Pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, conseguiram trazer de volta à plena saúde corais branqueados que estavam à beira da morte em apenas sete semanas. O método foi surpreendentemente simples: deixar cada coral doente encostado, por alguns dias, em um clone saudável de si mesmo.
Segundo o estudo publicado nesta quarta-feira (14) na revista Science Advances, essa é a recuperação de branqueamento mais rápida já documentada. Há, porém, uma ressalva importante: tudo aconteceu em laboratório, e a técnica ainda não pode ser aplicada na escala de um recife inteiro.
O resultado chega em um momento delicado. Por algumas estimativas, os corais podem desaparecer em poucas décadas, à medida que as mudanças climáticas tornam as ondas de calor marinhas mais frequentes e intensas.
Por que o calor deixa os corais brancos e famintos
Apesar da aparência de pedra ou de planta, os corais são animais. Dentro de seus tecidos vivem algas microscópicas e coloridas que funcionam como pequenos painéis solares. Elas fazem fotossíntese e entregam ao coral boa parte da energia de que ele precisa para crescer.
Quando a água esquenta demais, essa parceria se rompe e o coral expulsa as algas. Sem elas, ele fica pálido, quase fantasmagórico, passa fome e se torna vulnerável à invasão de algas nocivas. É isso que os cientistas chamam de branqueamento.
Se o coral sobrevive ao episódio, a recuperação completa pode levar meses ou até anos. Foi esse intervalo perigoso que motivou a pesquisa.
“Embora os corais branqueados possam estar morrendo, eles ainda não estão mortos”, disse o autor principal, Danny Collins, doutorando em oceanos na Escola Doerr de Sustentabilidade de Stanford. “A pergunta que queríamos responder é: depois que um coral branqueou, o que podemos fazer?”
Um tombo no aquário revelou o atalho para a cura
A pista surgiu por acaso. Em 2025, o biólogo marinho Steve Palumbi, coautor do estudo, notou que dois fragmentos de coral retirados da mesma colônia, um branqueado e outro saudável, tinham tombado em um tanque e estavam se tocando. No ponto de contato, a cor começou a voltar ao fragmento branco, sinal de que as algas benéficas estavam retornando.
Na mesma época, Collins estudava a origem de doenças em corais, em especial a transmissão de bactérias que vivem em detritos plásticos depositados sobre eles. A ideia, então, foi inverter a lógica.
“Bactérias nocivas entram nos corais por contato físico”, explicou Collins. “Ficamos curiosos sobre o que aconteceria se usássemos o contato para reintroduzir algo bom: as algas benéficas de corais saudáveis.”
Para testar, ele montou dez pares de fragmentos do mesmo animal, cada um com uma peça branqueada e outra saudável. Cinco pares ficaram encostados; nos outros cinco, havia um vão de apenas poucos milímetros. Os fragmentos que se tocavam se recuperaram totalmente em sete semanas. Os que não se tocavam morreram.
Mas por que o contato faz tanta diferença? Na maioria das espécies, um coral se multiplica produzindo clones que crescem juntos e formam enormes colônias com o mesmo DNA. Esses clones se reconhecem.
“Corais geneticamente idênticos se reconhecem quando entram em contato”, afirmou Palumbi, professor de oceanos e de biologia em Stanford. “Seus tecidos se fundem se forem do mesmo clone. Vemos algo parecido em humanos. Transplantes de órgãos costumam dar certo se o doador for seu gêmeo idêntico.”
Com um microscópio potente, a equipe viu que canais microscópicos nos tecidos dos dois fragmentos se alinham pouco depois do encontro. Eles formam uma espécie de ponte por onde passam as algas e os nutrientes que elas produzem. Em três dias, as algas já haviam migrado do coral saudável para o branqueado.
Os pesquisadores também separaram os pares em momentos diferentes. Bastou uma semana de contato, e em alguns casos só cinco dias, para que o fragmento doente recebesse algas suficientes para terminar a recuperação sozinho, nas mesmas sete semanas dos pares que ficaram sempre juntos.
Isso levou a equipe a concluir que o principal motor da recuperação contínua não era a viagem de algas a partir do fragmento saudável, e sim a multiplicação delas dentro do próprio coral branqueado.
“Quando as algas benéficas entram nos corais branqueados, elas não apenas se espalham”, disse Palumbi. “Elas inundam o coral e começam a se dividir nas taxas mais rápidas já vistas em corais.” Na segunda semana de contato, a população de algas dobrava a cada quatro dias, cerca de dez vezes mais rápido do que em corais na natureza.
Do tanque ao recife, o desafio é levar as algas sem precisar de clones
Há décadas, cientistas buscam formas de proteger os corais do branqueamento, de surtos de doenças e da acidificação dos oceanos. Entre as estratégias estão a criação seletiva de corais mais tolerantes ao calor, os viveiros para restaurar recifes degradados e até o transplante de microbiomas.
“Corais branqueados costumam ser considerados uma causa perdida, porque a recuperação depois de uma onda de calor é muito lenta, quando acontece”, afirmou Fiorenza Micheli, professora de ciências marinhas em Stanford e orientadora de Collins. Ela espera que o trabalho inspire soluções que mantenham os corais saudáveis tempo suficiente para se recuperarem totalmente por processos mais lentos, como crescimento, reprodução e recrutamento de novas colônias.
Os próprios autores, no entanto, reconhecem o limite da técnica. Ela exige uma cópia saudável e geneticamente idêntica de cada coral branqueado, algo inviável na escala necessária para salvar recifes.
Por isso, nos próximos meses, a equipe pretende testar outras formas de entregar as algas benéficas sem depender do contato contínuo. Uma possibilidade é coletar algas de corais saudáveis bem antes das ondas de calor e depois aplicá-las em grandes lotes nos corais afetados.
Se essa espécie de “banco de algas” funcionar, um coral pálido talvez deixe de ser sentença de morte e passe a ser apenas um paciente à espera de tratamento.





