Fibras de microplástico descobertas no estômago de peixes abissais

Mateus Marchetto

O microplástico é um efeito colateral assustador e pouco estudado da utilização tão ampla do plástico nas últimas décadas. Sendo um polímero, o plástico se degrada em pequenas partículas. Quando as partículas atingem menos de 5 mm, elas passam a ser microplásticos, possivelmente tóxicos e presentes em todos os lugares do planeta, praticamente.

Acontece que pesquisadores descobriram fibras de microplásticos dentro do estômago de diversos peixes de águas profundas, reforçando outras descobertas de contaminação mesmo em águas com profundidades altíssimas.

Ainda em 2019 uma expedição do Museu de História Natural de Londres coletou 32 peixes de águas abissais nas águas próximas à ilha Tristan da Cunha, em um dos pontos mais remotos do Oceano Atlântico.

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Imagem: sergeitokmakov / Pixabay

De volta a Londres, o aluno de Doutorado da Royal Holloway University of London, Alex McGoran, decidiu estudar os conteúdos dos estômagos dos 32 peixes. Surpreendentemente, dois terços dos indivíduos tinham microplástico em suas barrigas. 50% deles, ainda tinham viscose em suas entranhas.

A viscose, vale comentar, é uma fibra sintética de celulose tomada como natural, mas que pode ter efeitos negativos na cadeia trófica. Esse composto é, inclusive, amplamente utilizado para a produção de tecidos.

Como o microplástico vai parar na barriga de um peixe?

Um peixe pode ingerir microplásticos de forma direta ou indireta. Alguns animais marinhos se alimentam do plâncton, composto por animais e outros organismos microscópicos que têm menos do que alguns poucos milímetros.

Assim, alguns animais podem confundir as partículas de microplástico com o plâncton, acabando por ingerir de forma direta as fibras artificiais. Ainda, um predador pode comer um outro animal que já tinha microplásticos no seu corpo, consumindo-os então de forma indireta.

Nesse sentido, algumas das presas encontradas nos estômagos de peixes caçadores, como o Fangtooth, tinham já acúmulos de microplásticos em seus corpos. A partir daí, o plástico pode biomagnificar dentro do corpo dos predadores, que consomem diversas presas contaminadas.

Principalmente, os microplásticos chegam ao oceano por resíduos residenciais e domésticos. Lenços de papel, por exemplo, contém plásticos que se degradam em pequenas partículas. Outra fonte gigante destes contaminantes é a indústria têxtil, que utiliza derivados tanto nas fibras quanto no tingimento de tecidos.

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Imagem: JillWellington / Pixabay

Produtos de beleza e higiene, ainda, podem utilizar microplásticos com diversas finalidades.

Fato é que ainda se sabe pouco sobre o efeito de tanto microplástico em organismos vivos. É bastante possível que estas partículas sejam tóxicas e mesmo estejam presentes no ar de grandes cidades.

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