual as plantas liberam vapor d’água — permaneceu elevada. Isso significa que as plantas simplesmente mudaram de fonte: ao invés de usar a água disponível no solo superficial, passaram a acessar as reservas de água subterrânea mais profundas.

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Estudos anteriores já haviam estimado que o lençol freático contribui com aproximadamente 35% ± 7% do escoamento anual total da nascente do East River. O novo trabalho revela que essa dependência aumenta justamente nos momentos em que o rio mais precisa de água — durante as secas. As plantas, ao competirem por esse recurso subterrâneo, reduzem a quantidade que chegaria ao rio.

“A vegetação acessa água subterrânea durante períodos secos de verão, usando água que de outra forma chegaria ao rio.” Pesquisadores do High Meadows Environmental Institute, Princeton University, 2026

Por que isso importa para o Colorado?

O rio Colorado é um dos mais sobrecarregados do mundo. Ele abastece sete estados americanos e partes do México, fornecendo água para mais de 40 milhões de pessoas e para uma das agriculturas mais produtivas do planeta. Nas últimas décadas, a combinação de aquecimento global e uso intensivo da água reduziu drasticamente o volume dos reservatórios do sistema — incluindo o Lago Mead e o Lago Powell, os dois maiores dos EUA.

O paradoxo da seca adiciona uma camada extra de complexidade a esse cenário. Em teoria, anos com boa neve no inverno deveriam garantir mais água no verão. Mas se as plantas intensificam o consumo de água subterrânea exatamente nos períodos mais quentes e secos, parte dessa reserva nunca chega ao rio — um mecanismo oculto que agrava a crise hídrica.

Isso tem implicações diretas para o debate sobre a gestão da água em regiões áridas e semiáridas ao redor do mundo: os modelos hidrológicos tradicionais podem estar subestimando sistematicamente a demanda vegetal por água subterrânea.

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Evapotranspiração: a metade invisível do ciclo da água

Na Bacia Superior do Colorado, estima-se que a evapotranspiração devolva à atmosfera mais da metade de toda a precipitação recebida. Trata-se de um fluxo enorme de água que simplesmente “desaparece” antes de chegar ao rio, às represas ou aos aquíferos.

O estudo de Princeton sugere que, à medida que as secas se tornam mais frequentes e intensas com as mudanças climáticas, esse mecanismo tende a se amplificar: mais calor significa plantas mais sedentas, que buscam água cada vez mais fundo — com consequências potencialmente graves para o fornecimento de água em toda a bacia.

Um aviso para modelos climáticos e gestores hídricos

Os autores do estudo ressaltam que, embora os resultados venham de um único ponto de monitoramento, eles representam um mecanismo relevante para toda a Bacia Superior do Colorado. A bacia do East River é considerada um local de referência para pesquisas hidrológicas justamente por sua infraestrutura de sensores e sua representatividade como sistema fluvial de cabeceira.

O trabalho reforça a necessidade de incorporar o papel da vegetação — e sua capacidade de acessar água subterrânea — nos modelos de previsão hidrológica. Sem isso, projeções de disponibilidade de água para décadas futuras podem ser superotimistas, e as decisões de gestão baseadas nelas, perigosamente equivocadas.

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