Mais de 9 mil folhas manuscritas, guardadas em um arquivo que já havia sido parcialmente danificado por um incêndio, acabam de fornecer uma prova que faltava à ciência do clima. A Bacia do Congo está esquentando, e os dias quentes ficaram muito mais frequentes.
Entre as décadas de 1960 e 1980, o número de dias quentes por ano na região praticamente dobrou. A conclusão vem de um estudo publicado na revista Earth System Dynamics, liderado pela Vrije Universiteit Brussel (VUB), na Bélgica.
Os pesquisadores recuperaram registros meteorológicos históricos da República Democrática do Congo (RDC). O material estava guardado nos arquivos em papel do Instituto Nacional para o Estudo e a Pesquisa Agronômica (INERA), em Yangambi, e nos Arquivos do Estado da Bélgica.
Um milhão de observações salvas do papel
Em duas expedições de campo realizadas em 2023, Derrick Muheki, pesquisador da VUB e autor principal do estudo, fotografou mais de 9 mil planilhas mensais preenchidas à mão. O trabalho contou com funcionários do INERA e com a Universidade de Gante (UGent). Os dados vinham de 37 estações espalhadas pela RDC.
A transcrição foi feita automaticamente pelo MeteoSaver, um software de código aberto desenvolvido por Muheki com a equipe do Centro de Humanidades Digitais da UGent. A ferramenta, descrita em artigo científico próprio, recebeu menção especial na lista de melhores invenções de 2025 da revista TIME.
O resultado é um banco de dados de acesso aberto com mais de um milhão de observações diárias, algumas com várias medições por dia. Somado a dados resgatados anteriormente, forma um dos maiores conjuntos climáticos da Bacia do Congo, região até então negligenciada pela comunidade científica.
Os registros vão de 1908 a 2023 e incluem temperaturas máximas, mínimas e médias, chuva diária e medições de bulbo seco e úmido feitas três vezes ao dia. A maioria das séries, porém, começa nos anos 1960 e termina nos anos 1990, interrompida pelas guerras do Congo, que levaram ao colapso institucional do país.
Dias mais quentes e chuvas mais fortes
Com o novo banco de dados, os autores documentaram pela primeira vez a evolução dos extremos de calor na região desde os anos 1960. Entre 1961 e 1990, as temperaturas máximas subiram cerca de 0,7 °C, as mínimas, 0,3 °C, e as médias, 0,5 °C.
Cada década trouxe mais dias quentes por ano, e esses dias ficaram ainda mais quentes, enquanto os dias frios diminuíram. Dados de estações com séries mais longas indicam que o aquecimento continuou nos anos 2000.
A chuva também mudou. Das três estações analisadas para precipitação, duas registraram o dobro de eventos de chuva intensa nos anos 1980 em relação aos anos 1960.
Segundo os pesquisadores, o padrão é consistente com as tendências observadas no mundo todo, ligadas ao aumento das temperaturas globais provocado pela queima contínua de combustíveis fósseis.
Uma lacuna que nem o IPCC conseguiu fechar
Até agora, a África Central tinha dados climáticos históricos extremamente escassos. Segundo Wim Thiery, professor da VUB e autor sênior do estudo, a região é uma das poucas em que o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não conseguiu confirmar o aumento dos extremos de calor, em grande parte por falta de observações passadas e de estudos científicos. Os novos dados também ajudam a avaliar e aprimorar modelos climáticos para a região.
Thiery destaca o peso disso para o Sul Global. “Essas regiões são as menos responsáveis pelas mudanças climáticas, mas sofrem o peso maior dos impactos, e essas novas observações vão ajudar a orientar a tomada de decisões quando se trata de adaptação e de uma transição justa”, afirmou.
Para Muheki, a urgência do resgate ficou evidente durante a visita ao INERA.
“Ver o quanto esses arquivos em papel eram frágeis enquanto eu visitava o INERA me fez perceber o quão urgente é esse trabalho de resgate de dados. Poucos meses antes da minha visita, parte do arquivo havia sido danificada por um incêndio. Poderíamos ter perdido décadas de dados insubstituíveis”, disse o pesquisador, que faz doutorado na VUB.
Os autores defendem mais projetos de resgate de dados, especialmente em regiões com poucos dados, como esta parte do mundo, onde, segundo Muheki, a adaptação aos impactos do clima já é uma necessidade.





