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Etiquetas de armadilhas de lagosta do Maine viajam mais de 3 mil km e aparecem em praias dos Açores

Por Editado por Elisson Amboni
Como editamos

Pequenas etiquetas plásticas, presas a armadilhas de lagosta no litoral do Maine, nos Estados Unidos, estão chegando às praias dos Açores, a mais de 3 mil quilômetros de distância. Algumas foram recolhidas 36 anos após o registro.

Uma equipe da Universidade dos Açores identificou 1.577 peças de equipamentos norte-americanos de pesca de lagosta. O material foi recolhido entre 2017 e 2025 nas costas sul das ilhas do Faial e do Pico, com a ajuda de voluntários.

O estudo, publicado em 27 de agosto na revista Environmental Monitoring and Assessment, foi liderado por Christopher K. Pham, chefe do grupo de pesquisa em lixo marinho da universidade. Entre as etiquetas legíveis, 63% vinham dos Estados Unidos e 37% do Canadá. Das americanas com estado identificável, 80% eram do Maine.

A pesquisa é uma contagem do que foi encontrado, não um levantamento sistemático. Por isso, o artigo não estima quanto equipamento de lagosta existe nas praias açorianas.

Uma etiqueta que funciona como endereço de remetente

As regras dos Estados Unidos e do Canadá exigem uma etiqueta em cada armadilha de lagosta. Nos EUA, ela é trocada a cada temporada. No Canadá, há versões válidas por um ano e outras por até três anos. Em geral, a etiqueta traz o número da licença, o ano e a área de pesca.

São essas marcações que tornaram o estudo possível. Segundo o artigo, a maior parte do plástico que chega a ilhas remotas está fragmentada demais para revelar de que atividade veio. Em entrevista à Euronews, Pham observou que uma rede de arrasto, por exemplo, pode ter sido usada tanto na Groenlândia quanto no Brasil.

Já uma etiqueta legível indica o país e o ano, e muitas vezes o estado ou a província. A equipe começou a notar as etiquetas numeradas durante o monitoramento do lixo de praia, decifrou o significado dos números e passou a pedir a moradores e colegas que entregassem as que encontrassem. Pelo menos dez voluntários enviavam material todos os meses.

Do total, 824 itens eram etiquetas e 601 eram aberturas de escape, painéis plásticos que permitem a saída de lagostas pequenas e de outros animais indesejados. Os 152 restantes incluíam cantoneiras, funis, fechos, elásticos e presilhas de saco de isca.

Maine na frente, Canadá cheio de lacunas

As inscrições puderam ser lidas em 630 etiquetas: 399 americanas e 231 canadenses. O estado foi identificado em 365 das americanas. O Maine respondeu por 80% delas, cerca de 290 etiquetas, e Massachusetts por 11%. Os 9% restantes vinham de estados como Rhode Island, New Hampshire, Connecticut e Carolina do Norte.

Entre as 383 etiquetas americanas com área de manejo legível, 240 vinham da Área 1. Essa zona costeira do Golfo do Maine se estende pelo litoral do Maine, de New Hampshire e de Massachusetts até o Canal de Cape Cod.

As canadenses foram bem mais difíceis de rastrear. A província apareceu em apenas 45 delas, das quais 29 eram de Terra Nova e Labrador. A área de pesca estava legível em 29 etiquetas, a maioria da Área de Pesca de Lagosta 34, no sudoeste da Nova Escócia. Ainda assim, a maior parte das etiquetas canadenses não pôde ser associada a nenhuma província ou área.

A distância de “mais de 3 mil quilômetros” citada no artigo vale para as principais origens. Em linha reta, Portland, no Maine, fica a cerca de 3.500 km da cidade da Horta, no Faial, e Yarmouth, na Nova Escócia, a uns 3.160 km. Terra Nova e o sul do Labrador estão mais próximos, entre 2.200 e 2.700 km.

Plástico resistente que viaja com a Corrente do Golfo

Entre 130 etiquetas americanas com as duas datas conhecidas, o registro ocorreu em média 13 anos antes da coleta, com variação de sete anos para mais ou para menos. Quatro foram encontradas menos de dois anos após o registro, e seis, mais de 20 anos depois.

As correntes do Atlântico Norte circulam em sentido horário e levam material de oeste para leste, explicou Pham. Segundo o artigo, os resultados reforçam modelagens anteriores segundo as quais boa parte dos detritos que chegam aos Açores parte da costa leste da América do Norte, levada pela Corrente do Golfo. Um trabalho de 2024 na Marine Pollution Bulletin, do qual Pham é coautor, já apontava essas etiquetas como traçadores do plástico à deriva.

Três etiquetas foram recolhidas 36 anos após o registro. Para os pesquisadores, marcações ainda legíveis depois de tanto tempo no mar são uma evidência de campo de que esses objetos não afundam nem se desfazem rapidamente, ao menos ao longo de algumas décadas.

Cerca de 3 milhões de armadilhas são colocadas por ano em águas americanas e 2 milhões no Canadá. Com base em um estudo de 2021 feito na Nova Escócia, o artigo estima perdas anuais entre 0,5% e 2%. Aplicadas a esses números, as taxas equivaleriam a algo entre 25 mil e 100 mil armadilhas por ano, cálculo que não aparece no artigo científico.

Nem toda etiqueta vem de uma armadilha perdida. Como são substituídas periodicamente, muitas acabam descartadas no mar, de propósito ou por acidente, e outras podem se soltar durante o recolhimento das armadilhas.

Segundo Pham, as etiquetas são feitas de plástico de altíssima qualidade. Se a busca continuar, é muito provável que a equipe encontre peças talvez ainda mais antigas.