Cães domésticos parecem associar a palavra inventada “bouba” a formas arredondadas e “kiki” a formas pontiagudas, como faz a maioria das pessoas. A conclusão vem de um estudo liderado pela especialista em comportamento animal Eleonora Biffi, da Universidade de Parma, na Itália, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. Os próprios resultados, porém, ainda são um ponto de partida, não uma prova definitiva.
O teste bouba/kiki foi concebido na década de 1920. Ele usa duas figuras simples, uma cheia de curvas e outra cheia de pontas, e pergunta qual delas se chama “bouba” e qual se chama “kiki”. Não existe resposta certa, já que as palavras não significam nada. Mesmo assim, a maioria das pessoas, independentemente da língua ou do alfabeto, escolhe igual: kiki é a espinhosa e bouba é a redonda. Isso sugere que pode haver algo universal na forma como ligamos sons a imagens.
A equipe italiana quis saber se um cão faria a mesma ligação.
No primeiro experimento, 51 cães entraram com seus donos em uma sala com uma tela e um alto-falante à esquerda e outro par à direita. Depois de explorar o ambiente, cada animal ficou sentado com o tutor, de frente para o centro. Por cerca de 15 minutos, uma voz humana dizia “bouba” ou “kiki” enquanto as duas figuras trocavam de lado nas telas. Uma câmera GoPro filmou tudo, e uma inteligência artificial analisou para onde apontava a cabeça de cada cão. É mais ou menos como adivinhar para onde alguém olha pela direção do nariz.
Um segundo experimento, com outros 19 cães, repetiu o desenho com uma diferença: os donos usavam fones tocando rock, para não ouvirem as palavras e não darem pistas sem querer.
No conjunto, os cães olharam significativamente mais para a forma redonda ao ouvir “bouba” e olharam e exploraram mais a forma pontuda ao ouvir “kiki”.
Houve uma curiosidade. No primeiro teste, os animais mostraram uma preferência geral por olhar a figura espinhosa, que sumiu quando os donos estavam de fone. Seria influência dos tutores? Os autores duvidam.
“Poderia ser levantada a hipótese de que os cães foram influenciados por pistas não intencionais dos donos. No entanto, como os humanos costumam mostrar uma preferência mais forte por formas arredondadas ou curvas do que por pontiagudas, isso é improvável”, escrevem Biffi e colegas no artigo.
Eles levantam outra explicação: o rosto dos cães, especialmente o dos cães antigos e dos lobos, tem traços mais angulosos, ao contrário da face redonda típica dos bebês humanos, o que poderia favorecer uma inclinação oposta à nossa.
O achado importa porque pode ajudar a entender por que os cães captam tão rápido a linguagem humana e como se tornaram nossos companheiros. Ainda falta muita pesquisa, porém, para afirmar que eles de fato associam esses sons a essas formas.





