Planeta Terra
O que a ciência revela sobre o impacto do aquecimento global na nossa biodiversidade
Camille Parmesan foi a primeira cientista a provar que o aquecimento global altera a vida selvagem. Hoje, a ecóloga texana vive na França como uma espécie de “refugiada científica”, após deixar os Estados Unidos e o Reino Unido em busca de um cenário político mais favorável à pesquisa sobre o clima.
Com um currículo que inclui o Prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho junto ao Giec (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), Parmesan agora lidera uma estação experimental do CNRS. Sua trajetória é marcada pela defesa da ciência diante do ceticismo e da urgência ambiental.
O estudo pioneiro de Parmesan focou na borboleta Euphydryas editha, uma espécie sédentária que serviu como termômetro biológico. Um artigo publicado na revista Nature revelou que o clima já estava expulsando animais de seus habitats tradicionais há décadas.
Investigação de campo com rede e paciência
Para mapear o impacto climático, Parmesan não usou supercomputadores inicialmente. Ela percorreu museus nos EUA, Canadá e Europa, coletando dados de espécimes centenários. Anotou manualmente cada registro de localização para comparar o passado com o que encontraria diretamente na natureza.
A cientista passou anos em campo usando apenas uma picape, uma barraca e um caderno de notas. O trabalho exigia encontrar ovos minúsculos e rastrear danos em folhas causados por lagartas da Euphydryas editha. Foi essa observação minuciosa que revelou como a espécie estava se deslocando no espaço.
Décadas depois, ela notou adaptações surpreendentes. Devido ao calor extremo do solo, que chegou a registrar 78 °C, as borboletas passaram a botar ovos em partes mais altas da vegetação. Essa mudança comportamental é uma estratégia de sobrevivência vital contra o superaquecimento do habitat.
Parmesan critica a pressa de jovens biólogos que se limitam a análises de laboratório. Para ela, sem observar o organismo no seu ambiente natural, é impossível conectar resultados genéticos com a realidade. “Se você não gasta tempo observando a espécie, não entende o que ocorre na natureza”, afirma.
Novas estratégias para um futuro incerto
A proteção da biodiversidade hoje enfrenta um dilema: como preservar espécies que estão em constante movimento? Parmesan sugere abandonar a ideia de proteção estática para adotar um “portfólio de seguros”. O plano deve ser flexível e adaptável conforme as mudanças observadas em tempo real no campo.
A ecóloga defende o uso de modelos matemáticos que simulam milhares de cenários futuros. Em vez de proteger apenas onde a espécie vive hoje, deve-se focar em áreas onde ela terá chances de persistir em 30% ou 70% dos casos. Proteger apenas os locais atuais não é mais suficiente para a sobrevivência.
Áreas de alta biodiversidade, como montanhas com microclimas variados, são prioridades globais. Mesmo que as espécies originais saiam desses locais, outras chegarão, mantendo a região como um refúgio. A meta é garantir que de 30% a 50% das terras e oceanos permaneçam como habitats naturais saudáveis.
Além de grandes reservas, Parmesan destaca a importância de corredores biológicos em zonas agrícolas. Rios com margens preservadas servem de estradas para a fauna. “O corredor não precisa ser um habitat perfeito, ele só precisa permitir que o organismo atravesse a área sem ser morto”, explica ela.
O papel dos quintais e a polêmica da hibridização
Até mesmo jardins particulares podem atuar como conectores entre ecossistemas. Deixar uma parte do terreno sem cortar a grama, com mato e urtigas, ajuda pequenos animais a se deslocarem. Incentivos fiscais para proprietários que mantêm áreas naturais poderiam acelerar essa rede de proteção urbana.
Um fenômeno crescente que desafia a conservação é a hibridização. Com o degelo, ursos-polares (Ursus maritimus) estão encontrando ursos-pardos, gerando descendentes híbridos conhecidos como “pizzlies”. Antes, biólogos tentavam evitar isso a todo custo para manter a pureza das espécies originais.
No entanto, Parmesan propõe uma mudança de paradigma: o objetivo deve ser preservar a diversidade de genes, não apenas de espécies isoladas. A variação genética é o que permite que uma população evolua e se adapte à velocidade incrível das mudanças climáticas que estamos testemunhando hoje.
Historicamente, genes que persistiram em espécies próximas permitiram que animais como o Ursus maritimus ressurgissem rapidamente após períodos quentes no passado. Lutar contra a hibridização agora pode ser uma batalha perdida que, no fim das contas, reduz a capacidade evolutiva da fauna.
A velocidade do clima contra a lentidão da evolução
Muitos se perguntam por que a biodiversidade parece colapsar se os animais são tão adaptáveis. A resposta reside na rapidez do aquecimento atual. Cada organismo possui um “espaço climático” fixo, um limite de temperatura e umidade. Quando esse limite é ultrapassado rapidamente, o indivíduo morre.
Enquanto espécies se adaptam bem à poluição sonora ou luminosa, o clima exige mudanças genéticas lentas. Uma mutação que permita sobreviver a um novo regime térmico pode levar milhões de anos para se consolidar. No ritmo atual, as espécies não têm tempo para evoluir; elas precisam apenas fugir.
Durante as glaciações do Pleistoceno, as temperaturas variaram drasticamente, mas as espécies sobreviveram se deslocando geograficamente. Já no Eoceno, mudanças extremas de CO2 causaram extinções em massa porque os animais não conseguiram se mover rápido o suficiente para encontrar novos refúgios viáveis.
Parmesan reforça que populações sob estresse ainda merecem proteção. Reduzir outros fatores de pressão, como a poluição, dá a esses grupos uma chance maior de resistir. Manter habitats conectados é a única forma de garantir que a vida selvagem encontre um novo lar enquanto o clima se estabiliza.
O sucesso prático na recuperação de habitats
Um exemplo de esperança vem do “damier de Quino”, uma subespécie da Euphydryas editha na Califórnia. Ameaçada pela urbanização e pela seca, a borboleta parecia condenada. No entanto, Parmesan e sua equipe identificaram plantas hospedeiras em altitudes mais elevadas que poderiam sustentar a espécie.
Ao proteger áreas montanhosas onde a borboleta ainda não vivia, os cientistas abriram caminho para uma migração natural. Surpreendentemente, as borboletas colonizaram esses novos locais sozinhas. “Fiquei impressionada, pois não sabíamos que elas seriam capazes de voar para tão alto”, relata a pesquisadora.
Outra frente foi a restauração de “lagoas vernais”, pequenos ecossistemas que secam no verão. Em San Diego, uma dessas áreas foi recuperada em um terreno baldio cheio de lixo. Em apenas três anos, a planta Plantago erecta cresceu e as borboletas voltaram a usar o local como berçário.
Essas vitórias mostram que a conservação ativa funciona quando há conectividade. Mesmo áreas com ocupação humana esparsa podem servir de passagem, desde que ofereçam arbustos e flores silvestres com néctar. A sobrevivência depende menos de isolamento total e mais de corredores seguros para o trânsito animal.
Ciência, política e os riscos para a saúde humana
A decisão de Camille de se mudar para a França foi motivada pelo clima político hostil à ciência nos EUA e no Reino Unido pós-Brexit. Ela nota que, embora a mídia europeia se interesse por seu status de “refugiada”, o público americano parece ignorar o êxodo de cérebros que afeta suas universidades.
Para Parmesan, o ceticismo climático não prejudica apenas a natureza, mas a saúde pública. Ela estuda como doenças tropicais estão subindo para o norte. A leishmaniose, por exemplo, já avançou pelo Texas e pela França. O moinho climático está movendo mosquitos e carrapatos para regiões densamente povoadas.
Doenças como malária e dengue apareceram no Nepal pela primeira vez recentemente, um reflexo direto do aquecimento global. Na Europa, o avanço do mosquito-tigre é uma realidade que muitos governantes preferem ignorar. A saúde humana está intrinsecamente ligada aos movimentos migratórios da biodiversidade.
Apesar dos desafios, Camille Parmesan mantém a colaboração com grupos de visões opostas. No Texas, trabalhou com evangélicos que veem a preservação como um dever religioso. Para ela, o diálogo é possível quando o foco é proteger a Terra, independentemente de crenças políticas ou religiosas pessoais.
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