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História & Humanidade

Os egípcios antigos utilizavam tinta à base de chumbo. Por quê?

(MET Museum).

O chumbo é muito tóxico, então muitos locais já o proibiram. No entanto, até os dias de hoje há pessoas morrendo por envenenamento de chumbo, graças às tintas. Muito pintores famosos também morrem pelas próprias artes, como o Cândido Portinari, cuja causa da morte também foi o chumbo. Mas esse não é o assunto. O que levou os egípcios antigos a utilizar tinta à base de chumbo? O mesmo motivo da civilização moderna e contemporânea?

Durante muito tempo, utilizou-se chumbo em tintas de paredes, metais e tintas artísticas, pois o metal aumentava a durabilidade e diminuía o tempo de secagem da tinta. Só vantagens, não? Com o porém da morte. O chumbo é um metal extremamente versátil – utiliza-se, até hoje em barreiras contra a radiação, em filamentos de solda de estanho, munições etc.

Investigando

Em um estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, um grupo composto por pesquisadores da Københavns Universitet (Universidade de Copenhague), localizada na Dinamarca e da European Synchrotron Radiation Facility (ESRF), sediado em Grenoble, na França, analisam o uso da tinta à base de chumbo pelos egípcios antigos.

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Os registros mais antigos de conteúdo escrito registrado em algum material semelhante ao papel localiza-se no Egito Antigo, datado de até 3200 anos antes da Era Comum (AEC). Antes disso, conservam-se somente inscrições em rochas, paredes de cavernas e objetos de argila. Conforme um comunicado da ESRF, no papiro, os escribas escreviam o texto comum em preto e utilizavam a tinta vermelha para destacar palavras chaves e títulos – assim como ainda fazemos hoje em dia.

(The Papyrus Carlsberg Collection / ESRF).

Para o preto, os egípcios utilizavam carbono (carvão e grafite, por exemplo). Para o vermelho, compostos à base de ferro oxidado, como argilas avermelhadas – o ocre é um exemplo, mas não o único. Além disso, encontra-se, também, outras cores, fabricadas a partir dos mais diversos compostos naturais. O que elas tinham em comum é o chumbo.

Para investigar, os cientistas apelaram à tecnologia de ponta. “Ao aplicar a tecnologia de ponta do século 21 para revelar os segredos ocultos da tecnologia de tinta ancestral, estamos contribuindo para revelar a origem das práticas de escrita”, explica no comunicado a pesquisadora do ESFR Marine Cotte, uma das autoras do artigo.

Conclsusões

Com 12 fragmentos de papiros obtidos a partir da biblioteca do templo de Tebtunis, os cientistas utilizaram a radiação síncrotron para analisar os fragmentos. A luz síncrotron é uma radiação liberada por partículas aceleradas que se estende desde a frequência infravermelha até os raios-X. Essa radiação permite enxergar em uma escala muito pequena. Portanto, um acelerador síncrotron de partículas é como um super microscópio gigante.

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Este é o ESRF. (P.Ginter/ESRF).

“O que chama a atenção foi que descobrimos que o chumbo era adicionado à mistura da tinta, não como um corante, mas como um secador da tinta, para que a tinta ficasse no papiro”, explica Cotte. Só havia um tipo de chumbo presente das tintas. No entanto, se utilizassem o metal como pigmento, haveria tipos especialmente utilizados para colorir.

“O fato de o chumbo não ter sido adicionado como pigmento, mas sim como secador, infere que a tinta tinha uma receita bastante complexa e não poderia ser feita por qualquer pessoa. Nossa hipótese é que existam workshops especializados na preparação de tintas”, diz o egiptólogo Thomas Christiansen, co-autor do estudo.

“No século XV, quando os artistas redescobriram a pintura a óleo na Europa, o desafio era secar o óleo em um tempo razoável”, explica Cotte. E é aí que entra o chumbo. O que impressiona os cientistas é a possibilidade de que os egípcios descobriram há milhares de anos  o que os europeus só encontraram durante do Renascimento.

O estudo foi publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences. Com informações de Smithsonian Magazine e European Synchrotron Radiation Facility (ESRF).

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É divulgador científico por paixão. Gradua-se em Física pela UFSCAR e atua principalmente na Ciencianautas e SoCientífica.


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