A superfície do Oceano Pacífico equatorial atingiu 30,06 °C no último dia 6 de outubro, a maior temperatura já registrada na região desde o início das medições. É a primeira vez que a água ultrapassa os 30 °C na chamada área Niño 3.4, faixa do Pacífico central usada pelos meteorologistas como referência para monitorar o El Niño. O dado confirma que o fenômeno em curso caminha para se tornar o mais intenso da história instrumental.
A anomalia térmica na região já passa de 2,5 °C acima da média, valor que enquadra o evento na categoria de super El Niño. As projeções mais recentes indicam que esse desvio pode chegar a algo entre 3,5 °C e 5 °C, superando com folga o recorde anterior, de 2,6 °C, registrado entre novembro de 2015 e janeiro de 2016.
Para o Brasil, o alerta tem endereço conhecido. O El Niño costuma despejar chuvas acima da média sobre a Região Sul e favorecer secas no Norte e no Nordeste.
Um aquecimento que já rompeu todas as escalas
O El Niño é a fase quente do ciclo conhecido como ENSO (El Niño-Oscilação Sul), que alterna com a La Niña em intervalos de dois a sete anos. Ele é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial e mexe com a circulação atmosférica de praticamente todos os continentes.
A classificação depende do tamanho da anomalia. Quando a água fica pelo menos 0,5 °C acima do normal, fala-se em El Niño fraco. A partir de 0,8 °C, o evento é considerado moderado. Ao atingir ou ultrapassar 2 °C, entra-se no território do super El Niño, patamar já ultrapassado com margem pelo episódio atual.
O fenômeno foi oficialmente declarado em 11 de junho de 2026 pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que acompanha a evolução do evento em sua discussão diagnóstica mensal sobre o ENSO. Desde então, os modelos convergiram para um cenário de intensidade recorde. As razões para um aquecimento tão excepcional, porém, ainda não são bem compreendidas pelos cientistas.
Sul do Brasil na rota das chuvas extremas
Entre as manifestações regionais mais conhecidas do El Niño está o excesso de chuva no Sul do Brasil. O aquecimento do Pacífico intensifica o jato subtropical, que acaba bloqueando o avanço das frentes frias e mantém sistemas de instabilidade estacionados sobre a região por dias seguidos. O resultado são temporais persistentes, cheias de rios e deslizamentos.
O histórico recente mostra o tamanho do risco. O super El Niño de 2015-2016 trouxe enchentes severas ao Rio Grande do Sul, e o episódio de 2023-2024 foi seguido pela maior catástrofe climática da história gaúcha, com as inundações de maio de 2024. Com um evento que promete ser ainda mais forte, a combinação de solos encharcados, rios cheios e novos pulsos de chuva é o principal motivo de preocupação para a Defesa Civil nos estados do Sul ao longo da primavera e do verão.
Ao redor do mundo, os efeitos já começaram a aparecer. O evento atual coincidiu com a formação recente e simultânea de vários ciclones no Pacífico. Para algumas regiões, o fenômeno é sinônimo de secas e enchentes; para outras, pode até representar ganhos para a agricultura, graças a condições climáticas mais favoráveis às safras.
O “problema maior”, segundo o climatologista James Hansen
Para o climatologista James Hansen, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, os impactos regionais são apenas parte da história. O pesquisador, uma das vozes mais influentes da ciência climática, chama a atenção para um efeito de escala planetária. “Este super El Niño chega a um planeta já afetado pelo aquecimento global de origem humana. As ondas de calor estão se intensificando, tanto no mar quanto em terra”, afirma.
Segundo Hansen, o pior ainda está por vir: os efeitos mais importantes só serão sentidos daqui a vários meses. Isso porque o calor liberado pelo oceano para a atmosfera durante um El Niño se reflete na temperatura média global com certa defasagem. Na prática, o evento deve amplificar o calor mundial em 2027, com possíveis consequências até 2028. A magnitude exata desse empurrão térmico só poderá ser medida com precisão em análises feitas cerca de um ano após o fim do fenômeno.
Calor que mata onde há menos ar-condicionado
O climatologista também alerta para o custo humano das temperaturas extremas. “As consequências do calor intenso para a saúde humana têm sido subestimadas”, avalia Hansen. De acordo com ele, as ondas de calor teriam causado mais de 25 mil mortes adicionais na Europa no último verão, número que continua aumentando.
O pesquisador pondera que o uso mais amplo de ar-condicionado pode reduzir a mortalidade futura em países europeus. O cenário é bem diferente nas regiões mais atingidas pelo calor, como o Sul da Ásia, os países do Golfo e a África. Nações como Índia, Paquistão, Bangladesh, Mianmar e Níger concentram grandes populações, altos índices de pobreza e acesso limitado à climatização, o que as torna especialmente vulneráveis.
Mesmo que alguns países colham benefícios econômicos pontuais, o aumento da temperatura global prometido por este El Niño deve atingir negativamente o planeta inteiro. E chega no pior momento possível, somando-se a um sistema climático já pressionado pelo aquecimento provocado pela atividade humana.





