O que um canteiro de obras para um estacionamento pode esconder? Em Marselha, na França, revelou dois barcos gregos com cerca de 2.500 anos, cujos cascos eram literalmente costurados com fio.
As embarcações estavam enterradas no lodo sob a praça Jules-Verne, a poucos passos do Vieux-Port, desde o fim do século VI a.C. Elas apareceram durante uma escavação feita entre 1992 e 1993, dentro da obra de um estacionamento subterrâneo no centro da cidade.
Batizados de Jules-Verne 7 e Jules-Verne 9, os navios seguiam a técnica grega arcaica de montagem por costura. No estudo publicado em 2019 no International Journal of Nautical Archaeology, os arqueólogos Patrice Pomey e Pierre Poveda descrevem o Jules-Verne 9 como um barco inteiramente costurado, com tábuas e cavernas unidas por amarrações.
Segundo a arqueóloga Antoinette Hesnard, responsável pela escavação, os dois cascos estavam “extraordinariamente bem conservados”.
O número total de naufrágios no sítio, porém, varia conforme a fonte consultada.
Uma escavação sobre os escombros de 1943
Em relato publicado em 1994 nos Comptes rendus da Académie des inscriptions et belles-lettres, Hesnard explica que a escavação foi integrada ao canteiro do estacionamento. A área chegou a 3.700 metros quadrados, cerca de metade de um campo de futebol.
Os trabalhos duraram de meados de agosto de 1992 a meados de agosto de 1993, com 25 a 30 profissionais contratados. O próprio terreno carregava uma cicatriz recente: a praça foi criada sobre os escombros de um bairro dinamitado no início de 1943.
Abaixo desse entulho do século XX, o solo guardava muito mais que dois cascos. O anuário Larousse de 1994 registra vestígios de dez navios antigos, além de um cais grego do século VI a.C., um estaleiro helenístico e armazéns romanos. Outras publicações falam em sete naufrágios.
De acordo com o Inrap, os dois barcos gregos navegaram entre a fundação da cidade, no início do século VI a.C., e seu desarmamento, por volta de 545 a.C. Depois, foram abandonados no fundo do porto, provavelmente por desgaste.
Na revista Archaeonautica, em 1998, Pomey relatou que as primeiras sondagens confirmaram o grande interesse das peças, mas também sua extrema fragilidade. Os cascos foram retirados e passaram por tratamento de conservação.
Gyptis, a réplica costurada com 4,5 km de linho
O Jules-Verne 9 é o mais documentado dos dois. O CNRS o identifica como uma grande barca grega de pesca costeira, associada à coleta de coral vermelho. Segundo a apresentação do projeto Gyptis, ela era feita para navegar do Lacydon, o atual Vieux-Port, até as calanques e os arquipélagos de Frioul e Riou.
Foram necessários 20 anos de pesquisa para fazê-la flutuar novamente. A réplica, chamada Gyptis, mede 9,85 metros de comprimento por 1,88 metro de largura e exigiu 10 mil cavilhas e 4,5 quilômetros de fio de linho.
A embarcação foi costurada segundo a técnica reconstituída a partir dos destroços originais. O projeto integrou a programação de Marselha como Capital Europeia da Cultura de 2013, e o lançamento ao mar aconteceu em 12 de outubro daquele ano, no Vieux-Port.
Os originais estão hoje no Museu de História de Marselha. Segundo o Ministério da Cultura francês (DRASSM, arqueologia subaquática), o Jules-Verne 7 e o Jules-Verne 9 foram transferidos para o museu para serem apresentados ao público. Uma apresentação da France Bleu menciona cinco naufrágios expostos no museu: dois gregos e três romanos.
Uma dúvida permanece: as fontes não esclarecem se a barca “inteiramente costurada” citada pelo Larousse é exatamente o Jules-Verne 9.
Em 12 de outubro, completam-se 13 anos desde que Gyptis tocou a água do Vieux-Port, a poucos passos de onde seu modelo passou 2.500 anos no lodo.





