Milícias de abelhas clones ameaçam outras espécies

Mateus Marchetto
Ainda nos anos 90 estas abelhas começaram a criar um exército de clones. Imagem: PollyDot/Pixabay

Nos anos 90, uma única fêmea operária de abelha-do-Cabo desenvolveu uma nova habilidade genética. Essa novidade permitiu que a operária gerasse abelhas clones dela mesma, e essas clones teriam a mesma habilidade. Desde então o exército dos clones vem crescendo e agora ameaça outras espécies de abelhas, segundo nova pesquisa.

Acontece que as operárias da espécie são estéreis e apenas se reproduzem por telitoquia. Ou seja, elas botam ovos com um material genético praticamente igual ao seu próprio. Todavia, nesse processo há, normalmente, uma recombinação genética (uma realocação da informação genética) para gerar animais ao menos um pouco diferentes.

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Imagem: xiSerge / Pixabay

O que aconteceu em 1990 foi que uma abelha-do-Cabo operária conseguiu botar um ovo sem precisar de quase nada de recombinação genética. Normalmente isso tornaria o ovo inviável, mas por algum motivo ainda desconhecido, ele sobreviveu. A partir daí as descendentes (são todas fêmeas, devido à telitoquia) desta única operária vêm se clonando e crescendo exponencialmente.

Para reforçar isso, os pesquisadores fizeram um mapeamento genético dos animais, que levou a uma provável única descendente há mais ou menos três décadas atrás. Além do mais, os cientistas fizeram com que a rainha se reproduzisse por telitoquia também, o que normalmente não acontece. Isso mostrou que a casta mais alta, da rainha, possui até 100 vezes mais variabilidade pela recombinação do que as operárias.

O problema genético e ecológico das abelhas clones

A reprodução sexuada é muito importante em populações animais justamente pela variabilidade genética. Ou seja, quando dois animais distintos se cruzam, eles trocam material genético e formam um organismo completamente novo. Esse filhote, por conseguinte, pode ter novas características que podem ser vantajosas para a população como um todo.

Quando uma população é composta de clones, ou tem pouca variabilidade (como em populações consanguíneas), então, o risco aumenta. Isso porque uma única doença, por exemplo, poderia acabar com literalmente todos os indivíduos. Isso acontece, vale lembrar, porque não há geração de novas características, como a resistência a certas doenças.

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Imagem: PollyDot/Pixabay 

Além do mais, pesquisadores vêm observando que estas milícias de abelhas clones estão invadindo colônias de outras espécies. Para resumir, elas perderam o senso de comunidade comum das abelhas, e passaram a ter um comportamento narcisista. Assim, elas privilegiam seus ovos ao invés dos da rainha de sua colônia ou de outras.

Acredita-se que estes clones são responsáveis pelo declínio de 10% nas populações de abelhas-africanas desde os anos 90 – não coincidentemente. Isso porque as abelhas clones podem botar seus ovos nos ninhos de rainhas de outras colônias, criando uma rainha fake que irá desestabilizar toda a estrutura social das pobres abelhas-africanas.

Como dito antes, as abelhas clones estão altamente suscetíveis às suas fraquezas genéticas. No entanto, elas podem causar ainda muitos prejuízos para outras espécies antes que a seleção natural cobre seu preço.

A pesquisa está disponível no periódico The Royal Society Publishing.

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