NaturezaDescoberto fóssil de pequeno réptil do Triássico no Brasil

Do tamanho de uma lagartixa e com o primeiro dente da maxila grande e proeminente, o “Clevosaurus hadroprodon” foi descoberto no Rio Grande do Sul.
Luiza Caires, Jornal da USP4 meses atrásReconstrução do esfenodonte Clevosaurus hadroprodon. (Imagem: Jorge Blanco)
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Nem só répteis maiores como o Pampadromaeus e o Guaibasaurus habitaram a Bacia do Paraná no Triássico. Um estudo publicado no periódico Scientific Reports, do grupo Nature, apresenta um pequeno réptil da família esfenodonte, que viveu no período, entre 237–228 milhões de anos. A nova espécie foi nomeada Clevosaurus hadroprodon, em que hadroprodon faz referência ao primeiro dente do dentário e da pré-maxila, que é grande e proeminente, característica exclusiva e que diferencia a espécie das demais do gênero Clevosaurus. O fóssil foi encontrado no município de Candelária, região central do Rio Grande do Sul.

Clevosaurus hadroprodon era um animal pequeno, de tamanho semelhante ao de uma lagartixa doméstica. Ele faz parte da linhagem dos Sphenodontia, um grupo de lepidossauros (que inclui também as serpentes, os lagartos e as anfisbenas) muito diverso durante o período Mesozoico.

Os répteis desta linhagem não são lagartos, porém próximos a esses, e têm como únicos representantes vivos animais da espécie Sphenodon punctatus, o tuatara da Nova Zelândia. Tuatara é uma palavra maori que significa dorso espinhoso, e o animal é considerado em risco de extinção.

O fóssil foi estudado por paleontólogos da USP, Midwestern University (EUA), Alberta University (Canadá), Universidade Federal de Santa Maria, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Museo Argentino de Ciencias Naturales Bernardino Rivadavia e Universidade Federal de Sergipe.

Clevosaurus hadroprodon é uma descoberta importante porque combina uma fileira de dentes primitiva com a presença de dentes maciços, semelhantes a presas, provavelmente usados para competição ou defesa. Isso indica que tais especializações antecederam mudanças na dentição dos esfenodontes relacionadas a estratégias de alimentação” diz o paleontólogo Randall Nydam, da Midwestern University (EUA), um dos autores.

O tuatara da Nova Zelândia é o único “parente” vivo do Clevosaurus hadroprodon – Foto: Phillip Capper via Wikimedia Commons

Período e localização

Entre os esfenodontes, o C. hadroprodon,pertencente ao subgrupo denominado Clevosauridae, que inclui esfenodontes de pequeno porte, amplamente diversos e geograficamente espalhados entre os períodos do Triássico Superior e do Jurássico Inferior, são encontrados na América do Norte, Europa, Ásia e África, além da América do Sul.

O novo esfenodonte é a segunda espécie de Clevosaurus descrita para a Supersequência Santa Maria de idade triássica da Bacia do Paraná, famosa em exibir os dinossauros mais antigos da América do Sul, em conjunto com a Argentina, tais como Pampadromaeus e Guaibasaurus. Os exemplares atribuídos à nova espécie foram coletados em rochas da Formação Santa Maria, sendo apenas preservadas porções maxilares e dentárias, porém grande parte da dentição está completa.

Reprodução do Pampadromaeus barberena, que também habitou a região no Triássico – Foto: Gabriel de Mello/Ulbra/Divulgação

A outra espécie coletada na região central do Rio Grande do Sul, Clevosaurus brasiliensis, é conhecida por diversos restos de crânios e outras partes identificadas, incluindo espécimes juvenis e, até o momento, é exclusivamente encontrada em rochas com cerca de 225 milhões de anos da Formação Caturrita, também no RS.

Clevosaurus hadroprodon não possuía em sua morfologia dentária as características típicas de outros Clevosaurus, além de outras características cranianas. “Contudo, é o único Clevosaurus que exibe o primeiro dente do dentário proeminente e grande, assim como na pré-maxila, características que são tipicamente observadas em esfenodontes mais tardios da linhagem Sphenodontia”, diz a paleontóloga da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP Annie Schmaltz Hsiou, líder da pesquisa.

Foto (a) e desenho esquemático (b) do holótipo MMACR PV-027-T – Imagem de Randall Nydam

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Foto (c) e desenho esquemático (d) do material adicional de dentário (MMACR PV-028-T) – Imagem de Randall Nydam

Além do mais, Clevosaurus hadroprodon representa o mais antigo registro de uma dentição acrodonte (com dentes inseridos no topo do osso dentário) verdadeira dentre o esfenodontes, conferindo diversas hipóteses sobre o desenvolvimento deste tipo de dentição nesses animais. Tal morfologia demonstra que a presença de dentes acrodontes, a redução no número de dentes e o desenvolvimento de grandes dentes na pré-maxila e dentário, traços típicos de muitos esfenodontes, deve ter evoluído durante o final do período Triássico, especificamente no Carniano.

Disposição continental da Terra no período Triássico, há 200 milhões de anos. Gondwana é o supercontinente ao sul – Mapa: Wikimedia Commons

A idade carniana (período geológico) atribuída ao Clevosaurus hadroprodon, entre 237–228 milhões de anos, faz com que ele represente o mais antigo esfenodonte para as porções mais ao sul da Pangea (antiga formação continental do planeta Terra), no Gondwana, o supercontinente do sul. Anteriormente, os mais antigos esfenodontes sul-americanos eram conhecidos pelo já mencionado fóssil brasileiro Clevosaurus brasiliensisde idade noriana (225 milhões de anos) e pelo esfenodonte Sphenotitan leyesi do Triássico Superior da Argentina (Noriano/ Rético) da Formação Quebrada del Barro.

Clevosaurus hadroprodon também representa que a diversificação inicial dos esfenodontes evoluiu na América do Sul, juntamente com C. brasiliensis e outros esfenodontes fósseis da Índia, que em conjunto indicam que a divergência inicial dos membros de Sphenodontiaocorreu em porções distintas da Pangea , durante a fragmentação inicial do Gondwana. Este cenário ilustra o papel importante que a fauna de lepidossauros teve no Gondwana, aumentando o conhecimento sobre os primeiros estágios da evolução de esfenodontes e a distribuição geográfica deste grupo durante o período Mesozoico.

O artigo pode ser acessado neste link.

Matéria originalmente publicada no Jornal USP. Para ler na origem, clicar aqui.