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Quando os dinossauros foram extintos, muitos animais literalmente saíram do escuro

Os extintos Kayentatherium, que viveram no início do jurássico, eram provavelmente ativos à noite. (Créditos da imagem: Mark Witton).

Os mamíferos que viviam ao mesmo tempo que os dinossauros eram provavelmente ativos à noite. Agora, um recente estudo publicado na Nature, relatou que as primeiras espécies ancestrais dos mamíferos a serem ativas durante o dia viveram a cerca de 65,8 milhões de anos atrás – há apenas 200 mil anos após a extinção dos dinossauros.

De Gretchen Vogel para a Science.

O desaparecimento dos dinossauros foi uma boa notícia para os mamíferos, cujos números aumentaram como consequência. Agora, um novo estudo sugere que o comportamento dos mamíferos também mudou rapidamente, já que o primeiro de nossos antepassados peludos começou a se aventurar à luz do dia depois de viver uma existência principalmente noturna. A troca pode ter sido o “gatilho” desencadeante da evolução e até mesmo de nossa própria espécie.

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Paleontologistas e biólogos evolutivos há muito tempo pensam que os mamíferos originais eram noturnos, em parte porque os mamíferos vivos hoje ainda trazem traços de seus antepassados amantes da noite. A maioria dos mamíferos tem olhos que funcionam bem em pouca luz, por exemplo. Eles também têm sentidos olfativos e auditivos altamente desenvolvidos e bigodes sensíveis que lhes permitem sentir o que está na frente de seus rostos — todos são traços úteis no escuro.

Exatamente quando os mamíferos começaram a se aventurar durante o dia tem sido um mistério, porque o comportamento é difícil de identificar com fósseis. Os cientistas confiam na forma dos globos oculares e cavidades nasais para inferir quais sentidos eram importantes para um animal extinto, mas essas pistas podem ser enganosas.

Os biólogos evolutivos Roi Maor, da Universidade de Tel Aviv, Kate Jones, da University College London, e seus colegas decidiram abordar a questão partindo de uma perspectiva diferente. Eles observaram as preferências diurnas ou noturnas de mais de 2.415 espécies de mamíferos vivos e, em seguida, usaram dados genéticos para desenhar suas árvores genealógicas, procurando observar quando os ancestrais diurnos mais antigos poderiam ter surgido.

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As primeiras espécies ancestrais dos mamíferos a serem ativas durante o dia provavelmente viveram a cerca de 65,8 milhões de anos atrás — apenas 200 mil anos após a extinção em massa que eliminou todos os dinossauros, com exceção dos pássaros, relatou a equipe de pesquisadores na Nature Ecology and Evolution. O antepassado comum de camelos, hipopótamos e cervos de hoje, por exemplo, provavelmente começou a explorar a luz do dia naquela época, diz Maor. Os camelos de hoje são ativos durante o dia, enquanto os hipopótamos são ativos à noite, e os veados estão misturados, ele observa. “A atividade diurna começa assim que os dinossauros desaparecem”, disse Maor. Até então, ele disse, provavelmente era muito arriscado aventurar-se entre os dinossauros de olhos atentos e dentes afiados. A análise sugere que a expansão rumo à luz do dia aconteceu com bastante rapidez depois que a competição teve fim. “Em termos evolutivos, 200 mil anos são um piscar de olhos”.

Isso é consistente com o registro fóssil, o que mostra claramente que os números e os tipos de mamíferos se expandiram rapidamente depois que os dinossauros saíram do caminho. Mas o vislumbre sobre a evolução do comportamento é intrigante, diz o biólogo evolutivo Lars Schmitz das faculdades Claremont McKenna, Pitzer e Scripps em Claremont, Califórnia. “O trabalho apoia a ideia de que os mamíferos conquistaram mais do que território”, acrescentou Schimitz. “Eles também expandiram substancialmente o seu repertório comportamental”.

E, embora a ideia de que os mamíferos ocuparam os espaços vazios deixados pela morte dos dinossauros não seja nova, ter estatísticas para apoiar essa hipótese “é absolutamente necessária para o avanço do campo”, diz Luca Santini, que estuda ecologia de mamíferos na Universidade de Radboud, em Nijmegen, Holanda.

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Schmitz destaca que uma limitação do uso de dados de espécies vivas é que as linhagens que morreram também podem fornecer pistas importantes para a história da evolução. “Seria fantástico se alguém pudesse adicionar informação fóssil a esta análise”, disse ele. Isso poderia dar uma imagem ainda mais clara de quando e como surgiram os hábitos diurnos. “Seria preciso muito esforço de muitas pessoas, mas acho que é possível”, destacou ainda o pesquisador.

Os primatas de hoje são principalmente ativos durante o dia, observa Maor, e os antepassados dos primatas parecem ter sido os primeiros a adquirir hábitos diurnos, de acordo com a análise. Essa vantagem pode ser porque nós e os símios* temos melhor visão de cores — e sentimentos mais cheiros e sons — do que muitos outros mamíferos. Primatas provavelmente tiveram vários milhões de anos para evoluir traços que nos ajudam a ser bem sucedidos na luz solar, conclui o pesquisador.

 

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Nota:

* — Símios ou “apes” é um termo que, em inglês, designa os macacos de caudas curtas ou sem caudas (família Hominidae), enquanto “monkey” são macacos com cauda. Tal diferenciação não está muito clara em português. No texto original consta “apes”, por isso optamos por símios na tradução.

Referências:

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  1. MAOR, Roi et al. “Temporal niche expansion in mammals from a nocturnal ancestor after dinosaur extinction”; Nature. Acesso em: 08 nov. 2017.
  2. PERKINS, Sid. “Why Some Species Thrived When Dinos Died”; Science. Acesso em: 08 nov. 2017.

Traduzido por Giovane Almeida; revisado por Diógenes Henrique.

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Sou baiano, tenho 17 anos e sou fascinado pelo Cosmos. Atualmente trabalho com a divulgação científica na internet — principalmente no Ciencianautas, projeto em que eu mesmo fundei aos 15 anos de idade —, com ênfase na astronomia e cosmologia.

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