Um gene que parece atuar nos neurônios humanos continua copiando a si mesmo pelo nosso genoma. Em algum momento da história humana moderna, ele chegou a se instalar dentro de um vírus.
Cientistas da Universidade Cornell (EUA), da Universidade Normal da Capital, em Pequim, e da Universidade do Texas em Arlington analisaram o comportamento do gene BC200 em um estudo publicado na revista Science. Segundo a equipe, ele reúne características que nunca haviam sido documentadas juntas em um único gene.
O BC200 é um transposon, ou “gene saltador”, capaz de se copiar e se inserir em outros pontos do DNA. Ao mesmo tempo, parece desempenhar uma função normal nas células.
Qual é exatamente essa função, porém, ainda não está definido.
Um gene saltador que a evolução não conseguiu domar
Os transposons respondem por cerca de metade do DNA humano, mas quase todos perderam há muito tempo a capacidade de se mover. Ao longo de milhões de anos, alguns foram “domesticados” e passaram a regular outros genes. Quando caem dentro de um gene existente, no entanto, podem prejudicar seu funcionamento e causar doenças.
Até agora, ninguém havia identificado um gene humano que fosse ao mesmo tempo móvel e necessário para uma função celular.
“Genes que surgem de elementos transponíveis e são reaproveitados para funções celulares normalmente deixam de ser transponíveis”, afirmou Cédric Feschotte, professor do Departamento de Biologia Molecular e Genética de Cornell e autor sênior do estudo. “O BC200 foi criado a partir de um elemento móvel, mas manteve sua mobilidade, e ainda assim está claramente cumprindo uma função celular. De alguma forma, a evolução não conseguiu desembaraçar essas duas coisas.”
Descrito no fim dos anos 1980 como um RNA não codificante presente em neurônios, o BC200, segundo a principal hipótese, ajuda a regular a tradução de RNAs mensageiros neuronais em proteínas. Ele também aparece em níveis baixos em células germinativas, como óvulos e espermatozoides. Por isso, novas cópias podem ser herdadas pelas gerações seguintes.
Do genoma humano para um poxvírus da pele
Ao vasculhar bancos de dados genômicos, a equipe encontrou duas cópias do BC200 no genoma do vírus do molusco contagioso. Esse poxvírus, geralmente benigno, provoca pequenas lesões na pele semelhantes a verrugas.
Como as células da pele são as únicas que o vírus sabidamente infecta, os pesquisadores suspeitam que o salto tenha acontecido nelas.
O gene também surge de forma anormal em alguns tumores, como cânceres de mama, e em níveis elevados no cérebro de pessoas com Alzheimer. Segundo o comunicado, isso sugere que a capacidade de saltar pode ter algum papel nessas doenças.
O próximo passo é descobrir se o BC200 está se inserindo no genoma de células cancerosas e provocando mutações.





