Humanos pré-históricos podem ter caçado tatu-gigante na América do Sul

Dominic Albuquerque
Um tatu-gigante (gliptodonte).

Alguns dos primeiros humanos na América do Sul, há muitos anos, poderiam ter aprendido a caçar tatus-gigantes (gliptodontes). Crânios de gliptodontes encontrados na costa caribenha da Venezuela sugerem que humanos estonteavam os animais com uma batida na cabeça antes de os virarem de cabeça para baixo, tendo acesso à barriga, que era macia.

Uma fenda na armadura desse tatu-gigante poderia tê-los deixado vulneráveis diante à caça humana. Quatro crânios desses mega herbívoros foram encontrados com fraturas similares na parte superior, onde a cobertura do crânio era mais fina. Os pesquisadores, em um artigo publicado na Swiss Journal of Palaeontology, acreditam que os golpes a gerarem tais fraturas foram infligidos por humanos visando deixar os animais tontos antes de alcançarem sua parte inferior, mais vulnerável.

O que é um gliptodonte?

Gliptodontes foram um grupo de espécies que, junto aos tatus, formava o grupo de mamíferos encouraçados, pertencentes à ordem Cingulata. Seu nome significa “dentes sulcados”, e eles tinham uma dieta que se baseava especialmente de gramíneas e outras plantas baixas.

Eles evoluíram na América do Sul durante o eoceno tardio e início do mioceno, há 30 milhões de anos. A formação do istmo do Panamá, há 2,7 milhões de anos, permitiu que esses animais se espalhassem pela América Central e América do Norte.

A dispersão foi possibilitada por sua capacidade de adaptação, com diferentes espécis capazes de viverem em diferentes habitats, desde pastagens baixa até áreas montanhosas acima de 1000 metros. A maior espécie, Doedicurus clavicaudatus, tinha cerca de 4 metros de comprimento e pesava 2,4 toneladas, sendo um pouco mais pesada que um rinoceronte-negro.

Grande parte desse peso se deve ao fato de os gliptodontes serem cobertos por estruturas ósseas semelhantes a escamas conhecidas como osteodermas, que se acumulam para formar uma estrutura semelhante a uma carapaça de tartaruga, mas muito mais espessa. Ao contrário das tartarugas, no entanto, os gliptodontes não podiam retrair a cabeça e, portanto, tinham uma armadura adicional no crânio.

Na outra extremidade do corpo, a cauda tinha anéis de osso adicionais que a fortaleciam para ser usada como arma. Acredita-se que os animais pudessem balançar a cauda de maneira semelhante aos dinossauros anquilossauros, e alguns gliptodontes podiam até ter uma clava pontiaguda na ponta.

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Humanos podem ter caçado gliptodontes após chegarem à América do Sul, causando sua extinção. Imagem: Jorge Blanco/Jorge Carrillo‑Briceño

Apesar das defesas, os gliptodontes foram levados à extinção, assim como muitos outros mamíferos ao final da última Era do Gelo. Ainda que as mudanças climáticas tenham sido parcialmente responsáveis, os humanos também estiveram envolvidos na perda dessas espécies.

Qual evidência temos de que os humanos caçavam gliptodontes?

Os pesquisadores foram em dois sítios arqueológicos conhecidos como Muaca e Taima-Taima, no norte da Venezuela, que representam alguns dos locais mais antigos da América do Sul a apresentarem atividade humana.

O professor Alfredo Carlini, do Museu de La Plata na Argentina, desenterrou um crânio de gliptodonte atribuído à espécie Glyptotheriun cylindricum, em Muaco, no ano de 2006.

O crânio foi comparado a outros quatro crânios de Taima-Taima, mantidos no Museo de Ciencias Naturales de Caracas, assim como com fotografias de outro espécime que desapareceu do local após uma escavação na década de 1990.

Três dos espécimes continham um padrão similar de fratura na emsma área do crânio comparado ao espécime de Muaco. Esse padrão poderia sugerir que a posição defensiva dos gliptodontes tinha um ponto cego.

Fragmentos do crânio preservados na fratura sugerem que esses ferimentos foram infligidos enquanto os animais ainda estavam vivos, com o osteoderma e o tecido mole dos animais contribuindo para mantê-los no lugar.

Os pesquisadores sugerem que, após o golpe na cabeça, o gliptodonte ficaria tonto tempo o suficiente para os caçadores terminarem o ataque, acessando a parte inferior e macia do animal.

Essa hipótese também sustentaria a descoberta anterior de uma carapaça de gliptodonte invertida e vazia em Taima-Taima, cujas condições sugerem que o animal foi virado de cabeça para baixo antes da carne e dos ossos serem retirados.

Os pesquisadores esperam continuar os estudos em diferentes sítios arqueológicos, em busca de evidências de como os humanos e a megafauna interagia na América do Sul, nos dando uma ideia melhor de como esses animais chegaram até a extinção.

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