Durante décadas, a Ilha de Páscoa serviu de alerta sobre os perigos da exploração desenfreada da natureza. Segundo essa versão, um povo teria derrubado suas florestas até provocar a própria ruína. Pesquisas da última década, porém, contam outra história. Análises de DNA antigo não encontram sinais de um colapso populacional antes da chegada dos europeus. A queda brutal no número de habitantes de Rapa Nui aconteceu no século 19, provocada por incursões de traficantes de escravos e por epidemias. O debate ainda não está totalmente encerrado, mas a narrativa do “ecocídio” perdeu boa parte de sua sustentação.
Como nasceu a tese do ecocídio
Rapa Nui, nome polinésio da ilha, tem cerca de 164 km² e fica a mais de 2.000 quilômetros da terra habitada mais próxima. Suas cerca de 900 estátuas monumentais, os moai, fizeram dela um dos sítios arqueológicos mais discutidos do mundo. As estátuas também alimentaram o relato do autocolapso, popularizado pelo geógrafo americano Jared Diamond, sobretudo no livro Colapso, lançado em 2005.
A tese se apoia em duas afirmações. A primeira diz que a ilha teria chegado a abrigar dezenas de milhares de pessoas em seu auge e que essa população teria caído para poucos milhares até o primeiro contato europeu, em 1722. A segunda atribui aos moradores a destruição da floresta de palmeiras que cobria o território, em parte para transportar as estátuas. Sem árvores, os solos teriam sofrido erosão e as colheitas teriam fracassado. A falta de madeira também teria impedido a construção de canoas para a pesca. Escassez, guerras internas e canibalismo viriam em seguida.
Parte desse raciocínio se baseia em fatos comprovados. A floresta de fato desapareceu, a palmeira nativa foi extinta e o fim da escultura dos moai indica uma profunda transformação social. Os geógrafos Andreas Mieth e Hans-Rudolf Bork, da Universidade de Kiel, documentaram em toda a ilha vestígios de queimadas que apontam os humanos como principais responsáveis pelo desmatamento. Tradições orais também mencionam conflitos entre grupos rivais.
Jardins de pedra sugerem uma população modesta
O navegador holandês Jacob Roggeveen chegou à ilha no domingo de Páscoa de 1722 e estimou entre 2.000 e 3.000 habitantes. Já as estimativas para o pico populacional anterior ao contato variam muito. A maioria dos arqueólogos trabalhava com 4.000 a 9.000 pessoas, enquanto alguns modelos agrícolas chegavam a 15.000 ou 17.000.
Essa diferença depende principalmente do tamanho dos jardins de pedra, uma técnica que mistura fragmentos de rocha ao solo para proteger as plantações, sobretudo de batata-doce, do vento e da maresia. Quanto maior a área desses jardins, mais gente a ilha conseguiria alimentar. Em 2024, uma equipe liderada pelo arqueólogo Dylan Davis, da Universidade Columbia, mapeou essas estruturas com imagens de satélite em infravermelho e aprendizado de máquina. O resultado foi de apenas 0,76 km², menos de 0,5% da ilha. Estudos anteriores indicavam entre 4,9 e 21,1 km². Somando os recursos marinhos, Rapa Nui teria sustentado no máximo cerca de 3.900 pessoas, número próximo ao registrado em 1722.
Os resultados foram contestados. O arqueólogo Christopher Stevenson, coautor das estimativas anteriores, avalia que o método deixou de identificar jardins nas encostas do principal vulcão da ilha. A arqueóloga Jo Anne Van Tilburg argumenta que uma área cultivada pequena também poderia indicar uma adaptação insuficiente diante de uma população em crescimento.
A genética oferece um argumento independente. Um estudo publicado na revista Nature em 2024 analisou os genomas de 15 rapanuis que viveram entre 1670 e 1950, cujos restos estão guardados no Musée de l’Homme, em Paris. Um colapso demográfico teria deixado como marca uma queda abrupta na diversidade genética. Os pesquisadores não encontraram nenhum sinal disso no século 17 e descartaram a hipótese de um gargalo populacional severo antes do contato europeu. O DNA também ajuda a esclarecer outro ponto. Os rapanuis atuais carregam cerca de 10% de ascendência indígena americana, e a data dessa mistura era motivo de discussão. Um estudo de 2017 na Current Biology, conduzido pelo paleogeneticista Lars Fehren-Schmitz, não havia encontrado vestígios de fluxo genético vindo da América do Sul antes de 1722 em restos antigos, o que sugeria uma mistura posterior à chegada dos europeus. O estudo da Nature de 2024, baseado em genomas de melhor qualidade, chegou à conclusão inversa e data a mistura entre 1250 e 1430.
Lâminas de obsidiana que não contam uma história de guerra
A ideia de uma guerra civil deve muito ao etnógrafo norueguês Thor Heyerdahl, famoso por ter atravessado o Pacífico em 1947 a bordo do Kon-Tiki, uma jangada de pau-de-balsa inspirada em embarcações pré-colombianas. Ele interpretou relatos orais coletados no início do século 20 como prova de uma grande batalha por volta de 1680, na qual uma das tribos da ilha teria sido quase exterminada.
Por muito tempo, os milhares de lascas de obsidiana com cabo encontradas na ilha, chamadas mata’a, foram apresentados como as armas desse conflito. Em 2016, uma equipe liderada pelo antropólogo Carl Lipo, da Universidade de Binghamton, analisou o formato de mais de 400 delas. A grande irregularidade das peças as diferencia de armas de guerra, que costumam ser padronizadas, e sugere ferramentas de uso doméstico ou ritual. A arqueóloga Robin Torrence ressaltou, no entanto, que a análise não descarta totalmente o uso como arma.
Os restos humanos apontam na mesma direção. De 469 crânios examinados por uma equipe do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, liderada pelo antropólogo Douglas Owsley, apenas dois tinham lesões compatíveis com uma mata’a. A maioria dos ferimentos resultou de golpes contundentes, como pedradas. Havia violência, mas nada indica uma guerra sangrenta em larga escala. O canibalismo só aparece na tradição oral, e a confiabilidade de relatos registrados no século 20 sobre fatos supostamente ocorridos no século 17 continua em questão.
Ratos, fogo e o sumiço das palmeiras
Segundo a estimativa mais aceita, a ilha foi colonizada por polinésios por volta do ano 1200. Análises de pólen confirmam que um vasto palmeiral cobria então boa parte do território e que ele desapareceu depois. Os primeiros colonos levaram consigo o rato-polinésio (Rattus exulans), que, ao comer as sementes das palmeiras, teria impedido a regeneração da floresta.
Um estudo de 2025 assinado por Carl Lipo e pelo arqueólogo Terry Hunt, da Universidade do Arizona, calcula que uma população de ratos introduzida poderia chegar a 11,2 milhões de indivíduos em 47 anos e consumir 95% das sementes. Os restos de ratos encontrados no sítio de Anakena diminuem ao longo do tempo, o que contradiz a ideia de que os moradores teriam passado a comê-los por falta de outros alimentos. Os autores concluem que o desmatamento resultou da ação combinada dos roedores e da derrubada feita pelos humanos.
Mieth e Bork defendem outra leitura. Segundo eles, mais de 90% dos cocos de palmeira preservados fora das cavernas não têm marcas de roedores, o que reduziria o papel dos ratos. O ritmo do desmatamento também segue em discussão entre os especialistas.





