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Luz mais fraca que a de um poste pode adiantar em quase um mês a “primavera” de melros, mostra estudo em cativeiro

Por Editado por Elisson Amboni
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Uma luz muito mais fraca que a de um poste de rua pode adiantar em quase um mês a primavera no corpo de um pássaro. É o que mostra um estudo que segue como referência nas pesquisas sobre luz noturna e aves urbanas.

Pesquisadores do Instituto Max Planck de Ornitologia, em Radolfzell, expuseram melros-pretos a 0,3 lux durante a noite. Nessas aves, as gônadas se desenvolveram, em média, quase um mês antes do que nas que dormiam no escuro total.

O trabalho, assinado por Davide Dominoni, Michael Quetting e Jesko Partecke, foi publicado em fevereiro de 2013. Ele ainda serve de referência para pesquisas sobre canto ao amanhecer, melatonina e outras espécies urbanas.

Há uma ressalva importante: os dados vêm de aves em cativeiro, não de ninhos observados na natureza.

Um brilho de penumbra que mexe com hormônios

Antes do experimento, a equipe prendeu sensores de luz em melros livres, na cidade e na floresta. Os urbanos recebiam cerca de 0,2 lux à noite, aproximadamente um trigésimo da luz de um poste comum, segundo Partecke. A exposição era baixa, mas maior e mais variável que a das aves rurais.

Em seguida, melros capturados nos dois ambientes passaram dez meses em noites completamente escuras ou sob 0,3 lux. A intensidade foi definida a partir das medições de campo.

Nas aves iluminadas, a testosterona subiu mais cedo no ano e o canto passou a começar cerca de uma hora antes. A muda de fim de temporada também se antecipou, como descreve o artigo de Dominoni e colegas sobre luz artificial e fisiologia reprodutiva.

Para o Instituto Max Planck, a luz artificial “pode mudar de forma espetacular a organização sazonal dos animais selvagens”.

Ainda assim, testículos maiores indicam que a ave está pronta para se reproduzir, e não que ela de fato fez o ninho mais cedo. O mecanismo também segue em aberto. A luz pode alongar o dia percebido, estimular a caça noturna ou alterar o metabolismo, e nenhuma dessas hipóteses foi confirmada.

A conta chega na segunda temporada

Os mesmos autores acompanharam melros por dois anos em um estudo publicado na PLOS One em dezembro de 2013. As aves mantidas no escuro completaram dois ciclos regulares de testículos e testosterona. As iluminadas pularam um ciclo reprodutivo.

Nesse grupo, a muda durou mais, e seis aves não chegaram a concluí-la. Os pesquisadores sugerem um bloqueio em estado fotorrefratário, quando o organismo deixa de responder ao sinal luminoso, e/ou estresse crônico. O relógio diário, porém, continuava funcionando.

Segundo Partecke, reproduzir-se mais cedo pode render mais filhotes por ano, mas só se houver alimento suficiente para eles. Caso contrário, a vantagem pode virar desvantagem evolutiva.

No campo, outras equipes mediram defasagens mais modestas em outras espécies: fêmeas de chapim-azul botam ovos 1,5 dia antes em territórios iluminados. Melros urbanos estendem a busca por comida sob luz artificial, sem melhora na condição corporal. Um levantamento contou, em média, 8,5 postes em um raio de 50 metros dos poleiros de canto.

Os dados brutos estão disponíveis na plataforma Dryad. Assim, outras equipes podem verificar se o adiantamento de um mês se repete fora do viveiro.