E se as explicações sobre o fim dos neandertais disserem mais sobre nós do que sobre eles? Essa é a provocação central de um novo livro sobre os nossos parentes extintos.
Em “Neanderthals Among Us: The Making of a Prehistoric Human”, lançado pela Oneworld Publications em 2026, o historiador Peter Sahlins analisa como essa linhagem humana tem sido vista através das lentes de ideologias culturais e políticas.
Segundo o autor, projetamos sobre os neandertais nossas inquietações sobre raça e gênero. Do mesmo modo, os desafios contemporâneos, como imigração, pandemias e crise climática, moldam a forma como imaginamos o seu desaparecimento.
A crítica não se limita à imprensa. Para Sahlins, muitas vezes a própria ciência é enquadrada pelos acontecimentos do presente.
Imigrantes e vírus nas manchetes da Pré-História
Entre o extermínio violento e a absorção pacífica, com trocas culturais entre as espécies, pré-historiadores propõem uma ampla gama de teorias para a extinção neandertal. Às vezes, porém, são os jornais que convertem uma ciência mais neutra em manchetes fáceis de digerir.
Em julho de 2011, o jornal escocês Glasgow Herald anunciou que a imigração havia encerrado a era neandertal. O texto afirmava que os primeiros habitantes da Europa podem ter sido sufocados por uma “imigração descontrolada” há 40 mil anos.
A reportagem se baseava em um estudo altamente técnico do arqueólogo Paul Mellars, da Universidade de Cambridge, sobre o aumento populacional no Paleolítico Superior. Sahlins resume o episódio assim:
“As reportagens jornalísticas ajustaram a ciência para dialogar com as ansiedades contemporâneas”, escreve o historiador.
Outro exemplo é a hipótese dos patógenos, que ganhou força durante e após a pandemia de COVID-19. Um estudo de 2024 identificou herpes em um genoma viral de 50 mil anos, reforçando a ideia de que patógenos trazidos pelo Homo sapiens foram transmitidos a uma população neandertal sem imunidade. Já o livro “Pathogenesis”, de Jonathan Kennedy, argumenta que o Homo sapiens teria sido menos vulnerável às doenças neandertais porque chegou em número muito maior e com sistemas imunológicos mais evoluídos em seu ambiente tropical.
Supervulcão e “mini-Era do Gelo” no banco dos réus
Nos últimos vinte anos, cresceu a tese de que a mudança climática, o grande desafio existencial do Antropoceno, foi a principal causa da extinção. A ideia retoma o “catastrofismo” do geólogo francês Georges Cuvier, segundo o qual espécies desapareciam em eventos geológicos cataclísmicos.
Desde 2007, pesquisadores apontam para a erupção do Ignimbrito Campaniano, perto de Nápoles, datada de cerca de 39.280 anos atrás, com margem de 110 anos. O evento liberou cerca de 500 quilômetros cúbicos de magma e foi ficcionalizado na animação “Os Croods”, de 2013.
A explicação para a sobrevivência dos sapiens varia: talvez menos deles tenham sido atingidos diretamente, ou quase todos tenham morrido e novas levas chegado depois. Sahlins lembra que as linhagens das quais descendemos “diretamente” se instalaram na Europa muito depois da Era do Gelo, e que a maior parte do nosso genoma vem de ancestrais neolíticos.
Há também a hipótese das oscilações climáticas extremas. Em 2004, a National Geographic noticiou o trabalho de uma equipe internacional de trinta cientistas que, após mais de sete anos de trabalho, identificou uma instabilidade climática marcada por um severo resfriamento por volta de 41 mil anos atrás, que durou seis séculos, registrado nos testemunhos de gelo da Groenlândia.
Esse frio teria reduzido a vegetação e os herbívoros, empurrando os neandertais para refúgios mais quentes, como o sul da Espanha. O zoólogo Clive Finlayson, um dos primeiros a contribuir com a modelagem ecológica do tema, defendeu que “o último neandertal” poderia ser encontrado em Gibraltar até 29 mil anos atrás. O título é disputado: Zafarraya, em Granada, forneceu um esqueleto datado de 30 mil anos, embora haja céticos, e há outros candidatos nas cavernas de Mezmaiskaya, no Cáucaso.
O velho mito do neandertal “conservador”
Para Sahlins, parte da ciência que culpa o clima representa um recuo na recente reabilitação dos neandertais como humanos equivalentes ao Homo sapiens. Afinal, essas teorias precisam explicar por que os sapiens sobreviveram às mesmas condições severas.
Alguns especialistas argumentam que os neandertais não eram adaptados ao frio, já que surgiram em um período interglacial quente. Outros sugerem que lhes faltava tecnologia para produzir roupas complexas, ou que suas adaptações biológicas ao frio atrasaram essas inovações.
A ideia de que os neandertais sucumbiram ao próprio conservadorismo, enquanto só os humanos dominaram a inovação, é a tese principal de “The Unpredictable Species”, de Philip Lieberman, publicado em 2013. Trata-se de uma crença amplamente compartilhada.
Sahlins observa que o alto valor atribuído à “inovação” corresponde à superestrutura ideológica do neoliberalismo contemporâneo. Na sua leitura, o estereótipo volta a assombrar a ciência: neandertais conservadores, atrasados, presos ao passado num mundo em transformação.
Essa noção tem raízes nos julgamentos antropológicos do século 19 sobre povos considerados “primitivos”. O arqueólogo britânico Augustus Pitt Rivers já falava em um “conservadorismo persistente”.





