Um canhão que dispara repetidamente contra uma tempestade parece uma defesa ativa e tecnológica. O estrondo é real, a máquina é imponente e, se o granizo não cair, é tentador concluir que o equipamento venceu a nuvem. O problema é que essa conclusão não resiste ao método científico.
Nesta segunda-feira (31), após uma sequência de temporais severos em Santa Catarina, o prefeito de Chapecó, Valmor Scolari, afirmou que o município poderá comprar mais um canhão antigranizo caso uma avaliação indique a necessidade de ampliar a cobertura para a região Norte da cidade.
Chapecó já possui três unidades. O primeiro equipamento custou R$ 972.510,28 e foi inaugurado em fevereiro no bairro Efapi. Outros dois, instalados em junho na Efapi e no distrito de Marechal Bormann, representaram um investimento adicional de aproximadamente R$ 2 milhões. Pelos valores divulgados pela própria prefeitura, o município já destinou cerca de R$ 2,9 milhões à tecnologia.
Seria um preço defensável se existisse evidência confiável de proteção. Até hoje, nenhuma evidência robusta demonstrou que esse tipo de aparelho reduza a queda de granizo. O equipamento é real; o efeito atribuído a ele é que permanece no campo da pseudociência.
O que o canhão promete fazer
O sistema instalado em Chapecó queima uma mistura de acetileno e oxigênio em uma câmara. A explosão produz uma onda de choque direcionada para cima por um grande cone metálico. Durante uma ameaça de tempestade, o aparelho dispara em intervalos de poucos segundos.
Segundo a descrição publicada pela Prefeitura de Chapecó, essas ondas alcançariam nuvens a até 10 ou 15 quilômetros de altitude, fragilizariam os cristais de gelo e fariam o granizo chegar ao solo como chuva ou pequenas partículas sem poder destrutivo. Cada unidade protegeria um raio de 500 metros.
Essa explicação usa palavras científicas: “ondas de choque”, “cristais de gelo” e “alta atmosfera”. Mas não apresenta um mecanismo físico plausível na escala de uma tempestade.
A física não fecha
O granizo se forma dentro de nuvens cumulonimbus, quando correntes ascendentes intensas carregam pequenos fragmentos de gelo para regiões com água super-resfriada. As gotículas ainda líquidas congelam ao colidir com esses embriões, fazendo as pedras crescerem até ficarem pesadas demais para serem sustentadas pela corrente de ar. A NOAA explica esse processo de formação em detalhes.

Uma revisão publicada no periódico Meteorologische Zeitschrift, por pesquisadores ligados ao Instituto Real de Meteorologia dos Países Baixos, observa que o crescimento importante do granizo costuma ocorrer por volta de 5 quilômetros de altitude. Uma nuvem capaz de produzir granizo pode ter cerca de 10 quilômetros de diâmetro, enquanto somente seu núcleo de corrente ascendente pode medir aproximadamente 1 quilômetro.
Contra essa estrutura gigantesca, o canhão libera pulsos sonoros a partir do chão. A energia da onda se dispersa rapidamente à medida que se afasta da fonte e ainda sofre absorção na atmosfera.
Os números mostram o tamanho do problema. Segundo a mesma revisão, seria necessário um choque de pressão da ordem de 300 hectopascais para deformar uma pedra de granizo com cavidades. A onda de um canhão foi medida em apenas 1,3 hectopascal a 100 metros de distância, antes mesmo de percorrer os vários quilômetros que a separam da região onde o granizo cresce. Em um experimento francês, relatado na mesma revisão, pedras foram penduradas diante de um canhão colocado na horizontal e não sofreram danos em nenhuma das distâncias testadas, até 100 metros.
Há ainda uma comparação difícil de ignorar: o trovão também é uma onda de choque e pode ser muito mais energético que o disparo de um canhão no solo. Tempestades com granizo produzem trovões o tempo todo, sem que eles desfaçam as pedras de gelo dentro da nuvem.
Mais de um século de tentativas fracassadas
Os canhões antigranizo não são uma inovação recente. O modelo moderno surgiu no fim do século 19, quando o viticultor austríaco Albert Stiger começou a usá-lo. Depois de dois anos sem granizo em seu vale, milhares de aparelhos se espalharam pela Áustria e pelo norte da Itália.
Esse início já contém o erro que mantém a tecnologia viva até hoje: o canhão foi acionado, o granizo não caiu e, portanto, o canhão recebeu o crédito. Mas uma sequência temporal não demonstra causa.
Quando vieram os testes sistemáticos, o entusiasmo desabou. Entre 1902 e 1904, regiões da Áustria e da Itália equipadas com centenas de canhões tiveram, em algumas ocasiões, mais danos por granizo que áreas sem os aparelhos. A Accademia dei Lincei, da Itália, concluiu que os canhões haviam fracassado.
O padrão se repetiu décadas depois. Em 1982, 49 canhões operavam na província italiana de Ferrara. O granizo causou danos em 21% de toda a área observada e em 22% dos locais considerados plenamente “protegidos”. No Val di Non, 12 canhões guiados por radar não produziram diferença significativa entre áreas protegidas e não protegidas, e os danos permaneceram semelhantes aos dos anos anteriores. Os equipamentos acabaram descartados.
Após revisar esses e outros ensaios, os autores concluíram que os dados de campo não mostravam efeito significativo sobre a queda de granizo. Em 2025, quase duas décadas depois da publicação daquela revisão, a Organização Meteorológica Mundial voltou a afirmar que ainda falta comprovação científica de qualquer impacto dos canhões em escala de nuvem. A organização também alerta que tecnologias que prometem eliminar fenômenos meteorológicos severos devem ser tratadas com desconfiança.

“Caiu granizo ao lado” não é um experimento
A Prefeitura de Chapecó já apresentou como indício de eficácia o fato de o granizo ter atingido municípios ou bairros próximos, mas não a área coberta pelo sistema. Em março, o diretor municipal de Proteção e Defesa Civil declarou que “tudo indica” que, sem os disparos, a região da Efapi teria sido atingida em pelo menos um dos eventos monitorados.
Na realidade, essa comparação não permite saber o que teria acontecido sem o canhão. Tempestades de granizo são extremamente localizadas. Elas podem deixar faixas estreitas de pedras no solo e poupar naturalmente áreas a poucas centenas de metros. Uma cidade vizinha ser atingida enquanto determinado bairro permanece ileso é compatível tanto com um canhão eficaz quanto com um canhão totalmente inútil.
Como já ressaltamos no guia sobre os diferentes tipos de evidência científica, relatos anedóticos podem levantar uma hipótese, mas não bastam para comprová-la. Contar apenas os casos em que o aparelho disparou e nada aconteceu cria um sistema perfeito para o viés de confirmação: quando não há granizo, o canhão “funcionou”; quando há, afirma-se que a tempestade era forte demais, que o acionamento ocorreu tarde ou que a área estava fora do raio de cobertura.
Uma avaliação séria exigiria critérios definidos antes dos eventos, áreas comparáveis tratadas e não tratadas, dados de radar, uma rede densa de medidores de granizo e análise independente durante várias temporadas. A própria OMM recomenda randomização, critérios objetivos para o início de cada evento e comparação estatística capaz de separar uma intervenção da variabilidade natural. Chapecó não apresentou publicamente um estudo desse tipo.
E os estudos que parecem favoráveis?
Em 2023, pesquisadores poloneses publicaram, na Springer Nature, um estudo intitulado “A primeira evidência científica sobre o canhão antigranizo” (The First Scientific Evidence for the Hail Cannon). A pesquisa combinou simulações computacionais com medições realizadas por um drone antes e depois dos disparos.
Mas o experimento não mediu pedras de granizo, danos no solo ou alterações em uma nuvem de tempestade. O drone coletou dados somente entre o solo e 130 metros de altitude, e os próprios autores descrevem o sinal observado como vapor de água “possivelmente com partículas de poluição”. Demonstrar que explosões movimentam partículas perto do chão não demonstra que elas impeçam o crescimento de gelo a vários quilômetros de altura. A simulação também partiu de um campo de vento imposto ao modelo; ela não substitui um teste controlado em tempestades reais.
Outro estudo publicado em 2025 na Scientific Reports observou mudanças de radar após uma explosão próxima a uma região com granizo. Nesse caso, porém, tratava-se de munição lançada para detonar dentro da nuvem, a cerca de 4,25 quilômetros de altitude, não de uma onda sonora produzida por um canhão instalado no solo. Além disso, os autores analisaram um único evento, sem um grupo de controle, e reconheceram que mais casos precisam ser estudados.
Esses trabalhos podem justificar novas pesquisas sobre as interações locais entre explosões e a atmosfera. No entanto, não validam a promessa comercial associada ao tipo de equipamento adquirido por cidades como Chapecó para enfrentar esse fenômeno atmosférico.
Um recado ao prefeito de Chapecó
Ao prefeito Valmor Scolari, a observação científica é simples: avaliar antes de comprar é o caminho correto, mas a avaliação não pode se limitar a visitar locais que usam o equipamento, ouvir o fornecedor, contar disparos ou comparar Chapecó com municípios vizinhos.
Antes de comprometer mais recursos públicos, a prefeitura deveria exigir um ensaio independente e transparente que demonstre o benefício do sistema. O protocolo, os dados brutos de radar, os registros de granizo, os critérios de acionamento, as áreas de comparação e a análise estatística precisam ser públicos. O ônus de provar que a tecnologia funciona pertence a quem a vende, não à população, que não deveria ter de provar que ela é inútil depois da compra.
Se uma quarta unidade custar valor semelhante às anteriores, o investimento total se aproximará de R$ 3,9 milhões, sem contar operação, combustível, monitoramento e manutenção. Aplicar mais dinheiro antes de demonstrar qualquer efeito mensurável seria um mau uso de recursos públicos.
Isso não significa ignorar o risco real do granizo. Significa enfrentá-lo com medidas cujo benefício possa ser testado: melhores sistemas de radar e alerta, planejamento de resposta, materiais de cobertura resistentes ao impacto e proteção física de cultivos de alto valor. Alertas baseados em radar, satélites e observações no solo ajudam moradores e serviços de emergência a agir antes da tempestade. Na agricultura, uma revisão sistemática recente, com participação da Embrapa, descreve redes antigranizo como barreiras físicas usadas para proteger pomares.
Não é preciso negar que as explosões acontecem ou que o equipamento produz ondas de pressão. A pseudociência aparece quando esses fatos reais são usados para vender uma conclusão que os dados não sustentam: a de que o canhão controla uma tempestade.
O canhão faz barulho. Até hoje, porém, ninguém demonstrou de forma confiável que ele faça algo além disso.





