Restos de florestas costeiras que cresceram em Moçambique há até 5 mil anos estão hoje submersos e se transformaram em recifes repletos de peixes, tubarões e tartarugas. A descoberta foi feita por pesquisadores do Observatório Oceânico do Centro Bazaruto de Estudos Científicos (BCSS), no arquipélago de Bazaruto, no Oceano Índico.
O estudo, publicado na revista Scientific Reports, descreve os chamados “recifes de turfa” e é considerado o primeiro levantamento ecológico desse tipo de ambiente nos trópicos. A pesquisa contou com colaboradores de instituições do Reino Unido, dos Estados Unidos e do Canadá. Ainda não se sabe, porém, quanto carbono esses recifes guardam nem se estão armazenando ou liberando esse carbono hoje.
Como um chão de floresta virou fundo do mar
A turfa é um material escuro e compacto formado por restos de plantas que se acumulam em pântanos e florestas alagadas sem se decompor por completo. Pense numa esponja de folhas e raízes prensadas ao longo de séculos, rica em carbono.
Com a subida do nível do mar nos últimos milhares de anos, a água inundou essas paisagens costeiras. Depois, as ondas removeram a areia que as cobria e deixaram plataformas firmes de turfa expostas no leito marinho. Esse novo “piso” foi então colonizado por organismos marinhos.
A datação por radiocarbono, técnica que mede o decaimento natural de uma forma do carbono como se fosse um relógio, indicou que a turfa se formou entre cerca de 300 e 5 mil anos atrás. Análises químicas confirmaram que o material veio principalmente de árvores e plantas terrestres do litoral.
Recifes sem coral, mas com peixes de recife
A equipe comparou três recifes de turfa com um recife de coral verdadeiro nas proximidades. Os cientistas registraram a cobertura do fundo, os invertebrados, os peixes pequenos e os animais maiores, como tubarões, raias e tartarugas.
Os recifes de turfa não têm nenhum coral vivo. No lugar dele, ervas marinhas e algas crescem diretamente sobre a turfa. Fendas e saliências abrigam lagostas, ostras, cracas e peixes jovens, como pargos e roncadores, espécies normalmente associadas aos corais e que provavelmente usam esses esconderijos para fugir de predadores.
Cada recife de turfa reuniu de 26 a 36 espécies de peixes pequenos, numa diversidade comparável à do recife de coral vizinho. Já os invertebrados presos ao fundo eram completamente diferentes. Tartarugas-verdes e dugongos, que vivem na região, também podem se alimentar das manchas de ervas marinhas.
A vida ali não é fácil. A apenas 2 a 4 metros de profundidade e expostos pelas marés, esses recifes oscilam entre 24,5 °C e 28,6 °C num único dia. Tempestades e ciclones os soterram, desenterram e quebram com frequência, e muitos acabam sumindo pela erosão.
“O que antes era o chão de uma floresta agora é um berçário para peixes de recife. Ficamos surpresos com quanta vida esses antigos depósitos de turfa sustentam e com quantas espécies se deslocam entre eles e os recifes de coral próximos”, afirmou Mario Lebrato, autor principal do estudo e cofundador do BCSS.
Segundo ele, o litoral da região tem pouquíssimo fundo duro natural, sendo formado sobretudo por areia em movimento. Quando o mar expõe essas camadas antigas, surge um raro habitat sólido onde a vida marinha pode se fixar, se esconder e se alimentar.
Um estoque de carbono ainda sem medida
Algumas amostras chegam a ter 40% de carbono orgânico no peso seco. Em terra firme, pântanos de turfa podem guardar de mil a 2 mil toneladas de carbono por hectare no subsolo. Mas quanto há nos recifes submersos? Ninguém sabe ainda.
Os autores reconhecem que o papel atual desses recifes no ciclo do carbono continua em aberto. Para respondê-lo, será preciso medir a espessura e a densidade da turfa, as taxas de soterramento ou erosão e as trocas de gases de efeito estufa. Só então será possível avaliar se eles merecem ser classificados como habitats de “carbono azul”, como os manguezais e as pradarias marinhas.
O trabalho só foi viável graças ao monitoramento contínuo do BCSS, criado em 2017 e descrito como o primeiro observatório oceânico permanente da África. A estação já acumulou mais de 22 milhões de medições em uma área de cerca de 6.850 km², quase cinco vezes o tamanho da cidade de São Paulo.
Ambientes parecidos podem existir sem registro no Sudeste Asiático, no Caribe e na África Ocidental. Com o declínio dos corais, os pesquisadores defendem que os recifes de turfa entrem nos mapas costeiros e nos planos de conservação, já que podem servir de refúgio para algumas espécies.
“A existência de recifes de turfa tropicais evidencia a resiliência e o potencial de reinvenção adaptativa dos ecossistemas costeiros sob pressão da elevação do nível do mar e das mudanças na linha de costa”, disse Lebrato.





