Há dois séculos, restavam menos de mil. Hoje, as tartarugas-gigantes de Aldabra são mais numerosas que toda a população humana das Seicheles.
Um levantamento completo do Atol de Aldabra estimou mais de 180 mil tartarugas-gigantes (Aldabrachelys gigantea) vivendo livremente na ilha. É o maior número já registrado para a espécie, segundo o estudo publicado na revista Ecology and Evolution.
Trata-se da primeira contagem rigorosa desde os anos 1990. O resultado reflete décadas de proteção: Aldabra virou reserva natural estrita em 1981 e sítio da Unesco em 1982.
Os pesquisadores alertam, porém, que o número é um ponto de partida, não de chegada.
De despensa de piratas a recorde populacional
Antes dos exploradores, o arquipélago era um refúgio. Com cascos robustos, comida farta e quase nenhum predador natural, as tartarugas viviam por muito tempo sem precisar de velocidade ou agressividade.
A partir do século 15, exploradores europeus, marinheiros e até piratas passaram a ver nos répteis lentos uma fonte fácil de alimento. A cada embarcação, a população encolhia. No século 19, restavam menos de mil animais no atol.
Para a bióloga da conservação Frauke Fleischer-Dogley, CEO da Seychelles Islands Foundation e coautora do trabalho, a recuperação é uma ótima notícia.
“Mais de 180 mil tartarugas-gigantes circulando livremente pelo nosso atol é a prova do que o compromisso de longo prazo com a conservação pode alcançar”, afirmou a pesquisadora.
O censo também mostrou os animais concentrados nos chamados “gramados de tartaruga”, campos abertos mantidos pelo pastoreio constante dos próprios répteis.
Contar até as tartarugas invisíveis
Contar tartarugas em Aldabra não é simples. A vegetação densa esconde parte dos animais, por isso a equipe modelou estatisticamente também os indivíduos que não foram avistados.
Segundo a bióloga insular Nancy Bunbury, a estratégia gerou a linha de base mais confiável já obtida para a espécie. Ela servirá de referência para acompanhar a população nas próximas décadas.
Essa referência será necessária. O atol é vulnerável à elevação do nível do mar e às secas, agravadas pelas mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis. Gatos ferais e ratos-pretos também seguem por lá, atacando ovos e filhotes.
“É importante lembrar que os números fornecem uma linha de base, não um ponto final”, disse o ecólogo Dave Hudson, da Universidade de Exeter, no Reino Unido.
A expectativa é que os dados ajudem os gestores a detectar mudanças cedo e agir à medida que as tartarugas enfrentam pressões crescentes das mudanças climáticas, da seca e de espécies invasoras.





