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Ciência

Estudo mostra que cefalópodes editam o próprio RNA para adaptação

Estudos mostraram que cefalópodes coleóides podem alterar seu RNA para se adaptar ao ambiente. (Martin Str/Pixabay)

Os cefalópodes são moluscos bastante inteligentes que surgiram no planeta há mais ou menos 530 milhões de anos. Os integrantes dessa classe são os polvos, lulas, sépias e náutilos. Durante esses milhões de anos de evolução, todavia, uma característica incomum se desenvolveu nos cefalópodes coleóides (todos os citados acima, com exceção do náutilo). Acontece que pesquisadores descobriram que esses animais podem editar o RNA de suas células muito mais frequentemente que qualquer outro organismo do reino animal.

(Imagem de edmondlafoto por Pixabay)

Por conseguinte, o estudo contou com quatro espécies de cefalópodes, duas de polvos, uma de lula e uma de sépia. Além do mais, os cientistas analisaram uma espécie de nautilóide e um molusco gastropode. Nesse sentido, a ideia era buscar uma relação ou origem evolutiva para a capacidade de editar o RNA. Contudo, o estudo mostrou que apenas as lulas, polvos e sépias apresentam essa característica. Assim os autores sugerem que a edição do RNA permite uma adaptação rápida a diferentes ambientes aquáticos. Todavia, não se sabe ao certo o que estimula esse evento celular e o artigo mostra que essa habilidade curiosa tem um preço evolutivo.

Como o material genético vira informação

Os animais são eucariotos, ou seja, possuem um núcleo celular onde fica armazenado o material genético – nesse caso, DNA. Sempre que é preciso produzir uma proteína, o DNA fornece o molde para que isso aconteça e o corpo continue funcionando normalmente. O que acontece é que esse molde é o RNA mensageiro, uma “cópia” do DNA que leva as informações até os ribossomos, que traduzem a sequência genética em uma proteína.

(Imagem de OpenClipart-Vectors por Pixabay)

O processo acima acontece a todo momento, milhares de vezes para todas as proteínas essenciais do corpo. Essas biomoléculas, aliás, mantém todas as funções essenciais das células funcionando. O que acontece nos cefalópodes é que há alterações frequentes no RNA mensageiro. Isso, por sua vez, causa alteração nas proteínas que se formam e consequentemente nas características do animal. O preço evolutivo é que há pouca edição do DNA em si, o que faz com que esse grupo evolua muito lentamente.

A evolução dos cefalópodes

Os primeiros cefalópodes surgiram no final do Período Cambriano, há mais de 500 milhões de anos, provavelmente a partir de gastrópodes aquáticos. Entre 350 e 480 milhões de anos atrás, houve a diferenciação entre náutilos e coleóides. Por fim, entre 200 e 350 milhões de anos, os polvos se diferenciaram das lulas e sépias – essas duas ainda passaram por diferenciações entre 120 e 200 milhões de anos.

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(Imagem de sandrine RONGÈRE por Pixabay)

Pesquisadores acreditam, nesse sentido, que a edição do RNA dos coleóides pode estar relacionada à alta inteligência desses animais. Estudos de 2015 mostraram que lulas podem alterar até 60% do RNA do sistema nervoso, alterando a própria fisiologia dos animais. Ademais, análises de DNA mitocondrial mostraram, como dito antes, pequenas mudanças evolutivas no material genético dessas espécies. Isso sugere que os cefalópodes “trocaram” a capacidade de evoluir seu DNA por aquela de editar seu RNA, permitindo aos animais uma adaptação mais rápida a certos ambientes e condições.

O artigo científico está disponível no periódico Cell.

Mateus Marchetto
Publicado por

Aluno de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná, professor de inglês, apaixonado por ciência e divulgação científica. Me interesso principalmente pelas áreas de microbiologia, bioquímica e bioinformática.

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