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Café cresce sem estufa na Sicília, onde plantas morreram de frio em 1905, e família diz que o clima mais quente ajudou

Por Editado por Damares Alves
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Em 1905, o inverno de Palermo matou os pés de café plantados ao ar livre no Jardim Botânico da cidade. Mais de cem anos depois, uma família siciliana colhe frutos de cafeeiros na mesma região, sem estufa nenhuma.

Nos arredores de Palermo, a família Morettino cultiva café arábica a céu aberto. A colheita chega a cerca de 100 quilos de frutos por ano, o que rende pouco mais de 15 quilos de grãos torrados.

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A produção é minúscula para os padrões globais, mas combina com o que um estudo publicado na revista PLOS ONE em 2022 projetou para 2050. Segundo a pesquisa, o aquecimento global deve reduzir as áreas aptas ao café em muitas regiões produtoras tradicionais e abrir espaço em locais mais distantes do equador ou mais altos.

O mesmo clima que permite o cultivo, porém, pode dificultar o acesso à água de que as plantas precisam.

Das sementes do Jardim Botânico a 100 quilos por safra

A tentativa de 1905 envolveu 25 cafeeiros, que não resistiram a temperaturas abaixo de −3 °C. Em 1911, uma nova leva de plantas foi destruída por uma onda de frio.

Os Morettino trabalham com café desde 1920, mas sempre com grãos importados. Durante uma viagem à Guatemala, Arturo Morettino se encantou com o cultivo e se perguntou se conseguiria recriar algo parecido em casa. Nos anos 1990, a família plantou cerca de 60 pés de arábica com sementes doadas pelo Jardim Botânico de Palermo.

Durante anos, as plantas sobreviveram, mas produziram pouco. Algumas morreram e outras se adaptaram aos poucos. A virada veio recentemente: segundo a família, foram cerca de 30 quilos de frutos em 2021, 50 em 2022, 70 em 2023 e cerca de 100 hoje.

“2021 foi notável; até então, conseguir colheitas como aquela era impensável”, disse Andrea Morettino, filho de Arturo, ao jornal italiano La Stampa.

A plantação ocupa hoje cerca de dois hectares em San Lorenzo ai Colli, a aproximadamente 350 metros de altitude. Pesquisadores da Universidade de Palermo e do Jardim Botânico estudam como os cafeeiros respondem às condições mediterrâneas. Em 2024, o Jardim Botânico também montou um canteiro experimental com 25 plantas de idades e variedades diferentes, cultivadas ao ar livre entre árvores cítricas e outras espécies.

Os frutos são colhidos à mão, fermentados, secos e torrados, como nas regiões produtoras tradicionais. A família testou métodos natural, lavado e Gold Honey. Segundo Andrea, especialistas em sabor identificaram notas de flores brancas, flor de laranjeira e uva-passa. A meta não é abastecer a Itália, mas criar um café especial siciliano, em pequena escala.

Calor tropical, mas reservatórios no limite

O arábica costuma prosperar em regiões quentes, úmidas e de altitude, e a produção mundial se concentra na América Latina, na África e na Ásia. A Sicília está muito fora dessa faixa. Ainda assim, não é o único ponto do sul da Europa a testar os limites da planta.

Houve cultivos experimentais na Espanha, as Ilhas Canárias produzem café desde o século 19 e o clima ameno dos Açores, em Portugal, também permite o plantio. Para Andrea, a mudança na ilha foi rápida.

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“Tudo mudou nos últimos seis anos; o calor ganhou uma natureza tropical”, afirmou.

Temperatura adequada, no entanto, não basta. Cafeeiros precisam de umidade, e verões mais quentes, secas prolongadas e a disputa por água de irrigação podem dificultar o cultivo. Em 2024, a Sicília enfrentou sua pior seca em quase duas décadas, segundo o serviço europeu Copernicus, com reservatórios em níveis críticos e falta de água para a agricultura e para as casas.

O processamento do café também pode consumir muita água, sobretudo no método lavado, embora o volume varie conforme a tecnologia e o reaproveitamento adotados. Não há dados públicos suficientes para calcular o consumo de água da colheita dos Morettino.

Por ora, a plantação é um experimento, não um sinal de que a Itália vai virar potência cafeeira. A grande dúvida é se culturas exóticas como o café conseguem ganhar escala e se tornar sustentáveis em lugares como a Sicília.

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