Um espelho do tamanho do utilizado pelo Hubble, construído para um satélite de reconhecimento dos Estados Unidos que nunca chegou ao espaço, tornou-se o coração do mais novo grande observatório da NASA. Lançado em 30 de agosto a bordo de um foguete Falcon Heavy, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman iniciou sua viagem rumo à região de Lagrange L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra, levando uma peça incomum em uma missão de US$ 4,316 bilhões: um sistema óptico que a inteligência americana já não pretendia usar.
O espelho primário de 2,4 metros foi cedido à NASA pelo National Reconnaissance Office (NRO), órgão responsável pelos satélites de reconhecimento dos Estados Unidos. Embora tenha o mesmo diâmetro do espelho principal do Hubble, a peça não transformou automaticamente um satélite espião em observatório astronômico. A agência espacial recebeu apenas parte da infraestrutura óptica e precisou modificar, equipar e integrar o conjunto a uma nave inteiramente nova, projetada para estudar o Universo em luz infravermelha.
A história começou em janeiro de 2011, quando o NRO informou à NASA que possuía dois conjuntos de telescópios sem utilização. Os equipamentos incluíam espelhos primários, estruturas de sustentação, espelhos secundários e sistemas de controle térmico. Não havia câmeras científicas, painéis solares, comunicações, plataforma espacial ou veículo de lançamento. Os sensores classificados originalmente previstos para operar com a óptica tampouco fizeram parte da transferência.
Naquela época, a NASA já estudava o Wide Field Infrared Survey Telescope, conhecido pela sigla WFIRST. A missão havia sido apontada pelo levantamento decenal de astronomia de 2010 como a principal prioridade entre os grandes projetos espaciais da área, mas os conceitos iniciais previam espelhos menores, com aproximadamente 1,3 a 1,5 metro. Portanto, a doação não criou o telescópio Roman: ela alterou profundamente uma missão que já estava nos planos.
De acordo com a história técnica do projeto publicada pela NASA, a abertura maior ofereceu aproximadamente três vezes mais área de coleta de luz e uma imagem óptica cerca de duas vezes mais estreita do que a proposta anterior. Isso ampliou a capacidade científica do observatório, mas também obrigou os engenheiros a redesenhar o projeto em torno de uma peça que havia sido construída para outra finalidade.
Um telescópio voltado para a Terra enfrenta condições ópticas, térmicas e mecânicas diferentes das encontradas por um observatório destinado a medir a fraca radiação infravermelha de objetos distantes. A equipe do Roman remodelou a superfície do espelho e aplicou uma camada de prata, mais eficiente nos comprimentos de onda que serão observados. Segundo o relato da NASA sobre a construção do observatório, o componente final pesa 186 quilos, menos de um quarto da massa do espelho do Hubble, e trabalha em conjunto com outros nove espelhos.
A principal diferença entre Roman e Hubble está no campo de visão. O novo observatório carrega uma câmera infravermelha de cerca de 300 megapixels, formada por 18 detectores, capaz de registrar uma área do céu pelo menos 100 vezes maior do que a coberta pelo Hubble em uma exposição comparável. Enquanto o veterano telescópio se destacou por imagens detalhadas de alvos e regiões relativamente pequenas, Roman foi construído para realizar grandes levantamentos celestes.
Essa visão panorâmica permitirá estudar bilhões de galáxias, acompanhar estrelas variáveis e supernovas e procurar milhares de planetas por meio de microlentes gravitacionais, fenômeno no qual a gravidade de um objeto em primeiro plano amplia temporariamente a luz de uma estrela mais distante. A missão também possui um coronógrafo desenvolvido pelo Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. O instrumento bloqueará o brilho de estrelas para testar tecnologias de observação direta de planetas gigantes e discos onde novos mundos estão se formando.
O aproveitamento do espelho evitou que a NASA precisasse começar do zero o desenvolvimento de uma óptica dessa categoria, mas não tornou a missão barata. A agência teve de construir instrumentos, nave, escudo solar, detectores, sistemas de comunicação e infraestrutura terrestre, além de adaptar e testar todo o observatório para o lançamento. Uma auditoria do Escritório do Inspetor-Geral da NASA registra custo de ciclo de vida replanejado em US$ 4,316 bilhões.
Também permanecem classificados os detalhes do programa de reconhecimento para o qual os conjuntos ópticos foram produzidos. O que os documentos públicos permitem afirmar é mais preciso — e menos cinematográfico — do que a ideia de um “telescópio espião” simplesmente apontado para o espaço. O NRO forneceu uma base óptica sofisticada; mais de mil técnicos e engenheiros transformaram essa herança em um observatório científico composto por milhões de peças, voltado agora não para vigiar a Terra, mas para mapear o Universo.





