Domesticação dos cães: novo estudo vai na direção errada?
 

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Diógenes Henrique8 de setembro de 201723 min

De Gemma Tarlach para a Discover Magazine

Os cães são nossos primeiros amigos — eles já eram o único animal domesticado enquanto ainda éramos um grupo de caçadores-coletores. Mas apontar onde e quando a domesticação dos cães começou tem sido difícil. Com os recentes avanços na extração e no sequenciamento de DNA antigo (aDNA), é natural que os pesquisadores estejam apressados em responder a essas perguntas. Um estudo de 2016 ofereceu uma nova e impressionante hipótese sobre a domesticação canina, e atualmente uma equipe diferente de pesquisadores oferece uma outra possibilidade, a qual, acreditam esses pesquisadores, é um desafio direto para o marcante artigo do ano passado.

Os dois artigos realmente estão em desacordo ou o último estudo só late e não morde? Roamos essa.

Olhe, por uma série de razões, descobrir como foi a domesticação de cães é uma tarefa feia. Para iniciarmos, os lobos antigos tornaram-se nossos amigos peludos, bem antes dos registros escritos ou antes mesmo dos assentamentos humanos permanentes que pudessem deixar uma evidência arqueológica inequívoca.

Os pesquisadores encontraram alguns restos canídeos de mais de 30.000 anos de idade, mas apenas pelas características, é impossível ter certeza de que estes ossos eram de lobos ou dos primeiríssimos cães. Isso se deve, em parte, porque sabemos que os cães não descendem dos lobos modernos. Ambos desceram de uma ou mais linhagens de lobos antigos, nenhuma das quais ainda está por perto hoje para comparações.

E depois, porque há a bagunça genética que os pesquisadores têm que compreender o que se passa. E isso tão fácil como limpar tudo depois de deixar um cachorrinho sozinho durante o dia todo com um sofá cheio de almofadas fofas e grandes.

Uma vez domesticados, os cães ainda se cruzaram com uma variedade de lobos, as suas primeiras experiências com seus primos, e com outras populações de cães enquanto eles viajavam com seus humanos por todos os continentes. E isso começou a milênios antes que os humanos viessem a interferir ativamente nos genomas dos cães, criando-os seletivamente para dar origem a uma variedade de traços comportamentais e físicos, o que entrelaçou o DNA deles novamente.

A pesquisa do ano passado nesta área também foi dificultada por bem mais do que umas poucas rosnadas, já que pesquisadores que apoiam diferentes hipóteses sobre a domesticação canina apresentaram uma tenacidade de um terrier para a proteção de seu território.

Cavando sobre o DNA dos cães

Nos últimos anos, no entanto, muitos pesquisadores se juntaram a um projeto colaborativo internacional, agrupando dados e recursos com o objetivo de finalmente descobrir quando — e onde — lobos antigos se tornaram cães.

O primeiro trabalho de alto nível desse esforço, um estudo de 2016 publicado na Science, propôs uma domesticação de cães ocorrida há mais de 14 mil anos, não uma vez, mas duas vezes: uma vez na Europa e uma vez na Ásia, embora a população asiática finalmente tenha migrado para o oeste e praticamente exterminou, geneticamente falando, os antigos euro-cães. Foi a primeira vez que uma teoria de origem dual de domesticação de cães foi proposta.

Mas a questão indiscutivelmente interessante sobre o estudo da Science de 2016 foi a análise de dados genéticos de vários cães antigos, incluindo o genoma completo de um encontrado em Newgrange, Irlanda, que tinha quase 5.000 anos. Foi a primeira vez que os pesquisadores conseguiram usar um conjunto tão rico de material genético para investigar a origem da domesticação dos cães.

No entanto, em julho deste ano, outros pesquisadores declararam na Nature Communications que “não encontram evidências genéticas para apoiar a hipótese recente que propõe origens duplas da domesticação de cães”.

Aí! Essa doeu.

Então, temos dois estudos, de dois periódicos de grande prestígio, aparentemente se enfrentando. Ou será que não?

Vamos dar uma olhada no osso da questão.

Alguém disse osso?
Alguém disse osso?

O rebuliço sobre Fido

O estudo desse ano reanalisou o material genético do cão de Newgrange e também analisou os DNA’s de dois cães neolíticos, ambos encontrados na Alemanha: o do cão Herolsheim, do neolítico precoce, com cerca de 7.000 anos de idade, e do cão Cherry Tree Cave de aproximadamente 4.700 anos de idade, do Neolítico tardio (aproximadamente a mesma idade que o cão Newgrange). De acordo com os pesquisadores, há uma grande continuidade entre os cães alemães e o cão irlandês, e nenhuma evidência de um monte de cachorros do leste asiático que se encontravam no local e que substituíram as populações caninas europeias.

O DNA extraído desse crânio de cachorro de quase cinco mil anos de idade (colocado sobre uma toalha de papel do século 21 — eu amo fazer isso) da Alemanha sugere, segundo os pesquisadores, uma data única e muito anterior para a domesticação dos cães do que se acreditava anteriormente. (Crédito Amelie Scheu)
O DNA extraído desse crânio de cachorro de quase cinco mil anos de idade (colocado sobre uma toalha de papel do século 21 — eu amo fazer isso) da Alemanha sugere, segundo os pesquisadores, uma data única e muito anterior para a domesticação dos cães do que se acreditava anteriormente. (Crédito: Amelie Scheu)

O artigo científico mais recente também sugere datas significativamente mais antigas para o último antepassado comum de lobos modernos e cães modernos (que era um lobo antigo ainda desconhecido) e para a própria domesticação de cães. Para o último, o artigo coloca a data de domesticação de cães entre 20 mil e 40 mil anos atrás. Compare isso com os 15.000 anos que é a data média que a maioria dos outros pesquisadores darão quando perguntados (embora alguns afirmem que foi a menos de 10.000 anos atrás e alguns poucos acreditam que foi há mais de 30.000 anos).

Espere um minuto, eu escutei você resmungando, como eles podem contar algo há cerca de 40.000 anos atrás de um crânio de 5.000 anos? Todos os estudos baseados em aDNA sobre a domesticação de cães (e sobre outras espécies também), usam um relógio molecular para calcular quanto tempo há indivíduos ou espécies compartilhavam um antepassado comum, com base em quantas mutações aleatórias diferentes cada uma acumulou desde então. Como as mutações geralmente ocorrem a uma taxa constante, quanto mais mutações, mais distante no tempo seu último antepassado comum viveu.

Essa explicação, é claro, é uma explicação altamente simplificada da modelagem do relógio molecular e nem todos os pesquisadores usam o mesmo relógio ou concordam em como calcular as mudanças, razão pela qual suas conclusões geralmente divergem. Quanto mais amostras de aADN forem sequenciadas e quanto mais pesquisas forem feitas, mais provavelmente veremos surgir um consenso. Mas isso requer muita pesquisa e muitas idas e vindas entre as equipes que podem não obter os mesmos resultados nos estágios iniciais. Assim é a ciência, pessoal.

Qual a melhor pesquisa? Seria essa? Ou seria aquela?

Dado que os pesquisadores estão apenas no início do processo de usar o DNA para chegar às origens dos cães, é de se surpreender um pouco o novo artigo, cuja leitura é como se tivesse sido escrito para aumentar a competitividade com a linha da origem dupla canina. Então entrei em contato com alguns dos meus pesquisadores favoritos de domesticação dos cachorrinhos para saber a resposta. Eu estava esperando uma briga. Em vez disso, consegui uma misto de inclinação de cauda com uma inclinação de cabeça interrogativa.

“Pessoalmente, gosto muito dessas datas, é claro… É outro tijolo no muro sobre a domesticação precoce”, diz Mietje Germonpré, que tem doutorado e é paleontóloga do Royal Belgian Institute of Natural Sciences.

Germonpré hipotetizou no passado, com alguma controvérsia, uma data de domesticação muito anterior que muitos demais pesquisadores, com base em grande parte em vários ossos canídeos de grutas na Bélgica e em outros lugares. Ela acredita que as proporções dos restos — a cerca de 36 mil anos — sugerem que os animais eram cães adiantados.

Germonpré acrescenta que as datas anteriores de domesticação se alinham com as hipóteses de uma terceira equipe de 2015, que foram baseadas no sequenciamento do genoma de um lobo siberiano de 35 mil anos. O fato de que duas equipes chegarem à mesma conclusão com base em dados completamente diferentes faz essa conclusão mais forte, ela sugere. O que ajudaria ainda mais seria um estudo de acompanhamento, incluindo mais animais de fora da Europa.

“Esta é apenas uma parte da história, com certeza”, diz Germonpré. A paleontóloga acrescentou que ficou intrigada com os pesquisadores por trás do trabalho deste ano, preso tão estreitamente ao material genético dos três cães antigos, sem tentar colocar seus resultados em maior contexto, particularmente em relação a um de seus outros achados. De acordo com o artigo de julho deste ano, os cães do leste e do oeste divergiram cerca de 17.500 a 23.900 anos atrás, sugerindo que a população geral foi reduzida e depois se separou.

“Dezoito a 21 mil anos atrás foi o momento do último máximo glacial na Europa”, diz Germonpré. “A população (humana) estava diminuindo por causa de um clima mais frio e mais severo, então, se houvesse menos pessoas, faria sentido que houvesse menos cães. Fiquei um pouco surpresa por não terem mencionado isso.”

Um pesquisador que não parece surpreso com nada no novo artigo é Greger Larson, biólogo evolutivo da Universidade de Oxford e um dos autores da teoria da origem dual. Ele também foi a voz líder em colaboração contínua em toda a pesquisa.

“Eles não estão trazendo uma prova quente”, diz Larson, sacudindo os inúmeros desafios diretos à hipótese de 2016 no artigo deste ano. Na verdade, aprofunde os dados, diz Larson, e você encontrará muita sobreposição nos intervalos de confiança de ambos os artigos — os intervalos de datas muitas vezes amplos, com probabilidades variadas, trazidos por modelos de relógio molecular.

Os artigos não estão de fato em conflito direto, ele sugere, acreditando, em vez disso, que são apenas duas peças para o mesmo quebra-cabeças.

Larson fez uma objeção aos limites superiores do período que os autores do artigo científico deste ano sugerem para a domesticação de cães. Seu alcance de 20.000 a 40.000 anos é baseado em seu tempo calculado do último antepassado comum de cães modernos e lobos modernos que vivem cerca de 36.900 a 41.500 anos atrás.

“É ingênuo combinar a divergência com a domesticação”, diz ele, acrescentando que a antiga população de lobos que levou a cães quase certamente está extinta; sem mais dados, não podemos dizer com certeza como foi, quando e onde viviam ou quando começaram a se acostumar com os seres humanos. Ainda.

Pode ser por isso que, pondo pequenas discussões de lado, Larson pareceu feliz com o novo estudo e já estava ansioso para saber como ela se encaixará em futuras pesquisas: “Eles trouxeram dois novos genomas antigos, o que é ótimo. Todo novo genoma que temos é fantástico”.

O artigo da Nature Communications deste ano é de acesso aberto, então … vá buscar!

Texto adaptado do blog da Discover Magazine. Leia o original aqui.