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Registrado como faxineiro, ele criou a cirurgia dos bebês azuis e nem foi citado no artigo

Por Editado por Elisson Amboni
Como editamos

Durante décadas, a cirurgia que começou a salvar os chamados “bebês azuis” foi atribuída ao cirurgião Alfred Blalock e à cardiologista pediátrica Helen Taussig. Quem desenvolveu a técnica, porém, foi Vivien Thomas, técnico de laboratório negro, sem diploma universitário, que em certa época constava na folha de pagamento como faxineiro. Em 29 de novembro de 1944, no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, ele ficou de pé atrás de Blalock durante a primeira operação em uma paciente. Thomas não aparece uma única vez nas 14 páginas do artigo que anunciou o procedimento, publicado em 1945 na revista JAMA.

A técnica, um desvio de sangue entre artérias, nunca foi uma cura definitiva, mas ganhava tempo para as crianças. Ela segue viva na medicina. Hoje, os cirurgiões costumam usar uma versão modificada, em que um pequeno tubo sintético liga uma artéria à artéria pulmonar, abordagem que uma equipe do Hospital Great Ormond Street, em Londres, descreveu em estudo publicado em 1981. O reconhecimento a Thomas veio devagar. O doutorado honorário só chegou em 1976, mais de 31 anos depois daquela manhã no centro cirúrgico.

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Um desvio de sangue para levar mais oxigênio aos pulmões

A primeira paciente foi Eileen Saxon, de 15 meses, que tinha lábios e unhas arroxeados. Ela sofria de tetralogia de Fallot, um conjunto de quatro defeitos cardíacos. Os dois mais relevantes são o estreitamento da saída do coração para os pulmões e um orifício entre as duas câmaras de bombeamento. Por esse orifício, o sangue pobre em oxigênio passa direto para o resto do corpo.

O artigo de Blalock e Taussig faz uma observação curiosa: a cianose, o tom azulado da pele, não é em si o que causa dano. O problema era o volume, porque pouco sangue chegava aos pulmões. Na primeira operação, os cirurgiões seccionaram a artéria subclávia esquerda, que leva sangue ao braço, e ligaram sua ponta à artéria pulmonar esquerda. Parte do sangue que já seguia para o corpo voltava aos pulmões para receber mais oxigênio.

O defeito, porém, continuava lá. Segundo a exposição da biblioteca da Johns Hopkins sobre a operação, Eileen recebeu alta em janeiro de 1945, mas a cianose voltou a piorar. Ela não sobreviveu à segunda cirurgia. Mesmo assim, o procedimento se espalhou, e em 1950 Blalock operou seu milésimo bebê azul.

Agulhas cortadas à mão e um prendedor de roupa no laboratório de cães

Thomas chegou à medicina por um caminho improvável. A Grande Depressão interrompeu seu trabalho como carpinteiro em Nashville e acabou com as economias que guardava para a faculdade. Em 1930, ele foi contratado na Universidade Vanderbilt como assistente de laboratório de Blalock. Recebia 12 dólares por semana, sem hora extra, em jornadas de 16 horas, segundo o perfil escrito pela jornalista Katie McCabe em 1989.

As versões sobre onde ele foi classificado como faxineiro divergem. O relato de McCabe, baseado nas memórias de Thomas, situa o episódio em Vanderbilt. Homenagens posteriores o associam à Johns Hopkins, para onde Blalock o levou em 1941 para comandar o laboratório cirúrgico. Na época, os únicos outros funcionários negros do hospital eram faxineiros. A biografia de Thomas preparada pela biblioteca da universidade registra que ele ganhava bem menos que brancos na mesma função.

A ideia de mandar mais sangue aos pulmões provavelmente partiu de Taussig, avalia Tom Treasure em ensaio para a James Lind Library. Transformá-la em operação coube a Thomas, em experimentos com cães. Como não havia agulhas pequenas o bastante para artérias de bebês, ele cortava agulhas de laboratório e as firmava com um prendedor de roupa. Na manhã da primeira cirurgia, Thomas ficou em um banquinho atrás do ombro direito de Blalock. Ele já tinha feito o procedimento dezenas de vezes, e Blalock só uma, como seu assistente.

Denton Cooley, então interno presente no centro cirúrgico, relatou a McCabe:

“Foi Vivien quem tinha resolvido tudo no laboratório, no coração canino, muito antes de o Dr. Blalock operar Eileen, o primeiro bebê azul.”

O artigo de 1945 menciona apenas que “muitos experimentos foram realizados” em cães, sem dizer por quem. Ainda assim, encontra espaço para agradecer a um fundo financiador e ao incentivo do primeiro assistente, o médico William Longmire. Os registros consultados não indicam de quem foi a decisão de deixar Thomas de fora.

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Blalock tampouco foi um vilão simples. Em 1937, recusou uma chefia prestigiosa em Detroit porque o hospital não contratava funcionários negros, o que excluiria Thomas. Também o manteve ao seu lado no centro cirúrgico, algo contrário às convenções de uma Baltimore onde trabalhadores negros entravam pela porta dos fundos. Por outro lado, Thomas servia bebidas nas festas de Blalock para complementar a renda. Seu salário só dobrou em 1946, depois que ele anunciou que deixaria o hospital.

Um retrato na parede antes do título de doutor

O primeiro reconhecimento veio dos cirurgiões que Thomas formou. Em 1971, eles lotaram um auditório da Johns Hopkins para entregar um retrato dele, encomendado pelo grupo e pendurado diante do retrato de Blalock. Em 21 de maio de 1976, a universidade lhe concedeu o doutorado honorário e um lugar no corpo docente da faculdade de medicina. O título era de Doutor em Direito, área que ele jamais estudou.

“Os aplausos foram tão intensos que me senti muito pequeno”, escreveu Thomas. Ele passou os últimos anos trabalhando nas memórias, que chegou a indexar em uma cama de hospital. O livro saiu em 1985, dois dias depois de sua morte. O título que ele próprio havia escolhido parece remeter ao dia em que os ex-alunos o homenagearam: “Apresentação de um retrato: a história de uma vida”.

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