Por que 31 pirâmides do Egito, incluindo as famosas de Gizé, se concentram em uma faixa estreita de deserto? Segundo um estudo internacional, a resposta pode estar em um rio que desapareceu da paisagem há milhares de anos.
Pesquisadores do Egito, dos Estados Unidos e da Austrália identificaram um antigo braço do Nilo com cerca de 64 quilômetros de extensão. Ele está enterrado sob terras agrícolas e areia do deserto. O canal corria ao longo do maior campo de pirâmides do país, entre Gizé e Lisht.
O trabalho foi liderado por Eman Ghoneim, da Universidade da Carolina do Norte em Wilmington, e publicado na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature. As 31 pirâmides analisadas foram erguidas ao longo de quase mil anos, entre 2686 e 1649 a.C., da Terceira à Décima Terceira Dinastia.
Os próprios autores tratam o papel do rio na escolha dos locais como uma hipótese forte, e não como fato comprovado.
Radar enxerga o braço Ahramat sob as plantações
Sedimentos já indicavam que o Nilo antigo tinha uma vazão muito maior e se dividia, em alguns trechos, em vários braços. Pesquisadores suspeitavam que um deles passasse junto às pirâmides, mas faltava uma prova concreta.
A equipe começou pelas imagens de satélite. As fotografias ópticas não mostravam nada, porque os trechos do antigo rio estão cobertos pelas lavouras da planície de inundação. Por isso, os cientistas recorreram ao radar.
Levantamentos geofísicos e perfurações confirmaram então a presença de sedimentos fluviais e de antigos canais enterrados. Nas amostras de solo, areias médias e bem selecionadas, típicas de leito de rio, aparecem em profundidade, cobertas de forma abrupta por materiais mais finos.
O canal teria entre 200 e 700 metros de largura. Os autores batizaram o braço de “Ahramat”, palavra árabe que significa “pirâmides”.
Calçadas que terminavam em possíveis portos fluviais
A pista mais sugestiva vem da arquitetura dos complexos funerários. Muitas pirâmides dos Impérios Antigo e Médio têm calçadas que seguem até o braço do rio e terminam em templos do vale. Segundo os pesquisadores, essas construções podem ter funcionado como portos fluviais.
Em Gizé, as calçadas de quatro pirâmides chegam a uma baía, chamada pelos autores de “Giza inlet”, ligada ao Ahramat. O estudo também apresenta o primeiro mapa do ambiente paleo-hidrológico da região entre Lisht e Gizé.
Para a equipe, o braço estava ativo durante as obras, e os autores sugerem que servia para transportar trabalhadores e materiais. Isso ajudaria a explicar o deslocamento de blocos de calcário, alguns com mais de uma tonelada, um enigma logístico antigo. O local também ficava próximo de Mênfis, então capital do Egito.
O desaparecimento do rio teria várias causas combinadas. Os autores apontam o acúmulo de areia trazida pelo vento, ligado a uma grande seca iniciada há cerca de 4.200 anos, que explicaria o deslocamento do braço para o leste e seu soterramento. Eles citam também atividade tectônica e a queda na vazão do Nilo provocada pela aridez crescente.
O estudo, porém, não mede o peso de outros critérios, como solo firme, mão de obra e poder político, que também pesavam na construção de uma pirâmide.
A descoberta pode ainda ajudar a localizar antigos assentamentos e protegê-los da urbanização acelerada. Escavações futuras dirão se os portos de Gizé e Lisht realmente estão sob as plantações do vale.





