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Inscrição de Ramsés II pode revelar localização de cidade perdida no Egito

Por Elisson Amboni Publicado em

Uma inscrição com mais de 3 mil anos encontrada no norte da península do Sinai pode ajudar arqueólogos a solucionar um antigo mistério da história egípcia: a localização da cidade de Mesn. Gravado em um grande bloco de arenito, o texto menciona o faraó Ramsés II e uma divindade ligada à cidade desaparecida, reforçando a hipótese de que o assentamento tenha ocupado a área hoje conhecida como Tell Abu Saifi.

A descoberta ocorreu durante escavações em Qantara Leste, na província de Ismailia, próximo à antiga fronteira oriental do Egito. O sítio fica junto ao chamado Caminho de Hórus, uma rota militar estratégica que conectava o delta do Nilo ao Sinai e, mais adiante, às terras de Canaã.

Segundo o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, a equipe encontrou um lintel — elemento horizontal instalado sobre portas e passagens — partido em dois fragmentos. As inscrições cobrem três de suas faces e incluem o nome e os títulos reais de Ramsés II, também conhecido como Ramsés, o Grande, que governou durante a 19ª Dinastia, no século XIII a.C.

Menção a Mesn chama a atenção

O trecho mais intrigante, porém, registra a restauração de uma estátua dedicada a “Hórus, Senhor da Cidade de Mesn”. Como a localização exata desse antigo centro urbano ainda é desconhecida, a referência oferece uma nova pista sobre a identidade histórica de Tell Abu Saifi.

Hisham Hussein, responsável pela administração arqueológica do Baixo Egito e do Sinai e diretor da missão, considera a inscrição uma evidência importante para compreender o passado do local. Ainda assim, os pesquisadores destacam que o achado não comprova, por si só, que Tell Abu Saifi seja a cidade perdida.

Hisham El-Leithy, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, afirmou que novas escavações e análises serão necessárias antes que a associação possa ser confirmada. É possível, por exemplo, que a peça tenha sido deslocada ou reutilizada em outro período — uma prática observada em diferentes estruturas do próprio sítio.

Templo virou instalação militar e centro de produção

Além do lintel, os arqueólogos identificaram vestígios consideráveis de um templo. O complexo incluía uma ampla muralha de tijolos de barro, portões, câmaras internas, depósitos, áreas de serviço e um espaço interpretado como santuário.

As construções registram séculos de transformações. Embora a presença de objetos mais antigos indique uma longa ocupação, o templo parece ter alcançado sua maior extensão durante o período ptolomaico, entre os séculos IV e I a.C.

Após a incorporação do Egito ao mundo romano, partes do complexo foram aproveitadas na construção de um acampamento militar, ou castrum, por volta do século III d.C. Os romanos também retiraram materiais do antigo templo, contribuindo para a destruição de suas estruturas.

Em uma fase posterior, dois grandes fornos circulares foram erguidos sobre os cantos do antigo santuário. Restos de calcário queimado encontrados no interior indicam que o espaço religioso acabou convertido em uma área de produção de cal durante o período romano tardio.

Objetos revelam importância estratégica

A missão também descobriu duas estradas pavimentadas em pedra, construídas em momentos sucessivos e datadas dos períodos ptolomaico e romano. Elas ligavam a área externa das fortificações ao complexo do templo, evidenciando a continuidade da circulação e da atividade estratégica no assentamento.

Entre os artefatos recuperados estão:

  • uma estátua de xisto da 26ª Dinastia, representando um escriba militar com um pequeno santuário danificado;
  • uma escultura do Período Tardio sem cabeça e pés;
  • o torso de uma estátua real esculpida em basalto;
  • fragmentos de estátuas de falcões feitos de basalto e calcário.
O conjunto sugere que Tell Ab Saifi exerceu funções religiosas, administrativas e militares muito antes da ocupação romana. Sua posição junto ao Caminho de Hórus teria permitido controlar uma passagem usada por exércitos, funcionários, comerciantes e viajantes entre o vale do Nilo e o sudoeste asiático.

Para o ministro egípcio do Turismo e Antiguidades, Sherif Fathy, as descobertas reforçam o papel da região na proteção das fronteiras orientais do país. Se futuras evidências confirmarem a identificação de Mesn, Tell Abu Saifi poderá fornecer uma peça decisiva para reconstruir a rede defensiva e urbana do Egito antigo no Sinai.