E se fosse possível instalar instrumentos científicos ao lado de rocha derretida, a poucos quilômetros da superfície? É exatamente isso que a Islândia pretende fazer no vulcão Krafla, uma das áreas vulcânicas mais ativas do planeta.
O projeto Krafla Magma Testbed (KMT) quer criar o primeiro observatório de magma do mundo. A ideia é permitir que cientistas estudem o material diretamente e, ao mesmo tempo, testem formas de aproveitar o calor extremo que o cerca para gerar energia geotérmica.
A primeira perfuração estava prevista para 2026, mas o cronograma foi revisto. A nova meta é abrir em 2027 o primeiro poço geotérmico superaquecido dedicado, mirando temperaturas acima de 400 °C.
A tecnologia ainda é experimental, e não se sabe se esse tipo de energia pode ser explorado comercialmente.
Água supercrítica e um acidente que virou pista
A Islândia já depende fortemente do calor do subsolo. Pelo menos 90% das residências do país são aquecidas com energia geotérmica, e cerca de 70% de toda a energia consumida na ilha vem dessa fonte.
Os sistemas atuais, porém, exploram regiões relativamente mais frias, o que limita a eficiência. Neles, a água aquecida no subsolo vira vapor e movimenta turbinas que produzem eletricidade.
Uma abordagem particularmente promissora é a da água supercrítica. Acima de 374 °C e de pressões superiores a cerca de 22 megapascals, a água entra em um estado em que deixa de haver distinção entre líquido e gás. Esse fluido transporta enormes quantidades de calor, o que poderia permitir que um único poço entregasse muito mais energia do que um poço convencional.
Há indícios concretos desse potencial. Em 2009, o Projeto de Perfuração Profunda da Islândia atingiu magma por acidente em Krafla. Segundo o histórico do KMT, o poço resultante foi testado com mais de 100 megawatts de produção térmica, um valor que se refere ao calor disponível, e não à eletricidade efetivamente gerada.
O episódio também mostrou que alcançar o magma não provoca necessariamente uma erupção. Não foi o primeiro caso: em 2005, a usina Puna Geothermal Venture, no Havaí, já havia topado com rocha derretida. Na época, as empresas de energia trataram esses encontros como fracassos.
Manter um poço vivo a 900 °C
Krafla fica sobre a Dorsal Mesoatlântica, a fronteira entre placas tectônicas, e entrou em erupção pela última vez em 1984. Ali, o magma foi encontrado a cerca de 2,1 quilômetros de profundidade, com temperaturas próximas de 900 °C no ponto de contato.
Chegar a essa profundidade está ao alcance das técnicas modernas de perfuração. O difícil é manter um poço funcionando em condições tão extremas, com fluidos corrosivos e enorme estresse mecânico sobre os equipamentos.
Por isso, o projeto prevê materiais especiais para o poço, sistemas de monitoramento aprimorados e tecnologias capazes de resistir ao calor. A questão central é se será possível extrair energia por anos sem destruir a estrutura, esgotar o calor acessível rápido demais ou tornar os custos inviáveis.
No campo institucional, houve avanços. Em setembro de 2024, o governo islandês, a estatal de energia Landsvirkjun e a Reykjavík Energy firmaram com o KMT um acordo de financiamento para os dois anos seguintes. Ainda assim, as informações disponíveis até outubro de 2026 não confirmam o início da nova campanha de perfuração.
O objetivo imediato do projeto é pesquisa e desenvolvimento tecnológico, não a construção de uma usina comercial. Para os vulcanólogos, que há muito tempo dependem de métodos indiretos, será a primeira chance de coletar e estudar magma de perto, o que pode mudar o entendimento sobre erupções e a formação dos continentes.
Se a energia do magma vai transformar a geração de eletricidade, ainda é uma pergunta em aberto.





