Imagine ouvir uma canção tão nítida quanto a do rádio, mas sem nenhum aparelho ligado. Para algumas pessoas, isso acontece de verdade, e a ciência começa a entender por que o cérebro cria essa trilha sonora fantasma.
Pesquisadores da Holanda e do Reino Unido analisaram dados de 80 pessoas com alucinações musicais. O estudo, publicado no Journal of Neurology, buscou traçar um retrato básico desse fenômeno ainda pouco compreendido.
A condição também é chamada de síndrome de Oliver Sacks ou versão auditiva da síndrome de Charles Bonnet, em que a perda de visão leva a enxergar imagens inexistentes.
Um córtex auditivo que vasculha a memória
Os participantes, com idade média de 65 anos, responderam a um questionário específico e passaram por exames de neuroimagem, testes auditivos e eletroencefalogramas. As causas incluíam transtornos psiquiátricos, perda auditiva e lesões neurológicas estruturais.
Algumas tendências chamaram atenção. Quem tinha perda auditiva assimétrica costumava ouvir as melodias como se viessem de fora da cabeça, enquanto a maioria dos demais as percebia dentro da própria mente.
A explicação mais convincente é a teoria da desaferentação. Segundo a Cleveland Clinic, o córtex auditivo privado de estímulos fica “entediado” e, como sua função é processar sons, passa a buscar músicas na memória.
Segundo os autores, nessa teoria, informações não essenciais guardadas na memória podem “romper” barreiras e chegar à consciência quando processos patológicos derrubam mecanismos inibitórios. As alucinações musicais também podem ter ligação com epilepsia, mas só dois participantes se encaixaram nesse perfil.
Hinos religiosos no lugar das paradas de sucesso
As músicas raramente são lançamentos recentes. Canções religiosas foram as mais relatadas, em 18% dos casos, o que sugere que o cérebro recorre a melodias aprendidas na infância. Um estudo de 2005 no International Journal of Geriatric Psychiatry já apontava temas religiosos, festivos e infantis.
Diferentemente de uma música que gruda na cabeça temporariamente, essas alucinações são difíceis de interromper. Apenas um quinto dos participantes relatou algum controle, como tocar música de verdade para abafar a fantasma.
“Com dificuldade para se concentrar e dormir, e sofrendo com a investida implacável da música, no fim muitos ficam exaustos e deprimidos”, escreveram os autores do estudo.
Em mais de 65% dos casos, a música foi considerada um fardo. Além disso, pessoas com a condição muitas vezes evitam procurar ajuda por medo de receber um diagnóstico de psicose ou demência.
O tratamento depende da causa e pode incluir antipsicóticos, outros psicotrópicos e terapias que explicam a ciência do fenômeno. A meta é reduzir o estigma de uma condição que a neurociência ainda tenta desvendar.





