Muito antes das pirâmides e das múmias, a morte de um faraó pode ter significado também a morte de boa parte de sua corte. Uma nova análise de restos humanos enterrados ao redor de túmulos reais da Primeira Dinastia egípcia encontrou, em alguns indivíduos, fraturas no crânio compatíveis com golpes violentos aplicados perto do momento da morte. O achado reforça a hipótese de que servos, oficiais e membros do círculo íntimo do rei eram sacrificados para servi-lo na vida após a morte.
O estudo foi conduzido pela egiptóloga e bioarqueóloga Roselyn Campbell, da Universidade Purdue, e publicado na revista Frontiers in Environmental Archaeology. A pesquisadora reexaminou ossadas escavadas há cerca de um século e identificou lesões que haviam passado despercebidas.
Os sepultamentos têm cerca de 5 mil anos e pertencem a um Egito ainda recém-unificado, quando os territórios do norte e do sul mal haviam se tornado um único reino.
Centenas de covas ao redor do rei
A história começa com o egiptólogo Flinders Petrie, que escavou o cemitério hoje conhecido como Umm el-Qaab, em Abidos. Ali, ele encontrou centenas de sepultamentos subsidiários dispostos em fileiras ao redor dos complexos funerários reais. Em geral, eram pequenas câmaras, às vezes acompanhadas de poucos objetos, como um pente de marfim.
Parecia suspeito que tantas pessoas tivessem morrido ao mesmo tempo que o rei. O fenômeno começa com Hor-Aha, filho de Narmer e segundo faraó a ocupar o trono egípcio, e parece ter desaparecido no início da Segunda Dinastia. Para os especialistas, trata-se provavelmente de um caso de sacrifício de servidores, prática em que as pessoas mais próximas do governante são mortas para acompanhá-lo no além.
“O consenso geral entre os estudiosos tem sido que os ocupantes desses sepultamentos subsidiários provavelmente eram membros do séquito real, oficiais da corte e membros do ‘harém’ do rei”, afirmou Campbell no estudo. Ainda não se sabe se essas pessoas escolheram seguir o faraó para a terra de Osíris.
A cera que escondeu as fraturas
Petrie nunca relatou sinais de trauma. Ele preferiu interpretar as rachaduras nos crânios como danos tafonômicos, ou seja, desgaste acumulado ao longo de milênios. Pior: ao tentar preservar os restos com cera de parafina, acabou ocultando essas fraturas de pesquisadores posteriores.
Ao revisitar as ossadas que Petrie havia reenterrado ou tentado conservar, Campbell encontrou fraturas cranianas lineares consistentes com trauma por força cortante. As lesões não mostravam nenhum sinal de cicatrização, o que indica que foram perimortem, isto é, produzidas pouco antes, durante ou logo após a morte. Por isso, é provável que os golpes tenham sido a causa do óbito.
O padrão não corresponde à arma frequentemente associada aos faraós na iconografia. Murais egípcios costumam mostrar governantes vitoriosos esmagando inimigos com uma maça, mas esse tipo de golpe produz fraturas afundadas, bem diferentes das observadas. Fraturas lineares costumam resultar do impacto de um objeto largo e plano sobre uma área ampla do crânio. Como a calota craniana é globular, a força se espalha e as rachaduras muitas vezes se irradiam pela cabeça. Esse tipo de lesão nem sempre é fatal, mas pode ser se não for tratado rapidamente, já que costuma provocar perda de consciência, lesões e hemorragia interna.
Lacunas que complicam a resposta
A hipótese ainda tem pontos em aberto. Um golpe forte o suficiente para quebrar um crânio provavelmente fraturaria outros ossos, mas Petrie não registrou nenhum. Além disso, fraturas lineares são muito mais difíceis de interpretar do que as afundadas, que aparecem exatamente no ponto de impacto. Determinar onde cada crânio foi atingido poderia esclarecer como essas pessoas foram mortas.
Também é possível que nem todos os acompanhantes do rei tenham morrido da mesma forma. Alguns podem ter sido asfixiados ou envenenados, e outros talvez tenham morrido de causas naturais e sido enterrados antes do próprio faraó.
“Embora a hipótese inicial de Petrie sobre a ocorrência do sacrifício de servidores possa estar correta, agora temos conhecimento adicional sobre como alguns desses indivíduos podem ter morrido”, disse Campbell. “Esses avanços no conhecimento também tornaram nossa compreensão mais complexa.”
Dos sacrifícios às estatuetas de faiança
Com a evolução das práticas funerárias, os egípcios deixaram de tirar a vida dos membros da corte e passaram a criar os shabti, pequenas figuras de faiança enterradas com o morto, muitas vezes envoltas junto a ele durante a mumificação. Essas estatuetas deveriam realizar todo o trabalho necessário na vida após a morte, permitindo que seu dono desfrutasse do Campo de Juncos sem esforço algum. Produzidos em massa, os shabti se tornaram acessíveis à maior parte das pessoas que desejavam se livrar do trabalho depois do fim da existência terrena.





