Canoas pequenas, milhares de quilômetros de oceano aberto e nenhuma bússola. Ainda assim, os navegadores polinésios atravessaram o Pacífico com uma precisão que impressiona astrônomos até hoje.
O segredo estava no céu noturno. Segundo Christopher Palma, professor de astronomia da Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State) e divulgador científico há mais de 20 anos, em artigo publicado no The Conversation, a navegação polinésia é uma demonstração magistral de navegação celeste, baseada em princípios astronômicos sólidos.
O tema voltou à tona com Moana 2, lançado no fim de 2024. O filme da Disney retoma uma pergunta fascinante: como esses povos colonizaram ilhas separadas por mais de 1.600 quilômetros de água a bordo de simples canoas a vela?
Para Palma, não há nada de misterioso nessa arte. Ela está ao alcance de qualquer pessoa disposta a olhar para cima.
Polaris, a estrela que revela a latitude
A primeira peça do sistema é Polaris, a Estrela Polar. Ela fica quase exatamente sobre o polo Norte da Terra e, por isso, permanece praticamente fixa no céu durante o ano inteiro, em qualquer estação.
Quem está ao norte da linha do Equador consegue localizá-la a qualquer hora da noite. Isso a transforma em um ponto de referência geográfico absoluto, uma espécie de bússola natural pendurada no firmamento.
Mais útil ainda é a altura da estrela acima do horizonte, que corresponde diretamente à latitude do observador. A 40 graus de latitude norte, como em boa parte dos Estados Unidos, Polaris aparece exatamente a 40 graus do horizonte. Quanto mais perto do Equador, mais baixa ela fica, até sumir de vista no hemisfério sul.
Para encontrá-la, basta localizar a Ursa Maior: as duas estrelas da ponta da “tigela” da constelação apontam diretamente para Polaris. A medição dispensa instrumentos. Três dedos com o braço esticado equivalem a cerca de 5 graus, e um punho fechado, a cerca de 10 graus.
Os navegadores polinésios usavam exatamente esse método manual, que é retratado com fidelidade no filme da Disney.
O anzol de Maui no céu do Pacífico
Polaris sozinha, porém, não basta para atravessar um oceano. Os navegadores polinésios memorizavam dezenas de constelações e sabiam exatamente onde cada uma nascia, atingia seu ponto mais alto e se punha, de acordo com a ilha de partida e a de destino.
Escorpião é o exemplo perfeito. Conhecida pelos havaianos como o anzol de Maui, a constelação é dominada por Antares, uma estrela vermelha e brilhante. No fim de junho, ela surge a sudeste por volta das 22h30, culmina exatamente ao sul e se põe a sudoeste.
Vista de uma ilha polinésia, em latitudes baixas, a constelação aparece inteira acima do horizonte. Isso é impossível na maior parte da Europa ou do norte dos Estados Unidos.
Como a posição de Escorpião muda conforme a latitude e o horário, os navegadores memorizavam essas variações para cada rota conhecida. Assim, sabiam em que direção manter a canoa e por quanto tempo seguir até avistar a próxima ilha. Não era magia, mas geometria celeste aplicada.
Somado à leitura das correntes oceânicas, da cor da água e do comportamento das aves marinhas, esse conhecimento astronômico formava um sistema de navegação de eficiência notável.
Qualquer pessoa no hemisfério norte pode experimentar o primeiro passo: encontrar Polaris e medir sua altura com o punho. É o primeiro ato de navegação celeste polinésia.





