A pele de uma lula tem mais em comum com o interior do seu ouvido do que se poderia imaginar. Ela é coberta por células sensoriais muito parecidas com as que nos permitem ouvir.
Pesquisadores da Case Western Reserve University, nos Estados Unidos, descobriram que o corpo da lula-de-barbatana-longa (Doryteuthis pealeii) é repleto de células ciliadas semelhantes às do ouvido interno humano. O trabalho foi publicado na revista Current Biology e mapeou essas estruturas em filhotes do animal.
Nas lulas, essas células captam movimentos da água, como o tremor de uma presa próxima ou a força de uma corrente. Até agora, os cientistas não sabiam que elas estavam espalhadas por praticamente todo o corpo.
Campos sensoriais ainda não descritos em lulas ou peixes
Essas células não têm relação com os pelos que crescem da pele. Em vertebrados, exceto peixes, elas existem apenas em órgãos do ouvido. Nos vertebrados terrestres, revestem a cóclea, um órgão em espiral cheio de fluido.
Quando ouvimos algo, ondas no ar fazem vibrar o tímpano e pequenos ossos, que geram ondas no fluido coclear. Os “pelos” das células oscilam e o sinal segue para o cérebro. Feixes longos captam melhor sons graves; os curtos, os agudos.
Peixes e lulas têm células ciliadas na superfície do corpo, num órgão chamado linha lateral. Como vivem na água, captam o movimento diretamente, sem converter ondas do ar. Nos peixes, porém, os feixes têm comprimentos semelhantes.
Com microscopia de folha de luz, a equipe mapeou o corpo inteiro de vários filhotes. Além das fileiras lineares já conhecidas, surgiram amplas áreas nunca descritas explicitamente em lulas ou peixes, que os autores chamaram de “campos de linha lateral”.
Os feixes variavam conforme a posição: no manto, eram bem mais curtos que os da linha lateral da cabeça. Para os pesquisadores, isso sugere que algumas linhas laterais detectam estímulos distintos, provavelmente tipos específicos de movimento local da água.
Uma pista distante para entender a surdez
Brian McDermott, da Case Western Reserve University, é otorrinolaringologista e começou investigando a audição e a surdez humanas. Ao rastrear a linhagem das células ciliadas, chegou a um animal separado de nós por centenas de milhões de anos de evolução.
“Lulas são cefalópodes com uma população diversa de células ciliadas na superfície do corpo, o que pode trazer pistas não apenas sobre como esses animais fascinantes detectam o movimento da água para sobreviver, mas também sobre como a audição e a surdez ocorrem em humanos”, afirmou McDermott.
Para o pesquisador, o interesse é sobretudo médico. A estrutura estudada nas lulas é justamente a que costuma estar comprometida na perda auditiva.
“Muitas vezes, quando uma criança nasce surda ou uma pessoa ouvinte perde a audição, é o feixe ciliar que foi danificado”, disse McDermott. “Portanto, estudar o feixe ciliar da lula é promissor para entender como ocorre a perda auditiva.”
Resta saber se essa semelhança basta para transformar a lula em um modelo útil para estudar a audição humana.





