Ir para o conteúdo
Siga-nos no Google

Planeta a 217 anos-luz vai de forno a fornalha em 6 horas e tem temperatura medida em tempo real

Por Editado por Elisson Amboni
Como editamos

E se um planeta pudesse mudar de clima em uma única tarde? A 217 anos-luz da Terra, na constelação da Ursa Maior, um mundo gigante passa de forno quente a fornalha em questão de horas.

Trata-se de HD 80606 b, uma gigante gasosa com cerca de quatro vezes a massa de Júpiter. Quando atinge o ponto de sua órbita mais próximo da estrela, sua temperatura salta de aproximadamente 527 °C para cerca de 1.227 °C em apenas seis horas.

O fenômeno foi medido pelo telescópio espacial Spitzer, da NASA, e marcou a primeira vez que mudanças meteorológicas foram acompanhadas em tempo real em um planeta fora do Sistema Solar.

Uma órbita esticada ao limite

A explicação para esse choque térmico está no formato da trajetória do planeta. Enquanto a maioria dos planetas descreve órbitas quase circulares, HD 80606 b percorre uma elipse extremamente alongada, com excentricidade de 0,927.

Na época de sua descoberta, era simplesmente a órbita mais excêntrica já medida para um exoplaneta. O recorde chamou imediatamente a atenção da comunidade científica.

O planeta foi identificado por astrônomos suíços por meio do método de velocidade radial. A técnica detecta as minúsculas oscilações que um corpo em órbita provoca em sua estrela por causa da atração gravitacional.

Cada volta completa leva 111,8 dias. Durante a maior parte desse período, o planeta fica longe da estrela e esfria consideravelmente. Mas, em passagens breves, chega a apenas cerca de 4,5 milhões de quilômetros da superfície estelar, uma distância irrisória em escala astronômica.

Nesse momento, a atmosfera sofre um impacto comparável ao de um objeto que sai de um cômodo ameno e entra, de repente, em um forno em altíssima temperatura.

Spitzer flagrou a cicatriz de calor

Em 2007, o Spitzer observou o sistema por quase 30 horas seguidas, justamente durante a passagem mais próxima do planeta pela estrela. A janela de observação permitiu acompanhar em tempo real a evolução térmica desse mundo distante.

Um detalhe tornou a medição ainda mais valiosa. Diferentemente da maioria dos chamados Júpiteres quentes, HD 80606 b não tem rotação sincronizada pelas forças de maré, ou seja, não mantém sempre a mesma face voltada para a estrela.

O planeta gira em torno do próprio eixo a cada 34 horas. Isso permitiu aos astrônomos observar diretamente seu ponto mais quente, uma espécie de cicatriz térmica deixada pela passagem relâmpago perto da estrela.

Modelagens posteriores indicaram ainda a formação de uma tempestade colossal alguns dias após o pico de calor. É um sinal de que a atmosfera demora a “digerir” um choque térmico dessa magnitude.

Mais recentemente, o telescópio espacial James Webb complementou esses dados históricos, refinando o perfil térmico do planeta durante suas aproximações da estrela.

Uma estrela parecida com o Sol e uma vizinha perturbadora

O contraste com o nosso sistema é desconcertante. A estrela hospedeira, HD 80606, é bastante semelhante ao Sol, com cerca de 1,02 massa solar e temperatura superficial próxima de 5.700 kelvins.

Ela, porém, faz parte de um sistema binário amplo, com uma estrela companheira distante. Segundo algumas hipóteses, essa configuração pode explicar a órbita tão deformada do planeta.

A atração gravitacional da companheira teria, ao longo do tempo, perturbado a trajetória original de HD 80606 b, esticando-a gradualmente até a forma atípica observada hoje. A ideia, no entanto, ainda não está confirmada.

Por reunir variações de calor tão extremas e repetidas, o planeta funciona como um laboratório natural. Ele ajuda a entender como atmosferas de gigantes gasosos reagem a condições que não se observam em nenhum outro lugar da nossa vizinhança cósmica.

O caso também mostra que sistemas planetários podem assumir configurações muito mais caóticas e violentas do que as do Sistema Solar, com suas órbitas estáveis e quase circulares. O nosso arranjo é apenas uma possibilidade entre muitas na galáxia.

A cada novo conjunto de dados, seja do Spitzer ou do James Webb, os astrônomos refinam seus modelos sobre a formação e a evolução das gigantes gasosas. Resta saber quantos outros mundos tão imprevisíveis quanto HD 80606 b ainda aguardam ser encontrados.