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Crianças que vivem no mar enxergam o dobro debaixo d’água, e meninas europeias melhoraram com treino em piscina

Por Editado por Elisson Amboni
Como editamos

Abrir os olhos numa piscina quase sempre significa ver tudo embaçado. Um grupo de crianças nômades do mar, no sudeste da Ásia, enxerga bem melhor debaixo d’água, e um estudo posterior com meninas europeias mostrou que essa limitação pode ser, ao menos em parte, superada com treino.

Crianças do povo Moken, que vive na costa do mar de Andamão, entre a Tailândia e Mianmar, enxergaram debaixo d’água com mais que o dobro da nitidez de crianças europeias em testes. A constatação veio de um estudo publicado em 2003 na revista Current Biology, liderado pela pesquisadora Anna Gislén, da Universidade de Lund, na Suécia.

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Anos depois, a mesma equipe ensinou quatro meninas em Lund, na Suécia, a fazer algo parecido. O resultado, porém, tem ressalvas importantes.

Pupilas que encolhem no fundo do mar

Em 1999, Gislén observou crianças Moken mergulhando de casas sobre palafitas nas ilhas Surin, a três ou quatro metros de profundidade, sem máscara. Elas voltavam com mariscos, conchas e pepinos-do-mar, de olhos bem abertos o tempo todo.

Enxergamos mal debaixo d’água por um motivo físico. Em terra, a maior parte do foco é feita pela córnea, na passagem da luz do ar para o tecido. Como a água e a córnea desviam a luz quase da mesma forma, o olho perde cerca de dois terços do seu poder de foco ao submergir.

No teste, seis crianças Moken, de 8 a 13 anos, e 28 europeias, de 7 a 14, identificavam a direção de listras cada vez mais finas com o rosto na água. As Moken distinguiram 6,06 ciclos por grau, contra 2,95 das europeias. Em terra, os dois grupos tiveram desempenho igual.

Segundo cálculo dos autores, grande parte da vantagem estava em contrair a pupila. Com pouca luz, ela normalmente se dilata, mas as pupilas das crianças Moken encolhiam para cerca de 1,96 milímetro debaixo d’água, contra 2,5 nas europeias. Isso reduz o borrão de cada ponto na retina.

O restante da vantagem vinha da acomodação, o esforço muscular que muda o formato do cristalino. As crianças Moken o faziam no limite do olho humano, por volta de 15 a 16 dioptrias.

Um mês de piscina em Lund

Gislén descartou que o efeito fosse um reflexo do mergulho: crianças europeias sem treino não contraíam a pupila na água. Restavam aprendizado ou genética. No trabalho publicado em 2006 na revista Vision Research, a equipe treinou quatro meninas, uma de 13 e três de 9 anos.

Ao longo de 33 dias, elas fizeram 11 sessões numa piscina coberta. A acuidade subaquática passou de 2,63 para 3,35 ciclos por grau, um ganho de 27%. No dia 149, mesmo sem novos mergulhos, chegou a 4,14, 57% acima do início.

Oito meses após a última sessão, numa piscina ao ar livre e sob sol forte, as meninas atingiram média de 8,01 ciclos por grau, contra 6,06 dos Moken, com pupilas de cerca de 1,9 milímetro. A diferença não foi estatisticamente significativa. Segundo os autores, elas “igualaram ou superaram” os Moken.

O que o treino não prova

A comparação tem limites apontados pelos próprios pesquisadores. O teste final ocorreu sob luz muito mais intensa que o treino, e o dado dos Moken veio de outro estudo, feito três anos antes. As meninas também podem ter se beneficiado por terem passado tanto tempo olhando exatamente aquele tipo de listra.

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O resultado mostra que a habilidade pode ser aprendida, mas não exclui uma contribuição genética. Além disso, só crianças foram testadas, e o cristalino enrijece com a idade. Tampouco os Moken enxergam “como golfinhos”: em terra, nada em seus olhos chamou atenção.

Se a habilidade depende da infância no mar, ela pode estar desaparecendo. O tsunami de dezembro de 2004 destruiu boa parte das aldeias nas ilhas Surin, e a vida da comunidade passou a girar mais em torno da terra firme e do turismo no parque nacional.

“Eles simplesmente não passam mais tanto tempo no mar, então duvido que alguma das crianças que crescem hoje na tribo tenha essa visão extraordinária”, afirmou Anna Gislén, da Universidade de Lund.

Se ainda há crianças Moken com essa visão, ninguém publicou até agora.

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