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Plantas & Animais

Cercas têm grandes efeitos raramente medidos sobre a vida selvagem

Cercas afetam ecossistemas em todas as escalas, levando a cascatas de mudança que podem, nos piores casos, culminar em um “colapso ecológico.”

como as cercas afetam a vida selvagem
Cervo preso em cerca metálica é resgatado. (Imagem: Daily Mail)

Qual é a forma mais comum de infraestrutura humana no mundo? Provavelmente são as cercas. Estimativas recentes sugerem que o comprimento total de todas as cercas do mundo é dez vezes maior que o comprimento total de todas as ruas. Se as cercas do nosso planeta fossem esticadas de ponta a ponta, elas provavelmente iriam da Terra ao Sol diversas vezes.

Em cada continente, de cidades a áreas rurais e de tempos antigos a modernos, humanos construíram cercas. Mas nós não sabemos quase nada a respeito dos efeitos ecológicos delas. Cercas de fronteiras estão frequentemente nos noticiários, mas outras cercas são tão ubíquas que elas desaparecem na paisagem, se tornando a própria paisagem.

Em um estudo recentemente publicado, nossa equipe buscou mudar essa situação oferecendo uma variedade de descobertas, estruturas e questionamentos que podem formar a base de uma nova disciplina: a ecologia dos cercados. Compilando estudos de ecossistemas ao redor do mundo, nossa pesquisa mostra que cercas produzem uma complexa gama de efeitos ecológicos.

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Alguns deles influenciam processos em pequena escala, como a construção de teias de aranhas. Outros têm efeitos muito mais amplos como a aceleração do colapso do ecossistema de Mara do Quênia. Nossas descobertas revelam um mundo que tem sido absolutamente reorganizado por uma crescente treliça de cercas.

Ligando os pontos

Se cercas parecem uma coisa estranha para um ecologista estudar, considere que até recentemente ninguém pensou muito sobre como estradas afetaram os lugares ao redor delas. Então, numa explosão de pesquisas nos anos 90, cientistas mostraram que ruas – que também foram parte da civilização humana por milênios – tinham rastros estreitos mas produziram efeitos ambientais enormes.

Por exemplo, estradas podem destruir hábitats fragmentados dos quais espécies selvagens dependem para sobreviver. Elas também podem promover a poluição do ar e da água além de colisões de veículos com a vida selvagem. Esse trabalho gerou uma nova disciplina científica, ecologia de ruas, que oferece uma percepção alarmante do alcance da humanidade.

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Nosso time de pesquisadores ficou interessado por cercas por observar animais. Na Califórnia, Quênia, China e Mongólia, nós observamos animais se comportando de maneira estranha perto de cercas – gazelas tomando longos desvios ao redor delas, por exemplo, ou predadores seguindo “autoestradas” ao longo de cercas.

Nós revisamos um longo corpo de literatura acadêmica procurando por explicações. Havia muitos estudos de espécies individuais, mas cada um deles nos contou apenas um pouco da história. A pesquisa ainda não tinha conectado os pontos entre descobertas díspares. Ligando todos esses estudos, nós revelamos novas descobertas importantes sore o nosso mundo cercado.

Vintage ad for barbed wire.
Propaganda para cercas de arame farpado, 1880 – 1889. O advento do arame farpado mudou drasticamente o cerceamento e uso de terras no oeste americano, terminando o sistema de extensão aberta.

Reconstruindo ecossistemas

Talvez a característica mais surpreendente que encontramos foi que cercas raramente são claramente boas ou más para um ecossistema. Do contrário, elas têm uma infinidade de efeitos ecológicos que produzem vencedores e perdedores, ajudando a ditaras regras de ecossistemas nos quasi elas estão presentes.

Mesmo cercas “boas” que foram desenvolvidas para proteger espécies ameaçadas ou restaurar hábitats sensíveis podem fragmentar e isolar ecossistemas. Por exemplo, cercas construídas em Botswana para prevenir transmissão de doenças entre a vida selvagem e a criação de animais acabaram por parar gnus nos seus trajetos de migração, produzido imagens perturbadoras de animais feridos e mortos estirados ao longo das cercas.

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Circundar uma área para proteger uma espécie pode ferir ou matar outras, ou criar caminhos de entrada para espécies invasoras.

Uma descoberta que acreditamos ser crítica é que para cada vencedor, cercas tipicamente produzem múltiplos perdedores. Como resultado, elas podem criar “terras de ninguém” ecológicas onde apenas espécies e ecossistemas com um alcance estreito de características pode sobreviver e prosperar.

Alterando regiões e continentes

Exemplos do mundo todo demonstram as consequências poderosas e frequentemente não intencionais das cercas. A divisa entre os EUA e o México – que encaixa na nossa descrição de cerca – tem isolado geneticamente populações de grandes mamíferos como carneiros selvagens, levando a redução da população e isolamento genético. Isso teve mesmo efeitos surpreendentes para pássaros, como as corujas caburé-do-sol, que voam perto do solo.

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As cercas de dingos da Austrália, construídas para proteger criações de animais dos caninos icônicos da nação, estão entre as mais longas estruturas feitas por humanos do mundo, se estendendo por milhares de quilômetros cada. Essas cercas começaram reações ecológicas em cadeia chamadas de cascatas tróficas que afetaram a ecologia do continente inteiro.

A falta de dingos, predadores de topo, em um lado da cerca significa que populações de presas como cangurus podem explodir, causando mudanças categóricas na composição das plantas e mesmo empobrecimento de nutrientes do solo. Em ambos os lados da cerca agora existem dois “universos ecológicos” distintos.

Nossa revisão mostrou que cercas afetam ecossistemas em todas as escalas, levando a cascatas de mudança que podem, nos piores casos, culminar no que alguns biólogos descreveram como “colapso ecológico.” Mas esse perigo frequentemente é negligenciado.

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Para demonstrar esse ponto, nós olhamos mais profundamente no oeste dos EUA, que é conhecido por enormes espaços abertos mas também é terra natal dos arames farpados. Nossa análise mostrou que áreas vastas vistas por pesquisadores como relativamente intocadas pela pegada humana estão silenciosamente enroscadas em densas redes de cercas.

Map showing the density of fencing in the western U.S.
Os autores reuniram um conjunto de dados de conservação de cercas em potencial ao longo dos EUA. Eles calcularam a distância mais próxima para qualquer dada cerca como sendo menos de 50km, com uma média de 3km.

Causar menos dano

Cercas claramente vieram para ficar. Conforme a ecologia de cercas se desenvolve em uma disciplina, seus praticantes deveriam considerar os papéis complexos das cercas em sistemas econômicos, sociais e políticos humanos. Mesmo agora, todavia, há evidência suficiente para identificar ações que poderiam reduzir os seus impactos prejudiciais.

Há diversas maneiras de mudar o design de cercas e construí-las sem alterar a funcionalidade. Por exemplo, em Wyoming e Montana, gestores federais de terras fizeram experimentos com cercas ecologicamente corretas que permitem que espécies como as antilocapras passar por cercas com menos obstáculos e feridas. Esse tipo de modificação mostra uma grande promessa para a vida selvagem e pode produzir benefícios ecológicos mais amplos.

Outra opção é alinhar cercas com limites ecológicos naturais, como corpos d’água e recursos topográficos. Essa abordagem pode ajudar a minimizar os efeitos no ecossistema com baixo custo. E agências de terras e ONGs poderiam oferecer iniciativas para donos de terras para remover as cercas que estão abandonadas e não têm mais um propósito.

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No entanto, uma vez que uma cerca é construída os efeitos são duradouros. Mesmo após a retirada, “cercas-fantasma” podem perdurar, com espécies se comportando como se uma cerca ainda estivesse presente por gerações.

Sabendo disso, nós acreditamos que dirigentes e latifundiários deveriam ser mais cautelosos em instalar cercas primeiramente. Ao invés de considerar apenas o propósito a curto prazo de uma cerca e a paisagem ao redor, nós gostaríamos de ver pessoas visualizando uma nova cerca como outro elo permanente de uma corrente circundando o planeta diversas vezes.

Por Alex McInturff, Christine Wilkinson e Wenjing Xu para The Conversation.

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Traduzido por Mateus Marchetto.

The Conversation
Publicado por

The Conversation é uma fonte independente de notícias e pontos de vista da comunidade acadêmica e de pesquisa, entregues diretamente ao público.

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