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Antes dos britânicos, a Austrália pode ter tido 2,2 milhões de indígenas, e 93% deles sumiram em 73 anos

Por Editado por Elisson Amboni
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Cerca de 2,22 milhões de indígenas viviam na Austrália quando a Primeira Frota britânica chegou, em 1788. Em apenas 73 anos, 93% dessa população havia desaparecido. É o que estima uma equipe de pesquisadores australianos ao recalcular o tamanho dos povos originários do continente antes da colonização.

O número é até sete vezes maior que algumas estimativas anteriores. Os resultados foram apresentados no estudo publicado na revista Nature Human Behaviour, liderado por Alan Williams, da EMM Consulting e da Universidade James Cook. Por se tratar de uma reconstrução baseada em modelos, o valor é uma mediana, ou seja, o ponto central de uma faixa de possibilidades, e não uma contagem exata.

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O trabalho reuniu cientistas de várias instituições, entre elas a Universidade Flinders e a Universidade Monash. A pesquisa foi conduzida no âmbito do Centro de Excelência para Histórias e Futuros Indígenas e Ambientais, do Conselho Australiano de Pesquisa, em parceria com parceiros indígenas.

A conta de 250 mil que guiou a história australiana por décadas

Durante muito tempo, as estimativas populacionais se apoiaram em um cálculo feito na década de 1930 pelo antropólogo Alfred Radcliffe-Brown. Ele estimou que a Austrália abrigava cerca de 250 mil indígenas antes da chegada dos europeus. Outras estimativas históricas geralmente variaram entre esse número e 1 milhão de pessoas.

O próprio Radcliffe-Brown reconhecia uma limitação importante. Sua conta não considerava totalmente o efeito de doenças mortais, da violência nas fronteiras coloniais e do que os pesquisadores chamam de violência estrutural, isto é, a opressão embutida nas regras e instituições da sociedade colonial, que prejudica um grupo mesmo sem um ataque direto.

Pesquisas mais recentes mostraram que essas forças tiveram um peso muito maior do que se admitia. Segundo os pesquisadores, as estimativas mais baixas foram influenciadas pelas grandes perdas populacionais ocorridas antes dos primeiros censos australianos. É como tentar descobrir quantas pessoas havia em um estádio contando apenas quem ficou depois que a maioria foi embora.

Genes, sítios arqueológicos e modelos de computador na mesma equação

Para contornar a falta de registros confiáveis, a equipe combinou várias linhas de evidência independentes. Entraram na conta observações etnográficas, que são descrições de povos feitas por quem conviveu com eles, achados arqueológicos e reconstruções genéticas, que usam dados de DNA para inferir o tamanho de populações do passado.

Os cientistas também analisaram quantas pessoas cada tipo de ambiente do continente conseguiria sustentar, dos desertos às regiões costeiras mais férteis. Tudo isso alimentou modelos de computador capazes de simular a dinâmica populacional ao longo do tempo.

Um detalhe importante: o número final veio dos modelos e da genética. Os relatos históricos serviram para conferir se o resultado fazia sentido, mas a estimativa não dependia deles. O resultado corresponde a cerca de 0,29 pessoa por quilômetro quadrado, algo como um habitante a cada três quilômetros quadrados e meio, espalhado por todo o território australiano.

Para o ecólogo Corey Bradshaw, professor da Universidade Flinders e um dos investigadores principais do centro, o esforço vai além da curiosidade acadêmica.

“Compreender o tamanho das populações indígenas na Austrália antes da invasão europeia em 1788 é essencial para o reconhecimento da verdade histórica e para a reconciliação”, afirmou Bradshaw.

Mais de 28 mil mortes a mais por ano durante sete décadas

Com a nova estimativa em mãos, os pesquisadores puderam medir a dimensão da catástrofe demográfica. Cruzando o modelo com os registros dos primeiros censos, calcularam cerca de 2,06 milhões de mortes em excesso entre 1788 e 1861.

Mortes em excesso são aquelas que vão além do que seria esperado em condições normais. Você provavelmente ouviu esse termo durante a pandemia de covid-19, quando ele foi usado para medir o impacto real do vírus. No caso australiano, o número equivale a uma média de cerca de 28.200 mortes a mais por ano, ao longo de 73 anos.

Em 1861, restavam apenas 7% da população indígena estimada para o período anterior à colonização. Pense em uma cidade de 100 mil habitantes que, em uma única vida humana, passa a ter apenas 7 mil.

“Essas descobertas devastadoras destacam os grandes impactos da invasão vividos pelos indígenas australianos e demonstram sua notável sobrevivência, resiliência e recuperação ao longo do último século”, disse Williams, autor principal do estudo.

A recuperação, no entanto, ainda está incompleta. A população indígena voltou a crescer a partir da década de 1950, mas, segundo o censo australiano de 2021, ela correspondia a cerca de 37% da mediana estimada para 1788. Se o ritmo atual de crescimento se mantiver, os pesquisadores projetam que o tamanho pré-colonial estimado talvez só seja alcançado por volta de 2047.

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Os autores argumentam que a escala desse colapso ajuda a entender o trauma intergeracional, aquele que passa de pais para filhos por meio de perdas, rupturas familiares e desvantagens sociais acumuladas. Segundo a equipe, isso tem implicações importantes para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas às comunidades indígenas.

“Além de reconhecer esse trauma e essa desvantagem intergeracionais, também é hora de reconhecer o privilégio intergeracional”, afirmou a coautora Lynette Russell, professora do Centro de Estudos Indígenas da Universidade Monash.

Para Larissa Behrendt, que preside o comitê consultivo do centro de pesquisa, os resultados exigem uma reavaliação profunda da história do país.

“Essas descobertas nos desafiam a repensar a escala do que aconteceu depois de 1788. Não estamos falando de uma consequência marginal da colonização, mas de uma catástrofe demográfica no centro da história australiana. Mas a pesquisa também nos diz algo extraordinário. Nossa sobrevivência é uma das histórias mais notáveis da história australiana”, declarou Behrendt.

O estudo também mostra por que vale a pena combinar métodos independentes quando os documentos escritos são incompletos ou carregam os vieses de quem os produziu. Ainda assim, o valor de 2,22 milhões continua sendo uma mediana extraída de modelos, e o tamanho exato da população indígena antes de 1788 permanece cercado de incerteza.

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