Conecte-se conosco

Planeta Terra

Lagos e rios de ‘água negra’ na Bacia do Congo estão liberando carbono com 3.500 anos na atmosfera

Lagos e rios de água negra na Bacia do Congo estão liberando carbono com até 3.500 anos de idade, sequestrado em turfeiras milenares. Pesquisadores alertam que as turfeiras tropicais podem estar se aproximando de um ponto de não retorno climático.

Publicado

em

Vista aérea do rio Likouala-aux-Herbes na República do Congo, capturada pelo satélite Copernicus Sentinel-2 da ESA
❤️
1 pessoas reagiram a isso.

Um fenômeno alarmante está ocorrendo no coração da África: lagos e rios de água negra na Bacia do Congo começaram a liberar carbono que permaneceu soterrado em turfeiras por até 3.500 anos. A descoberta, reportada em março de 2026, acende um sinal de alerta para cientistas que monitoram as mudanças climáticas globais — e sugere que as turfeiras tropicais podem estar se aproximando de um ponto de não retorno.

O que são as “águas negras” do Congo?

A Bacia do Congo abriga uma das maiores extensões de turfeiras tropicais do planeta. Essas formações — depósitos orgânicos acumulados ao longo de milênios — funcionam como enormes reservatórios de carbono, retendo gases que, se liberados, intensificariam drasticamente o aquecimento global e seus impactos na biodiversidade.

Os rios e lagos de “água negra” recebem essa denominação pela coloração escura característica, resultado da alta concentração de matéria orgânica dissolvida proveniente das florestas de turfeiras ao redor. Eles são encontrados em abundância na região central da Bacia do Congo — especialmente próximos à confluência dos rios Fimi e Kawai —, onde a vegetação pantanosa domina a paisagem.

Carbono antigo emergindo das profundezas

O que preocupa os pesquisadores é a antiguidade do carbono detectado nessas águas. As amostras coletadas por cientistas — incluindo o pesquisador Pengzhi Zhao — revelaram carbono com até 3.500 anos de idade sendo emitido para a atmosfera. Trata-se de material que havia sido sequestrado pelas turfeiras muito antes de qualquer atividade industrial humana.

Publicidade

Esse dado é especialmente preocupante porque indica que não se trata apenas de carbono recente, resultado de vegetação em decomposição, mas sim de reservas profundas e antigas sendo perturbadas. A causa exata desse processo ainda não foi completamente elucidada pelos cientistas, tornando a situação ainda mais urgente do ponto de vista da pesquisa.

“As turfeiras tropicais podem estar se aproximando de um ponto crítico.” Pesquisadores do estudo sobre a Bacia do Congo, 2026

Desafios de campo: pesquisa no coração inacessível da África

Estudar essas regiões não é tarefa simples. A maior parte dos pontos de coleta de amostras na Bacia do Congo é praticamente inacessível por via terrestre. Os pesquisadores precisam navegar de barco — em pequenas embarcações — por rios tortuosos e lagos isolados para atingir os locais de amostragem.

Essa inacessibilidade geográfica explica por que a região permaneceu tão pouco estudada até recentemente, apesar de sua enorme importância para o clima global. A expedição contou com imagens aéreas que revelaram o contraste visual entre as águas escuras das florestas de turfeiras e as águas cor de ferrugem provenientes das regiões de savana.

Por que isso importa para o clima global?

As turfeiras tropicais são consideradas um dos maiores estoques de carbono do planeta. Estima-se que as turfeiras da Bacia do Congo sozinhas armazenem cerca de 30 bilhões de toneladas de carbono — equivalente a aproximadamente três anos das emissões globais atuais de CO₂. Se esse reservatório começar a se desestabilizar em larga escala, as consequências para o clima seriam catastróficas.

Publicidade

A situação ecoa outras crises climáticas já documentadas. Espécies como o pinguim-imperador já enfrentam ameaça de extinção iminente como consequência direta do aquecimento dos oceanos — e a desestabilização das turfeiras do Congo poderia amplificar esse cenário em escala global.

Um ponto de inflexão climática?

Os cientistas alertam que as turfeiras tropicais podem estar próximas de um ponto de inflexão — um limiar a partir do qual o processo de liberação de carbono se torna autossustentável e irreversível. Caso esse ponto seja atingido, nem mesmo a redução imediata das emissões humanas seria suficiente para deter o processo.

Os pesquisadores apontam para uma combinação de fatores como possíveis causas: aumento das temperaturas, alterações nos padrões de chuva, e mudanças no uso da terra nas bordas das turfeiras. No entanto, os mecanismos exatos ainda estão sendo investigados — o que reforça a urgência de mais expedições científicas à região.

A importância de monitorar as turfeiras tropicais

A descoberta reforça a necessidade urgente de ampliar o monitoramento científico das turfeiras tropicais ao redor do mundo — não apenas na África Central, mas também na Amazônia e no Sudeste Asiático, que abrigam outros grandes depósitos de carbono orgânico antigo.

Publicidade

Para os cientistas, a Bacia do Congo está oferecendo um aviso precoce: os sistemas naturais que regulam o clima da Terra estão sob pressão crescente, e o tempo para agir — tanto na redução das emissões quanto na proteção desses ecossistemas vitais — está se esgotando rapidamente.

Publicidade
Destaques

Ofertas Imperdíveis

Garimpamos os melhores preços da semana. Economize com nossa curadoria exclusiva.

Ver Ofertas

Copyright © 2026 SoCientífica e a terceiros, quando indicado.