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Aquecimento moderado já é suficiente para desencadear catástrofes climáticas extremas, aponta estudo

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Eventos climáticos devastadores associados a níveis elevados de aquecimento global podem ocorrer mesmo em cenários considerados moderados, com temperaturas apenas 2°C acima dos níveis pré-industriais. É o que aponta um estudo publicado em março de 2026 na revista Nature, conduzido por pesquisadores do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental, na Alemanha. A pesquisa indica que enchentes urbanas destrutivas, secas severas em regiões agrícolas e incêndios florestais de grandes proporções podem se tornar realidade com aquecimento de apenas 2°C, em frequência e intensidade maiores do que modelos anteriores sugeriam.

A média dos modelos climáticos pode estar escondendo os piores cenários possíveis

O ponto central da pesquisa está na metodologia adotada. O grupo liderado por Emanuele Bevacqua, coordenador do grupo de Extremos Climáticos Compostos do Centro Helmholtz, utilizou o mesmo conjunto de 50 modelos climáticos que embasa os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC. A diferença está em como esses modelos foram analisados.

Enquanto o IPCC e a maioria dos estudos climáticos trabalham com médias calculadas a partir de todos os modelos disponíveis, Bevacqua e seus colegas examinaram cada modelo individualmente, mapeando toda a faixa de resultados possíveis dentro de um cenário de 2°C de aquecimento. Esse tipo de análise expõe os extremos que as médias tendem a suavizar.

“Focar apenas no resultado mais provável ou nas médias dos modelos pode criar uma falsa sensação de segurança em relação ao aquecimento moderado”, disse Bevacqua. “A plausibilidade dos resultados extremos deve ser cuidadosamente avaliada.”

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Secas, enchentes e fogo: o que cada setor pode enfrentar

Os pesquisadores dividiram a análise em três setores estratégicos. O primeiro são as áreas urbanas densamente populadas, altamente vulneráveis a precipitações intensas. O segundo são as chamadas “breadbaskets”, ou celeiros mundiais, regiões agrícolas críticas para a produção de alimentos. O terceiro são as florestas, especialmente suscetíveis a incêndios. Para cada setor, os resultados foram classificados do menor para o maior impacto e comparados com os desfechos médios esperados para aquecimentos de 3°C e 4°C.

Nas cidades, a precipitação pode crescer entre 4% e 15% em relação aos níveis pré-industriais sob aquecimento de 2°C. Nos piores cenários, especialmente na Índia e no centro-oeste da África, os resultados superaram o que normalmente se esperaria de um aquecimento de 3°C. A capacidade limitada de drenagem urbana transforma esse aumento de chuvas em risco direto de enchentes catastróficas.

As regiões agrícolas apresentaram a maior incerteza entre os modelos. Cerca de um em cada quatro modelos indicou que as secas sob aquecimento de 2°C podem ser tão severas quanto as previstas para 4°C de aquecimento. As áreas mais afetadas nessas projeções são o subcontinente indiano, o leste da Ásia, o sul da América do Sul, o sudeste da Austrália, o Cáucaso e o centro da América do Norte.

Nas florestas, há aproximadamente uma chance em cinco de que as condições climáticas propícias a incêndios atinjam a intensidade esperada para cenários de 3°C. Canadá, África Central, nordeste da América do Sul, nordeste da Europa e partes da Rússia figuram entre as regiões mais vulneráveis nas projeções mais pessimistas. Florestas nessas áreas já perderam volumes expressivos de biomassa nas últimas duas décadas e funcionam como sumidouros de carbono fundamentais para o equilíbrio do clima global. Pesquisas em outras frentes, como as que investigam tecnologias de eficiência energética para reduzir o calor urbano, mostram que a adaptação também precisa acontecer em escala local.

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Mesmo improvável, o pior cenário precisa ser levado a sério

Bevacqua foi cuidadoso ao contextualizar o alcance da pesquisa. “Nossos resultados não significam que 2°C de aquecimento global seria tão grave no geral quanto níveis muito maiores de aquecimento”, explicou. “Eles mostram que impactos extremos em setores particularmente vulneráveis ou socialmente importantes podem ocorrer mesmo com aquecimento moderado de 2°C.”

A probabilidade dos cenários mais graves é baixa, mas não nula. E é exatamente essa janela de possibilidade que preocupa os pesquisadores. Se os piores desfechos se materializarem, as consequências seriam profundas o suficiente para exigir planejamento de adaptação antecipado, não reativo.

Christian Franzke, professor do Centro de Física Climática da Universidade Nacional de Pusan, na Coreia do Sul, que não participou da pesquisa, avaliou positivamente o trabalho. “O que há de novo neste estudo é que os autores demonstraram uma ampla variação de impactos, do melhor ao pior, dentro de um único cenário de aquecimento”, disse Franzke. Ele pondera, no entanto, que os modelos climáticos podem não capturar todas as dinâmicas do mundo real. “No mundo real, podemos enfrentar surpresas negativas inesperadas”, alertou.

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