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A mosca que adquiriu genes contra toxinas de plantas

Nigel Cattlin/Alamy

A evolução, muitas vezes, é um jogo de estratégia. Ao longo de milhares de anos, uma espécie acaba tendo características de defesa selecionadas e, com o passar do tempo, seus predadores podem adquirir características para quebrar essas defesas. Esse movimento vem acontecendo desde os primeiros momentos da vida na Terra. Um exemplo disso é a mosca Bemisia tabaci, uma das maiores pragas agrícolas modernas.

Essa mosca (mosca-branca ou ‘whitefly’, em inglês) pode destruir facilmente cultivos inteiros de vegetais como o abacate ou a batata-doce. Estudando essa característica, portanto, pesquisadores da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, descobriram um mecanismo curioso.

(Imagem de Ronny Overhate por Pixabay )

Acontece que as B. tabaci adquiriram um gene das próprias plantas que evita que toxinas tenham efeito nas moscas. O gene BtPMaT1 funciona como um mecanismo de autoproteção de muitas plantas que produzem toxinas. Isso porque as proteínas codificadas dele ajudam a manter a toxina armazenada de forma segura dentro da planta, sem que ela cause dano a si mesma.

Acontece que os autores do estudo descobriram que a mosca B. tabaci adquiriu, de alguma forma, esse gene. Portanto esses insetos acabaram imunes a toxinas de dezenas de plantas, potencializando os seus estragos em plantações. Ademais, as B. tabaci também são vetores importantes de vírus vegetais – outro fator decisivo para a aquisição desse gene.

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Mosca naturalmente transgênica? Como?

A descoberta dos pesquisadores pode ser mais uma evidência de evolução acontecendo por transmissão horizontal de genes. Ou seja, um organismo adquire material genético já pronto, vindo de outro organismo. Esse, assim, mecanismo ocorre bastante frequentemente com vírus e bactérias, que assimilam DNA’s e RNA’s presentes no meio.

Além do mais, os microrganismos podem ter tido um papel central na resistência das moscas à toxina. Isso porque, como dito, as moscas são vetores de vírus. Esses vírus podem, em algum ponto, ter desenvolvido a resistência à toxina – um grupo de moléculas chamadas de ‘glucosídeos fenólicos’. Muitos vírus inserem o seu próprio material genético no meio do DNA do hospedeiro, e isso pode ter feito com que a mosca-branca tenha ganhado na loteria evolutiva.

(Imagem de Free-Photos por Pixabay)

De acordo com os autores, o entendimento desse mecanismo de resistência pode ser essencial para combater essas pragas agrícolas. No entanto, é preciso proceder com cautela, afinal novos agrotóxicos não são, necessariamente, a melhor solução para o problema de desperdício de alimento ao redor do mundo. Ainda assim, a partir dessa descoberta será possível desenvolver plantas geneticamente modificadas especialmente para o combate das whiteflies.

O artigo está disponível no periódico The Cell.

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Mateus Marchetto
Publicado por

Aluno de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná, professor de inglês, apaixonado por ciência e divulgação científica. Me interesso principalmente pelas áreas de microbiologia, bioquímica e bioinformática.

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