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Arte & Filosofia

O que são coisas indiferentes no estoicismo de Epicteto e qual a atitude correta diante delas

Epicteto.

Os estoicos dividem as coisas todas do mundo em boas, más e indiferentes. Boas e más são respectivamente as virtudes e os vícios. Indiferentes, todas as demais. Epicteto reafirma essa distinção de modo ligeiramente distinto: tudo que há no mundo se divide entre coisas sob nosso encargo e coisas que não estão sob nosso encargo (eph’hemin kai ouk eph’hemin). As coisas sob nosso encargo, ou sob nosso controle, podem ser boas ou más e podem ser escolhidas, enquanto as que não estão sob nosso encargo, ou não estão sob nosso controle, não são nem boas nem más, mas indiferentes e não podem ser escolhidas. 

Diante disso, alguns apressadamente concluem que as coisas que não estão sob nosso controle, sendo indiferentes (adiaphora), devem ser ignoradas, e que o verdadeiro estoico é aquele que dá as costas para a realidade, ‘ligando o foda-se’, como se diz popularmente hoje e como figura na capa de muitos livros de autoajuda. 

Entretanto, se voltarmos nossos olhos para grande estoicos da Antiguidade, vemos que eles, longe de viverem recolhidos, ignorando os acontecimentos, tiveram intensa atuação política: Sêneca foi preceptor de Nero e acabou sendo condenado à morte por ele, Epicteto foi exilado por Domiciano, Musônio rufo foi exilado por vários imperadores e viveu muitos anos numa ilha inóspita, Marco Aurélio foi imperador.[1] Por que, então, não ‘ligaram o foda-se’ e não foram viver afastados de todos os problemas da vida pública e política?[2]

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Há muitas respostas para isso. A mais básica é que essa compreensão dos indiferentes como coisas com as quais não devemos nos importar está equivocada.

Como disse, Epicteto divide tudo que existe em coisas que estão sob nosso controle e coisas que não estão sob nosso controle.[3] As primeiras, que incluem nossos juízos, impulsos e desejos, podem ser boas ou más. As segundas são indiferentes (adiaphora). Epicteto define as coisas sob nosso encargo como as que podemos efetivamente escolher.[4] De fato, podemos controlar nossos e desejos e impulsos e rever nossas opiniões, isso está totalmente sob nosso encargo. Porém, as coisas exteriores, que incluem nosso corpo, seguem leis que lhes são imanentes: os objetos do mundo seguem as leis da física; os animais, seus instintos; os demais humanos, suas próprias escolhas. Essas coisas não podem ser escolhidas por nós.

Entretanto, devemos indagar: o fato de não podermos escolher as coisas que não estão sob nosso controle implica que não devamos nos importar com elas, que devemos ignorá-las para garantir nossa paz interna a todo custo? 

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Epicteto parece estar ciente desse tipo de questão, pois responde exatamente a ela em uma diatribe. Deixemos que ele nos fale então:

(1) Os materiais são indiferentes, mas o uso deles não é indiferente. (2) Como então alguém se manterá simultaneamente equilibrado[5] e sem agitação[6], simultaneamente agindo como cuidado e não ao acaso nem sendo arrastado? (3) Se imitar dos jogadores de dados. Os números são indiferentes, os dados são indiferentes: então sabes qual número está para sair? Fazer uso do número que cai com cuidado e habilidade[7], eis aí a minha tarefa. (4) Do mesmo modo, portanto, o principal sobre a vida é isto: distinguir e separar as coisas e dizer: ‘As coisas exteriores não estão sob meu encargo, (5) a capacidade de escolha está sob meu encargo. Onde buscarei o bem e o mal? Nas minhas coisas’. Quanto às coisas de outrem, jamais as chames de boas ou más, benéficas ou nocivas, ou qualquer outro <nome> semelhante. (6) E então? Devo fazer uso das coisas <exteriores> de modo descuidado? De modo algum, pois isso, por sua vez, é um mal para a capacidade de escolha e, desse modo, contrário à natureza[8]. (7) Mas <devo fazer uso das coisas exteriores> simultaneamente com cuidado, porque o uso não é indiferente, simultaneamente com equilíbrio e sem agitação, porque a matéria é indiferente. (8) Pois onde há o que não é indiferente, aí não se pode ser obstacularizado nem constrangido. Onde sou obstacularizado e constrangido, a obtenção <da coisa> não está sob o meu encargo, nem <a coisa> é boa ou má, mas o uso <dela> é bom ou mau e está sob o meu encargo. (Epicteto, Diatribe 2.5, intitulada ‘Como conciliar grandeza da alma e cuidado’ – em minha tradução)

Nessa diatribe, Epicteto introduz a noção de material (Diss. 2.5.1) para explicar o caráter das coisas indiferentes, que não estão sob nosso encargo e que não são passíveis de escolha. Esses materiais não passíveis de escolha, como se vê no exemplo do jogo de dados (Diss. 2.5.3). Ao jogar um dado, nunca sabemos que número cairá, mas podemos escolher o que fazer assim que um número nos for revelado no lance de dados. Com a ação a partir do material que se nos apresenta devemos ter todo o cuidado, pois justamente essa ação será resultado do trabalho prévio sobre nossos juízos, desejos e impulsos. O bom jogador de dados jogará com habilidade, habilidade esta conquistada pela prática do jogo. O homem de bem agirá com reflexão, reflexão esta conquistada pela prática filosófica de examinar seus juízos e desejos e suavizar seus impulsos. 

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O piloto Chelsey Sullenberger.

Em Diss. 2.5.7, Epicteto adiciona que devemos numa tarefa difícil, agir com cuidado e sem agitação, isto é, agir com tranquilidade e calma. Essa é justamente a característica daquele que é capaz de agir com técnica e habilidade: ele atravessa as maiores dificuldades de forma impassível. Um exemplo disso foi o voo do Airbus A-320, que, em 2009, decolou do aeroporto de La Guardia, em Nova Iorque, teve um sério problema nas turbinas e pousou placidamente no rio Hudson cinco minutos depois[9]. Segundo os passageiros, o piloto Chelsey Sullenberger disse-lhes durante o incidente que havia perdido força nas turbinas e, como não era possível retornar ao aeroporto, pousaria no rio, o que fez com destemida maestria. Essa combinação do cuidado e do equilíbrio, Epicteto destaca, não é fácil de ser alcançada:

(9) É difícil conciliar e combinar estas coisas: o cuidado de quem se devota aos materiais e o equilíbrio de quem é indiferente a eles, mas não é impossível. (10) Do contrário, a felicidade seria impossível. É como fazemos em relação à navegação. O que me é possível? Escolher o piloto, os marinheiros, o dia, o momento propício. (11) Então, desaba uma tempestade. O que isso ainda me importa? Fiz minha parte. A tempestade é problema de outro, do piloto. (12) E também a nau afunda. O que tenho a fazer, então? Faço apenas isto: o que me é possível. Afogo-me sem temer nem gritar nem acusar a Deus, sabendo que é preciso <morrer>, porque o que nasce também precisa morrer. Pois não sou eterno, mas humano, parte do todo como a hora é parte do dia. Pois me é preciso começar como a hora e terminar como a hora. (14) Que diferença há, para mim, de que maneira parto, se por afogamento ou por febre? Pois me é preciso partir por algum meio desses. (15) Verás fazendo isso também os jogadores de bola experientes. Nenhum deles considera a bola[10] como um bem ou um mal, mas algo para lançar e pegar. (16) De resto, no <lançar e no pegar a bola estão> a destreza, a habilidade, a rapidez, o fair-play[11], a inteligência, de modo que eu não posso pegar a bola nem se me esticar todo, enquanto o jogador <experiente> pega a bola se eu a lançar. (17) Mas se pegamos ou jogamos a bola com agitação e medo, que tipo de jogo será este? Como permaneceremos equilibrados? Como veremos a sequência do jogo?  (Epicteto, Diatribes, 2.6.2 – minha tradução)

Epicteto afirma aí que harmonizar o cuidado de quem se devota aos materiais e o equilíbrio de quem é indiferente a eles é difícil, mas é ao mesmo tempo o próprio segredo da felicidade (Epicteto, Diss. 2.5. 9-10). Os exemplos nos orientam o que fazer: em uma viagem marítima devemos nos concentrar naquilo que nos cabe; no mais, nada nos resta senão aceitar o destino (como no caso de fatalidades) e aceitar que cabe a outro tomar a frente e agir (como no caso da tempestade, em que não cabe ao passageiro intervir na ação do piloto, mas cabe a este bem levar a embarcação através da tormenta). Epicteto acrescenta ainda o exemplo do antigo jogo romano de bola, com o qual podemos traçar uma analogia com nosso futebol. Os melhores artilheiros são aqueles que sabem se posicionar na área e têm sangue frio e habilidade para pôr a bola na rede. O pouco habilidoso nem conseguirá colocar-se no lugar certo nem, mesmo se por acaso estiver bem colocado, conseguirá marcar o gol. A bola é o material. Ela não tem valor por si dentro do jogo. Se ela fura ou se perde, imediatamente é substituída por outra. O que importa é o que se faz com a bola em campo. Quem jogar com habilidade e frieza se distinguirá de quem jogar sem habilidade e nervoso (Cf. Epicteto, Diss. 2.5. 15).

No jogo, a bola não vale por si mesma. É, nesse sentido, indiferente. O que importa é que se faz com ela. As coisas externas, da mesma forma, são, nessa acepção, indiferentes – não são passíveis de escolha. O que podemos escolher é o que fazer diante delas. Ninguém escolhe morrer, mas todo mundo morre. Ninguém escolhe ficar doente, mas todo mundo adoece. Ninguém escolhe, de modo geral, as dificuldades, mas elas simplesmente acontecem.

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Afresco romano representando o harpastum à direita.

Assim, é crucial agir corretamente diante das coisas externas, indiferentes. É preciso tanto agir do modo adequado quanto ao mesmo tempo não se deixar abalar. As coisas são ditas indiferentes porque podemos fazer um uso bom ou mal delas. Elas não determinam como agiremos, nem determinam, consequentemente, nossa felicidade. São como tijolos numa obra, podem servir para uma série de funções, podem ser colocados em diversas partes da construção, tudo depende da escolha do pedreiro ou do engenheiro. Se escolherem mal, construirão uma parede torta com o tijolo. O tijolo não determina a construção, mas sim a habilidade e a escolha do engenheiro e do pedreiro.

As coisas indiferentes, portanto, são materiais que podem ser bem ou mal usados. Para serem bem usadas, é preciso que as coisas que estão sob nosso controle estejam em bom estado. No caso da construção, é preciso que o engenheiro tenha um bom conhecimento de construção civil e que o pedreiro seja habilidoso e experiente. Essas coisas dependem de nós, porque obter conhecimento e nos aperfeiçoar é algo que podemos escolher. 

E da mesma forma que o bom engenheiro poderá edificar uma boa construção em qualquer terreno, por pior e mais instável que ele pareça, assim também o que progride poderá viver bem sob qualquer circunstância. Mas só fará isso se fizer bom uso das coisas que não são dadas a ele escolher.


[1] Ver https://seer.ufs.br/index.php/prometeus/article/view/4719

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[2] Não estou dizendo que eram ativistas políticos, estou dizendo que eles eram políticos na acepção da palavra, dedicando boa parte de seu tempo para questões da sociedade e defendendo a liberdade de expressão.

[3] Cf. Epicteto, Encheiridion, capítulo 1.

[4] A ênfase nessa capacidade de escolher (o conceito de prohairesis que Epicteto toma de Aristóteles) é, até onde se sabe, a grande contribuição epictetiana para o estoicismo. 

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[5] Eustathes.

[6] Atarakon.

[7] Technichos.

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[8] Para physin.

[9] http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL958028-5602,00-POUSO+DE+AVIAO+NO+RIO+FOI+UM+MILAGRE+DIZ+GOVERNADOR+DE+NOVA+YORK.html

[10] O termo é harpastonharpastum em latim. Trata-se de versão romanizada do jogo grego phaininda, Jogava-se com uma bola pequena, do tamanho das usadas no softball. Não sabemos exatamente as regras, mas, segundo relatos da Antiguidade, era um jogo bastante vigoroso e, por vezes, violento, que envolvia lançar e agarrar uma pequena bola sob os olhos de torcidas atentas e entusiasmadas. De acordo com Ateneu (Deipnosophistes, 1.14-15), havia dois times envolvidos no jogo, com número variável de participantes, que buscavam manter cada qual a bola sob seu comando, lançando-a de um para outro, lembrando de certa forma o rugby ou o futebol norte-americano. Galeno elogia o jogo como ótimo exercício físico (Singer, Galen: selected Works, 1997, p. 299-304).  O termo harpaston é derivado do verbo harpazo, que significa ‘agarrar’. Cf. Marcial, Epigramas7.32; Julius Pollux, Onomástico, 9.105; Sidônio Apolinário, Cartas, 5.17.7. 

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[11] O termo aqui é eugnomosyne, que se traduz por “bom sentimento”, “candura”, “bondade”, “nobreza de sentimentos”. Como aqui o termo se refere a uma boa qualidade de um jogador, escolhemos o termo que se aplica hoje ao comportamento “bondoso” de um jogador em campo de futebol: o fair-play.


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