Pesquisadores finalmente descobrem mistério sobre a evolução dos olhos dos quítons

Tonicella lineata, uma das espécies de quítons. Imagem: Matt Knoth/Flickr

O mundo é cheio de criaturas… peculiares! Há algumas semanas falamos aqui sobre a tartaruga-gigante-de-carapaça-mole-de-cantor, uma curiosa tartaruga que não possui casco rígido. O mar é cheio dessas criaturas um tanto bizarras e na terra também podemos encontrar vários animais com hábitos estranhos. Um grupo entre esses animais atípicos são os quítons.

Quítons são pequenos moluscos marinhos com conchas que chamam atenção pela forma que partes das suas espécies desenvolveram seus olhos. Algumas delas possuem milhares de pequenos glóbulos oculares incorporados em suas conchas segmentadas que são feitas de um mineral chamado aragonita. Chamados de ocelos, esses órgãos sensoriais possuem visão verdadeira, distinguindo diferentes formas além da luz, apesar de serem muito pequenos e mais primitivos que os olhos de outros animais.

Porém, esses não são os únicos “olhos” encontrados nos quítons. Outras das suas espécies têm “manchas oculares” que funcionam de maneira similar aos olhos compostos que vemos tipicamente nos insetos como as moscas e gafanhotos. No caso dos quítons, as “manchas oculares” formam um sensor visual que se distribui ao longo de toda sua concha.

No mês anterior, um grupo de pesquisadores publicou um artigo na revista Science onde investigaram a evolução dessas espécies para determinar como se desenvolveu esse sistema visual. O estudo revelou que os ancestrais dos quítons evoluíram rapidamente seus olhos em quatro ocasiões diferentes, resultando em dois tipos muito distintos de sistemas visuais.

Isso pode parecer muito, mas evoluções múltiplas já foram observadas em outros animais. Os caranguejos, por exemplo, com seu andar lateral evoluíram cerca de cinco vezes no mesmo período. Para os autores isso é uma evidência de como a evolução é um processo que cria múltiplas soluções que as espécies utilizam para resolver problemas básicos para garantir sua sobrevivência.

“Fomos sabendo que havia dois tipos de olhos, então não estávamos esperando quatro origens independentes”, revela a bióloga evolucionária e autora principal do estudo, Rebecca Varney da Universidade da Califórnia na Santa Bárbara, numa entrevista para o site The Current. “O fato de que os quítons evoluíram os olhos quatro vezes, de duas maneiras diferentes, é bastante surpreendente para mim.”

Pesquisadores finalmente descobrem mistério sobre a evolução dos olhos dos quítons
Os olhos de uma das espécies de quítons. Imagem: Wyss Institute at Harvard University

Verney e seus colegas montaram juntos uma linha do tempo, curiosos com as condições potenciais que levaram os quítons a evoluírem de maneira tão múltipla. Esses animais possuem aberturas entre as placas das suas conchas por onde os nervos ópticos passam. Os cientistas descobriram que as espécies que apresentavam menos dessas fendas tendiam a evoluir menos, porém mais complexos olhos na concha. Em contrapartida, os quítons que tinham mais dessas aberturas passaram a desenvolver as mais numerosas e mais simples “manchas oculares”.

A equipe concluiu no artigo que “Esclarecer o papel da história de [traços] na formação dos resultados evolutivos é crucial para nossa compreensão de como e por que os caracteres podem evoluir de maneiras previsíveis”. Enquanto isso, outros cientistas buscam compreender como o cérebro dos quítons faz para receber as informações dessas estruturas visuais. Há alguns anos um artigo foi publicado na Journal of Morphology, contudo essa é uma pesquisa que segue em andamento.

Em fevereiro deste ano, outro estudo na Journal of Experimental Biology apresentou um pouco de avanço nessa área. Segundo os seus autores, existe ao menos uma espécie de quíton, que possui esses olhos mais complexos nas suas conchas, enviam informações visuais para processamento em uma estrutura neural em forma de anel que circunda todo o seu corpo. Os nervos ópticos conectados a esse anel então percebem a localização de um objeto com base em quais partes do anel estão ativadas.

Apesar dos avanços, ainda existe muito sobre a morfologia dos quítons que permanece um mistério para biologia. Mas é exatamente essas questões que movem o campo para frente.

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