“É a água que separava as pessoas, mas também era a água que conectava as pessoas.” A frase é do arqueólogo Shadreck Chirikure, da Universidade de Oxford, e resume bem o achado mais recente de sua equipe.
Escavando o Grande Zimbábue, capital de um império medieval no sudeste da África, os pesquisadores encontraram fragmentos de cerâmica verde-jade produzida no leste da China. A descoberta sugere que esse reino mantinha ligações com o Leste Asiático há mais de mil anos. Os cacos, porém, são raros no sítio, e, segundo Chirikure, talvez fossem usados pelas elites como uma louça exótica muito valorizada.
O brilho verde-jade que só os fornos chineses sabiam produzir
O fragmento foi examinado por Chirikure e pela doutoranda Muchen Zhou, também da Universidade de Oxford, depois de ser desenterrado na encosta do sítio. O que chamou a atenção foi o brilho vítreo da superfície.

Esse acabamento lustroso indica que a peça foi queimada em temperatura altíssima. Pense na diferença entre um vaso de barro comum, fosco e poroso, e uma louça fina que parece envidraçada. Naquela época tão remota, essa façanha técnica só havia sido alcançada na China.
O estilo tem nome: celadon de Longquan. Esse tipo de peça começou a ser fabricado no leste chinês por volta do ano 950.
Segundo Chirikure, esses cacos aparecem espalhados por todo o Grande Zimbábue, mas sempre em pequenas quantidades.
“Isso significa que as cerâmicas chinesas são uma raridade. Talvez fossem usadas pelas elites. Teriam sido uma louça exótica bastante significativa ou muito valorizada”, explicou o pesquisador.
Uma capital africana que os colonizadores tentaram apagar
O Grande Zimbábue fica no sudeste do atual Zimbábue e foi o centro de um império que surgiu por volta do ano 1000. Pouco se sabe sobre ele porque seu povo não deixou registros escritos. A civilização ficou conhecida pela metalurgia sofisticada e pelas esculturas rituais em pedra.
O sítio foi escavado pela primeira vez no fim do século 19 e logo saqueado por colonos britânicos, interessados em marfim, metais e ouro. Eles insistiam que os africanos não poderiam ter construído a cidade e atribuíam a obra aos fenícios, povo originário do Mediterrâneo.
Essa ideia falsa serviu de justificativa para levar os artefatos à Inglaterra. Hoje, muitas peças do Grande Zimbábue estão no acervo do Museu Pitt Rivers, da Universidade de Oxford.
Para Chirikure, o tema é pessoal. “Quando eu era criança, estava cercado de símbolos do Grande Zimbábue. Só quando comecei a estudar arqueologia na universidade percebi que havia um debate enorme sobre quem tinha construído o Grande Zimbábue”, afirmou no documentário “Secrets of the Dead: Africa’s Golden City”, da rede americana PBS, que acompanhou a equipe do campo ao laboratório.
Uma rede de trocas que cruzava o oceano Índico
As novas escavações mostram um reino muito bem conectado, que floresceu do século 11 até pelo menos o século 15. Seu declínio pode ter ocorrido quando a população cresceu demais para uma terra seca e esgotada pela agricultura.
A cerâmica chinesa não é a única pista de comércio distante. Os arqueólogos já haviam encontrado no sítio objetos de vidro vindos do Sudeste Asiático, da Índia e do Oriente Médio, todos trazidos por barco.
“Da Índia ou do Sri Lanka até o Grande Zimbábue são pelo menos 8.000 quilômetros”, disse Chirikure. Para ter uma ideia, é quase a distância de ida e volta entre o Oiapoque e o Chuí.
Como alguém cruzava essa distância na Idade Média? Os mercadores navegavam pelo oceano Índico aproveitando os ventos das monções, que mudam de direção conforme a estação, funcionando como uma espécie de esteira rolante sazonal para os navios.
As trocas também aconteciam dentro do continente. Havia objetos de metal vindos da atual República Democrática do Congo, a cerca de 2.000 quilômetros. Cobre e estanho chegavam do território da atual África do Sul, a mais de 500 quilômetros.
Até o gado circulava. Análises químicas de ossos de bois revelaram que alguns animais eram negociados numa área de cerca de 140 quilômetros. Isso é possível porque os ossos guardam uma assinatura química do lugar onde o animal cresceu.
O mistério da pedra-sabão dos pássaros sagrados
O próximo passo de Chirikure é olhar para recursos locais carregados de significado para os shona, maior grupo indígena do Zimbábue, e para os zimbabuanos. Um deles é a pedra-sabão, uma rocha macia e fácil de esculpir.
Com ela foram feitos os famosos pássaros esculpidos do Grande Zimbábue. Inspirado nessas peças, o Pássaro do Zimbábue virou emblema nacional e aparece em destaque na bandeira do país.
“Os pássaros de pedra-sabão são uma parte importante do Grande Zimbábue, mas ninguém sabe realmente de onde eles tiravam essa pedra”, disse o arqueólogo. Há vários afloramentos da rocha ao redor do sítio.
“Da próxima vez em campo, essa é uma das coisas que quero fazer: simplesmente ir lá e tentar encontrar as fontes geológicas dessa pedra-sabão.”





