India’s Daughter: uma realidade triste sobre estupros de mulheres na Índia (e no mundo)

Segundo estatísticas do governo indiano, a cada 20 minutos, uma mulher é estuprada na Índia. Em 2011, sua população foi estimada em 1,2 bilhão de habitantes. E, entre tantas pessoas, uma apenas, no ano seguinte a...

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Segundo estatísticas do governo indiano, a cada 20 minutos, uma mulher é estuprada na Índia. Em 2011, sua população foi estimada em 1,2 bilhão de habitantes. E, entre tantas pessoas, uma apenas, no ano seguinte a essa estimativa demográfica, se destacou. Era mais uma mulher que cruzou com as pessoas erradas quando o ponteiro do relógio contou mais 20 minutos depois de outro estupro — ocorrido, talvez, a pouca distância de onde Jyoti Singh estava. O crime cometido contra ela foi brutal e, em resposta à tal brutalidade, pessoas se voltaram a protestar contra uma cultura que ainda considera mulheres à parte, frágeis e submissas ao homem.

O documentário India’s Daughter(traduzido: “A Filha da Índia”) traz a história de Jyoti Singh, uma estudante de medicina de 23 anos que desistiu do dinheiro de seu casamento* para pagar a universidade de medicina que tanto sonhava. Ela vivia em luta constante contra o machismo de sua cultura, vivendo da sua própria maneira, contra todos os preceitos primitivos imposto às mulheres naquele país — e em vários outros — e trabalhando de madrugada num call center para ajudar sua família.

No dia 16 de dezembro de 2012, Jyoti e seu amigo saíram de um cinema num shopping de Nova Déli, na Índia. Decidiram pegar um ônibus para voltar às suas casas, porém, aquele ônibus tinha algo incomum, algo que ela e seu amigo não perceberam quando entraram. Nele, havia cinco homens e um adolescente, incluindo o motorista, todos se conheciam. Naquele momento, a sentença de morte estava dada à Jyoti, uma mulher independente, que lutava por seus direitos e pelos de outras. Ela foi brutalmente estuprada e seu amigo espancado. Seu amigo e ela foram jogados ao acostamento e os demônios que fizeram tal brutalidade continuaram seu caminho, como se nada houvesse acontecido. Jyoti foi atendida no hospital ainda com vida, mas o médico não dava mais chances de sobrevivência à ela. Sua mãe e seu pai foram chamados no hospital para se despedirem, e em suas vidas, apenas restou as lembranças de tal brutalidade, que tirou sua filha de seus braços.

O caso de Jyoti é apenas mais um entre os milhões que ocorrem a cada ano no mundo inteiro. Poucos desses casos ganham proporções como o dela ganhou. A brutalidade cometida contra ela fez com que ocorresse protestos durante 1 mês, ininterruptamente, de mulheres e homens que lutam por uma sociedade mais esclarecida e mais igualitária na Índia; lutam para que a sociedade deixe de ver a mulher como apenas a flor frágil que precisa dos espinhos para que a proteja — comparação essa feita pelo advogado de um dos estupradores.

Na entrevista feita com um dos estupradores, era visível a frieza com qual ele falava. Sem remorsos e ainda deixando claro que Jyoti mereceu tal brutalidade, ele cospe: “Uma garota decente não sairia por aí às 21h”. Ele, que é só mais um reflexo da sociedade do mundo, não apenas da Índia, mostra que, infelizmente, é comum, mesmo aqui no Brasil, ouvir coisas parecidas de colegas ou familiares, indicando que ainda há muito o que mudar.

Entre todos os que cometerem agressões contra meninas e mulheres no mundo, apenas uma pouca parcela pagará por isso, por causa do sistema falho dos governos em punir esses acontecimentos banais da nossa espécie. Contudo, a repercussão do caso de Jyoti ocasionou, além de um estuprador preso, a condenação do resto à morte. A morte, talvez, seja apenas um aviso aos outros possíveis estupradores, aviso que, infelizmente, logo se apaga com a erosão do tempo.

A luta não é apenas num país, e sim no mundo inteiro. E, como bem sintetizou a diretora Leslee Udwin, “A Filha da Índia é a filha do mundo inteiro também”.


*Na Índia é praxe que a família da noiva pague o dote ao noivo.

O documentário India’s Daughter pode ser encontrado no Netflix.

Essa resenha foi publicada originalmente no blog do Bule Voador por Élisson Amboni.

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