Sob camadas de sedimento no interior do Alasca, arqueólogos recolheram mais de 80 mil artefatos deixados por pessoas que acamparam ali há cerca de 13.800 anos. O lugar se chama Shég’ Xdaltth’í’, expressão atabascana, língua de povos nativos do Alasca, que significa “eles estiveram lá”.
Segundo o estudo liderado por Kelly Graf e publicado na revista Science Advances, as ferramentas do sítio lembram as de sítios mais a oeste da Beríngia. Isso pode indicar uma conexão cultural entre os dois lados da antiga ponte de terra. É uma possibilidade, não uma conclusão fechada.
A Beríngia era a faixa de terra que, na última era glacial, ligava a Ásia à América onde hoje fica o Estreito de Bering. Ela surgiu porque boa parte da água do planeta estava presa no gelo e o nível do mar baixou. Por ali passaram os primeiros povos a chegar ao continente americano, mas como e quando essa travessia aconteceu ainda divide os arqueólogos.
A equipe descreveu pela primeira vez a camada mais antiga do sítio. Os pesquisadores leram a estratigrafia, isto é, a sequência de camadas de solo, que funciona como páginas empilhadas pelo tempo. Também fizeram datações por radiocarbono e analisaram restos de animais e plantas. O conjunto mostra que o lugar não foi uma parada rápida: virou um acampamento-base usado de forma contínua por mais de dois séculos.
Entre as peças, chama atenção um tipo particular de biface encabado, uma ponta de pedra lascada dos dois lados e presa a um cabo ou haste.
Essa forma, junto com outras ferramentas do sítio, se parece com as encontradas mais a oeste. Outros artefatos, porém, lembram os de sítios pré-Clovis, Clovis, Folsom e paleoíndios tardios, culturas que viveram bem mais ao sul, nas regiões temperadas da América do Norte. O acampamento parece conversar com os dois lados da história.
Em um comentário que acompanha o estudo, Spencer Pelton discute por que sítios como esse estão reavivando uma ideia antiga. Segundo essa ideia, os exploradores beringianos que entraram na América do Norte entre 20 mil e 15 mil anos atrás teriam ficado retidos até que o recuo das geleiras abrisse caminho para o sul.
Se essa leitura se confirmar, o Alasca pode ter sido menos um corredor de passagem e mais uma longa sala de espera para os primeiros americanos.





