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Quantos indígenas viviam na América do Norte? Carvão de fogueiras sugere pico por volta do ano 1150

Por Editado por Damares Alves
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Quantas pessoas viviam nas Américas quando Cristóvão Colombo desembarcou nas Bahamas, em 12 de outubro de 1492? Durante décadas, as estimativas variaram de 1 milhão a 112 milhões. Só agora a resposta começa a ganhar contornos mais firmes.

Uma das pistas mais sólidas vem de algo prosaico: o carvão de antigas fogueiras. Em um estudo publicado na revista PNAS em 2025, o arqueólogo Robert Kelly, da Universidade de Wyoming, e colegas analisaram mais de 100 mil datações por radiocarbono de sítios arqueológicos norte-americanos. Os dados apontam um pico populacional indígena por volta do ano 1150, séculos antes da chegada dos europeus.

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O resultado é semelhante a um padrão identificado em 2009, segundo o qual a população nativa da América do Norte pode ter declinado depois desse pico até o contato europeu. O estudo de 2025, porém, encontrou indícios de uma leve recuperação populacional pouco antes de 1500. Para Kelly, se os europeus tivessem chegado no auge populacional, a história do continente poderia ter sido muito diferente.

“Se os europeus tivessem tentado colonizar o continente no ano 1000, teriam se deparado com uma população indígena muito, muito maior”, afirmou o pesquisador.

Da paisagem lotada aos cacos de cerâmica

Os humanos vivem nas Américas há pelo menos 14 mil anos. Eles chegaram pela região do Estreito de Bering e se espalharam rapidamente pelo continente. O que aconteceu com essa população entre a dispersão inicial e 1492, no entanto, ainda é uma grande incógnita.

“Não temos boas estimativas quantitativas. Os números estão por toda parte”, resumiu George Milner, antropólogo da Universidade Estadual da Pensilvânia.

Um dos primeiros a tentar quantificar esses povos foi o antropólogo Henry Dobyns. Em um livro de 1983, ele combinou a capacidade de cada tipo de paisagem de sustentar pessoas com registros de epidemias do século 16. O resultado foi de cerca de 112 milhões de habitantes, mais de 100 vezes o que alguns especialistas imaginavam.

Segundo Milner, Dobyns “preencheu a paisagem até sua capacidade máxima”, como se todos os ambientes semelhantes tivessem o mesmo número de pessoas. Pesquisas arqueológicas das décadas de 1970 e 1980 mostraram, porém, que a ocupação das Américas não era uniforme. Por isso, a conta estava muito inflada.

A partir daí, os pesquisadores passaram a trabalhar com regiões específicas. Entre os indícios usados estão a densidade de cacos de cerâmica, a quantidade de ferramentas de pedra, o número e o tamanho das casas e padrões de mortalidade em esqueletos.

Um hemisfério com cerca de 60 milhões de pessoas

Em um estudo de 2019, geógrafos reuniram 129 estimativas de 82 trabalhos publicados. Eles dividiram o hemisfério em sete regiões, entre elas o Caribe, o México, o território inca e a Amazônia. A soma chegou a 60,5 milhões de habitantes em 1492.

Os grupos mais populosos eram os astecas, no atual México, e os incas, na costa oeste da América do Sul. Para a América do Norte, que corresponde aos atuais Canadá e Estados Unidos, a estimativa ficou entre 3 e 6 milhões de pessoas. É menos de um terço dos 18 milhões propostos por Dobyns.

Em 2010, Milner e o geógrafo George Chaplin chegaram a números parecidos. Eles mapearam concentrações populacionais a partir do tamanho histórico dos grupos e das áreas ocupadas. A conclusão foi de que a América do Norte abrigava entre 2,8 e 5,7 milhões de pessoas no início do século 16, com melhor estimativa de 3,8 milhões.

Pouco depois, esse cenário seria destruído pelo que o antropólogo Eric Wolf chamou de “Grande Morte”. A combinação de epidemias, guerras e escravização dizimou os povos indígenas em poucas décadas.

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O que as fogueiras contam sobre o passado

Para Kelly, a saída é usar um indicador que exista em qualquer lugar. “Se você quer estimar populações específicas, deve usar medidas que funcionem em todas as regiões”, explicou. Segundo ele, todos os povos precisavam fazer fogo para se aquecer e cozinhar, e isso deixa material datável por carbono em toda parte.

Essas datações, obtidas de carvão, ossos de animais e restos de plantas, estão reunidas no Banco de Dados Arqueológico Canadense de Radiocarbono (CARD). Em um estudo de 2009, o geógrafo Matthew Peros, da Universidade Bishop’s, em Quebec, e coautores combinaram cerca de 25 mil registros em uma única curva. A lógica é que períodos com mais gente provavelmente produziram mais material datável.

A curva mostrou um crescimento rápido por volta de 50 a.C. e um pico perto de 1150. Depois disso, a população pode ter diminuído, talvez pelo aumento de doenças como a tuberculose à medida que as pessoas se concentravam em povoados mais densos.

“A data de 1150 foi uma descoberta interessante que também nos surpreendeu”, disse Peros. “Eu imaginava que seria algo mais perto de 1500, logo após a chegada dos europeus.”

O trabalho de 2025 contou com um banco de mais de 100 mil datações, mais de quatro vezes o de 2009, e encontrou um pico semelhante, o que torna a estimativa mais robusta. Para Peros, a lição vai além dos números: “Havia pessoas e civilizações praticamente em todos os lugares das Américas por um longo período de tempo”.

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