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Parente de mamíferos que lembrava uma lontra já tinha palato mole há 165 milhões de anos

Por Editado por Damares Alves
Como editamos

Como um filhote de mamífero consegue mamar e respirar sem se engasgar? Parte da resposta pode estar em um fóssil de 165 milhões de anos encontrado em Xiayingzi, na Mongólia Interior, na China. Nele, pesquisadores de Shenyang, Chicago e Bonn identificaram uma espécie nova, Megacauda sungei. Era um caçador aquático de cerca de meio metro que já apresentava sinais de um palato mole sofisticado, a estrutura que separa a boca da faringe.

A descrição do animal está em estudo publicado na revista Nature, assinado por cientistas da Universidade Shandong, da Universidade de Chicago e da Universidade de Bonn. O bicho não era um mamífero propriamente dito, e sim um parente próximo. A presença do palato foi deduzida a partir das evidências anatômicas preservadas no fóssil.

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Ainda assim, o achado indica um passo precoce rumo a uma das vantagens mais decisivas da linhagem que levaria aos seres humanos.

Um palato que permitiu mamar sem engasgar

Muitos animais não têm palato mole e contam apenas com um arranjo relativamente simples de ossos hioides na garganta. Sem o mecanismo de deglutição complexo dos mamíferos, comer exige outros movimentos. Os crocodilos, por exemplo, erguem a cabeça e dão trancos bruscos para empurrar a comida, sem mastigar, garganta abaixo.

“Isso é feito com a ajuda da gravidade”, explica o paleontólogo Thomas Martin, da Universidade de Bonn.

Os mamíferos têm uma estrutura hioide mais elaborada, que permite engolir mesmo com a gravidade trabalhando contra. Por isso uma pessoa consegue beber de canudo de cabeça para baixo e continuar respirando. Para os filhotes, essa capacidade é vital, porque impede que o leite, rico em nutrientes, invada as vias nasais. Uma amamentação eficiente deu à linhagem uma vantagem importante de sobrevivência.

Em comunicado da Universidade de Bonn, Martin vai além:

“Foi essa adaptação que tornou possível o desenvolvimento do cérebro, que acabou levando aos humanos. O palato mole e a modelagem da cavidade oral e da faringe estão diretamente ligados à evolução dos mamíferos.”

O que surpreende é que Megacauda sungei já exibia indícios dessa novidade anatômica milhões de anos antes do surgimento dos mamíferos modernos.

Cauda achatada e caninos com três raízes

Com pelo curto e cauda larga e achatada, o animal lembraria uma lontra, um castor ou um ornitorrinco. Tomografias computadorizadas do fóssil permitiram montar reconstruções tridimensionais detalhadas do esqueleto. Os modelos sugerem que ele nadava remando com as patas dianteiras e ondulando a cauda, enquanto as patas traseiras provavelmente ajudavam a mudar de direção.

“É a evidência mais antiga de um modo de vida aquático em mamíferos”, afirma Martin.

Os dentes também chamaram atenção. Tinham cúspides curvadas para trás, úteis para segurar presas escorregadias. Os caninos tinham três raízes, característica incomum que surpreendeu a equipe.

Um peso-pesado de dois quilos na era dos dinossauros

Comparando o fóssil com outros espécimes pré-históricos e com animais atuais, os pesquisadores concluíram que a espécie pertence aos docodontes. Esse grupo extinto de mamaliaformes, os parentes primitivos dos mamíferos, era bastante difundido no período Jurássico.

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“A nova espécie Megacauda sungei é o maior dos mamaliaformes do Jurássico”, diz Martin. Com cerca de meio metro e dois quilos, o “superpredador” pareceria insignificante ao lado de elefantes ou baleias. Mas, na Era Mesozoica, dominada pelos dinossauros entre cerca de 230 milhões e 66 milhões de anos atrás, os parentes dos mamíferos costumavam ser pequenos, e muitos pesavam poucos gramas.

A importância do fóssil quase passou despercebida. O Museu Paleontológico de Liaoning, em Shenyang, adquiriu a peça anos atrás, dentro de uma coleção. Suas particularidades só ficaram evidentes quando Chang-Fu Zhou, da Universidade Shandong, Zhe-Xi Luo, da Universidade de Chicago, e Martin a examinaram juntos. O nome une “cauda grande” (Megacauda) a uma homenagem a Sun Ge, diretor honorário do museu.

Outros docodontes jurássicos já mostravam que o grupo se adaptou a ambientes muito diferentes, com espécies que viviam em árvores e outras que cavavam o solo como toupeiras. A nova espécie acrescenta a vida na água a esse repertório.

“Isso mostra como os docodontes estavam espalhados pelo Hemisfério Norte e que esse grupo diverso de animais desenvolveu modos de vida muito diferentes em um estágio incrivelmente precoce”, resume Martin.

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