Num restaurante tailandês em Glendale, na Califórnia, no fim dos anos 1970, uma dúvida corriqueira virou problema de matemática. O físico Richard Feynman, ganhador do Nobel, estava à mesa com o amigo Ralph Leighton, que hesitava: pedir o já conhecido frango com gengibre ou arriscar um prato desconhecido, que poderia surpreender para melhor ou para pior. Em vez de recorrer a uma moeda, Feynman pegou uma folha de papel e começou a rabiscar equações. Os registros sobreviveram ao tempo, mas nunca haviam passado por uma verificação independente.
Quase 50 anos depois, pesquisadores dizem ter finalmente decifrado o chamado “problema do restaurante”. A conclusão, publicada em estudo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, é que as pessoas não seguem a regra perfeita, mas chegam surpreendentemente perto dela.
Uma régua que desce a cada noite
O problema pode ser descrito assim: alguém passa um número fixo de noites numa cidade nova. A cada jantar, pode experimentar um restaurante desconhecido, cuja qualidade só descobre ao chegar lá, ou voltar ao melhor que já encontrou. O objetivo não é apenas achar o melhor lugar, e sim ter a melhor experiência gastronômica somada ao longo da viagem.
A solução de Feynman foi um patamar de exigência que se move com o tempo. No começo da viagem, vale a pena continuar explorando, a menos que se encontre algo excepcional, porque ainda restam muitas noites para aproveitar uma grande descoberta. À medida que os dias passam, explorar perde valor, e no fim até um restaurante apenas bom pode bastar.
“Os limiares são guiados pela melhor coisa que você poderia encontrar se continuasse procurando”, explicou Tom Griffiths, professor da Universidade de Princeton e coautor do estudo. “Se você tem muito tempo para procurar, encontrar algo incrível tem muito valor, porque você pode voltar lá muitas vezes.”
A questão pertence à família dos problemas de parada ótima, cuja lógica aparece na busca por apartamento, emprego, vaga de estacionamento ou parceiro amoroso. Também se aproxima do clássico dilema entre explorar e aproveitar o que já funciona. Há, porém, uma diferença: na versão de Feynman, é possível voltar a uma escolha anterior, o que torna o desafio mais parecido com montar uma lista de favoritos do que com agarrar o primeiro apartamento aceitável antes de outra pessoa.
Dos rabiscos a uma cidade virtual
Brian Christian, pesquisador da Universidade de Oxford e do Center for Human Compatible AI, da Universidade da Califórnia em Berkeley, reconstruiu as anotações com colaboradores, com ajuda do próprio Leighton e de Michael Gottlieb, responsável pelo site The Feynman Lectures. A caligrafia apressada do físico era só o primeiro obstáculo. Depois, foi preciso entender que problema exatamente aquelas equações tentavam resolver.
Feynman supunha que a qualidade dos restaurantes se distribuía de maneira uniforme. A equipe ampliou o modelo para outros cenários: um em que a maioria dos lugares é medíocre e os ótimos são raros, outro ainda mais extremo, com poucos estabelecimentos espetaculares em meio a muitos comuns, e um quarto em que restaurantes decentes são frequentes.
Em seguida, 2.520 voluntários foram recrutados on-line e colocados numa cidade virtual, com 7, 14 ou 28 noites para maximizar sua pontuação total. Eles não reproduziram a curva elegante de Feynman. Em vez disso, começavam exigentes e reduziam o padrão em linha reta ao longo da viagem, além de explorarem mais do que o ideal no início. Mesmo assim, esse atalho capturou cerca de 90% do valor da estratégia ótima.
Uma visão mais generosa da mente humana
Os resultados se encaixam na ideia de racionalidade de recursos, segundo a qual as pessoas frequentemente usam atalhos mentais não por incapacidade, mas porque o cálculo perfeito exigiria tempo, informação e esforço demais. “As pessoas não fazem a coisa perfeita, mas fazem um uso quase perfeito de seus recursos limitados”, disse Christian. Os participantes inclusive ajustavam o comportamento: quando o cenário sugeria joias raras, começavam mais exigentes; quando os restaurantes eram parecidos entre si, se contentavam mais cedo.
O experimento, porém, é mais limpo que a vida real, em que preço, distância, humor e uma noite ruim alteram a experiência. “Como qualquer problema matemático, o problema do restaurante de Feynman abstrai parte da realidade bagunçada da vida”, reconheceu Christian.





